O que faz um biotecnologista, coringa em todas as áreas da ciência

Publicado em 23/02/2022
Por Você S/A Online em 11/02/2022

Nathalia Indolpho, biotecnologista da Natura.

O mercado de trabalho é vasto e acolhedor para cientistas que incorporam organismos vivos nas mais diversas (e avançadas) tecnologias – seja para a saúde pública, seja para o melhoramento de produtos.

Foi trabalhando por cinco anos no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) que Nathalia Indolpho, da Natura, conheceu a área da biotecnologia que mais a encantou – e que faz parte de seu ofício até hoje: o desenvolvimento de substitutos para o uso de animais como cobaias na pesquisa científica. ‘Foi nessa hora que encontrei um propósito na minha profissão’, afirma. ‘Participei da implementação de metodologias inovadoras para não ter de recorrer ao sacrifício de bichinhos, como os sistemas microfisiológicos [estruturas celulares em 3D que emulam tecido vivo].’

Se falamos em ‘uma área dentro da biotecnologia’ é porque a profissão abrange um universo de possibilidades. Essa ciência envolve tudo o que usa organismos vivos – ou parte deles – em uma série de tecnologias.

Por exemplo, para começar a produção de uma vacina, é necessário um antígeno – aquele termo que você ouve quando passa pelo teste de Covid na farmácia. O antígeno é uma partícula ou molécula fabricada pela biotecnologia com o propósito de deflagrar a produção de anticorpos no nosso organismo.

Isso na área da saúde. Há ainda uma diversidade de aplicações da biotecnologia que não têm essa função de salvar vidas, mas sim de tornar grandes negócios mais ecológicos, seguros e rentáveis. Na área do agro, pesquisadores vêm estudando opções de fertilizantes baseados em bactérias – para que substituam seus pares puramente químicos. Na indústria têxtil, tecidos sintéticos ganham alternativas mais naturais graças à ciência.

‘Nosso setor tem uma semelhança com a área de Administração, que é oferecer um campo de atuação amplo e diversificado’, aponta Vanessa Silva, presidente da Associação Nacional de Empresas de Biotecnologia e Ciências da Vida (Anbiotec). ‘O biotecnologista pode ser desde o farmacêutico que trabalha na drogaria até um alto gestor de tecnologia, que toma decisões na esfera governamental ou industrial, passando pelo cientista que não sai do laboratório.’

Um coletivo de profissionais e estudantes voluntários chamado Profissão Biotec, dedicado a divulgar o trabalho dos biotecnologistas, aponta atividades com boas perspectivas para seguir carreira hoje. Destacamos sete aqui: melhoramento da produção agrícola; controle de qualidade e análise de materiais; desenvolvimento de cosméticos; área comercial e de marketing (usando seus conhecimentos teóricos para apresentar aos clientes a eficiência de produtos biotecnológicos); desenvolvimento de fármacos e terapias; assuntos regulatórios (lidar com as legislações e patentes desses produtos); bioinformática (como desenvolver softwares voltados à análise de dados de sequenciamento genético).

Por conta própria

A biotecnologia também tem espaço para profissionais autônomos e empreendedores.

Muitos biotecnologistas se tornam consultores científicos depois de angariar uma boa experiência. ‘A indústria farmacêutica, por exemplo, conta com conselheiros seniores, autônomos, que costumam faturar R$ 20 mil por mês ou mais’, diz Vanessa Silva.

Para quem tem o empreendedorismo na veia, uma das linhas de atuação da Anbiotec é apoiar o desenvolvimento de startups. Segundo a presidente da associação, nas regiões Norte e Nordeste, essas pequenas empresas estão surgindo cada vez mais para implementar biotecnologias voltadas à agricultura. Mas há startups pelo Brasil todo. ‘Nos EUA, os estados concorrem entre si para ver quem atrai mais startups de biotecnologia, geralmente diminuindo ou até zerando impostos’, explica Vanessa. ‘Na América Latina, o Uruguai já tem essa política há anos. É uma tendência que vem crescendo.’

Sociedade

Fuga da mão de obra: debandada de brasileiros para o exterior atinge recorde

Falando em outros países, biotecnologistas brasileiros também encontram oportunidades de trabalho e bolsas de pesquisa no exterior. Os americanos estão à frente nessa busca por talentos estrangeiros, e a Coreia do Sul também tem sido um destino frequente para quem perde a esperança com a falta de apoio do governo brasileiro à ciência.

Aprender sempre

É tanta área de atuação em biotecnologia que a impressão é de pleno emprego no ramo. E é mais ou menos por aí. Segundo a Anbiotec, tem lugar para todo mundo. Para começar de baixo na biotecnologia, basta fazer cursos técnicos na área, como os oferecidos pelo Senai. Para os mais jovens, pode ser um bom passo antes de decidir por uma graduação.

Mas quem tem a ambição de ver a carreira decolar precisa correr rapidamente para uma especialização. Um tecnólogo com curso básico não vai assinar um relatório para uma agência regulatória, como a Anvisa. Empresas que procuram profissionais com perfil de pesquisa costumam exigir mestrado ou doutorado. ‘Para se destacar, o biotecnologista não pode parar no diploma da faculdade’, define Vanessa Silva.

No curso superior, o estudante vai entrar em contato com temas como biologia molecular, bioprocessos, biorremediação, microbiologia, entre outros. Os estágios de iniciação científica começam cedo: no máximo, no segundo ano de faculdade. A formação, portanto, é bem prática. A familiaridade com o ambiente de laboratório e com o trabalho em grupo, tão essencial para a profissão, tem início em paralelo com a educação teórica.

Uma profissão que muda a sociedade

A biotecnologista Nathalia Indolpho é enfática quando se trata da importância da formação universitária. ‘Além das competências técnicas, que são indispensáveis, é muito importante ter capacidade analítica, senso crítico, uma boa comunicação para conseguir expor os dados científicos para diretores de empresa que às vezes são leigos’, explica. ‘E, para atuar em laboratório, é muito importante ter organização e disciplina. A graduação te dá tudo isso.’

Apaixonada por ciência e inovação, Nathalia tinha o sonho de atuar numa profissão em que pudesse fazer diferença no mundo. Soube que isso era possível quando descobriu que a Universidade Federal de São Carlos (SP) iria abrir um curso de biotecnologia.

Durante a graduação, ela fez duas iniciações científicas e dois estágios. ‘Como nosso campo de atuação é muito grande, essas atividades práticas me ajudaram a perceber o que eu gostava e o que não gostava de fazer em biotecnologia.’

Nathalia partiu para um mestrado na Unicamp assim que se formou, e ainda uma especialização em pesquisa clínica. Após cinco anos trabalhando no CNPEM, veio a oportunidade de trabalhar na Natura.

‘O que me abriu portas na empresa foi minha participação constante em congressos e cursos de biotecnologia. Quando surgiu a vaga, logo fiquei sabendo, porque a frequência nos eventos me deu um networking importante.’

A Natura não realiza testes em animais para o desenvolvimento de seus produtos desde 2006. Para encontrar métodos alternativos – que no caso da empresa são células e tecidos 3D bioimpressos -, a empresa precisa de profissionais que atuem com protocolos de avaliação de eficácia e de segurança das matérias-primas. Foi aí que Nathalia se encaixou. Ela é especialista em segurança de produtos na companhia de cosméticos.

Essa mulher de ciência avalia todas as fórmulas que vão para o mercado, e isso requer estudos toxicológicos de cada ingrediente. Também faz parte do time que testa a segurança das matérias-primas desenvolvidas pela própria Natura. São cerca de 40 itens provenientes da biodiversidade amazônica, como óleos, extratos e manteigas.

‘Se a gente desenvolve um ingrediente da Amazônia, isso precisa ser testado antes de entrar nas formulações’, ela diz. Graças a profissionais como Nathalia, esses testes não são mais feitos com animais. Sendo fiel aos sonhos da estudante que era antes de se decidir por uma faculdade, essa biotecnologista continua trabalhando para tornar o mundo um lugar melhor.

Um dia na vida

Atividades-chave

Dependem da área de atuação. Basicamente incluem trabalhar em laboratório com tecnologias que incorporam organismos vivos ou parte deles. E isso pode ser para desenvolvimento e melhoramento de produtos e serviços; incorporação de novos processos; controle e garantia de qualidade. Fora do laboratório, prestar consultoria, elaborar e analisar documentação científica e patentes, atuar em vendas técnicas.

Quem contrata

Farmacêuticas, hospitais, agrobusiness, pecuária, empresas de cosméticos, universidades etc.

Pontos positivos

O mercado de trabalho é muito amplo e a profissão está em alta. Além disso, há uma diversidade de funções de acordo com a área (como você viu nas ‘atividades-chave’). Então não falta emprego.

Pontos negativos

Não faltar emprego não quer dizer que seja fácil ganhar bem. Quem não tem mestrado e especializações tende a empacar nas atividades mais básicas.

O que fazer para atuar na área

Formação em Biotecnologia e continuar sua jornada de educação, com mestrado, doutorado e especializações na área que você escolher. Soft skills como capacidade de trabalho em grupo e boa comunicação ajudam, pois se trata de um trabalho coletivo e que precisa ser explicado para leigos.

Salário

R$ 2.460 a R$ 5.703*

*Médias de acordo com a função. Fonte: salario.com.br