Atualização aumenta em até sete vezes o fluxo de fótons e permite explorar fenômenos antes inacessíveis com a técnica de RIXS
A linha de luz Ipê, do Sirius, passa por uma atualização importante com a substituição de seu ondulador — o componente responsável por gerar a radiação síncrotron utilizada nos experimentos. A mudança representa um avanço estratégico para pesquisas que utilizam a técnica de espalhamento inelástico ressonante de raios X (RIXS, na sigla em inglês), uma das mais exigentes em termos de brilho e controle da fonte.
Um novo ondulador para uma nova geração de experimentos
A nova fonte da linha Ipê é um ondulador elíptico (EPU) com 3,4 metros de comprimento, substituindo o dispositivo anterior de 1 metro. O aumento no comprimento efetivo do ondulador resulta em ganho significativo de brilho e no fluxo de fótons na amostra, além de permitir o controle completo da polarização da radiação incidente — linear horizontal, vertical e circular. Esses avanços elevam o desempenho dos experimentos de RIXS a um novo patamar.
O impacto mais imediato está no aumento do fluxo de fótons. A intensidade da radiação na amostra pode ser até sete vezes maior — um avanço particularmente relevante para experimentos de RIXS, nos quais o sinal é intrinsecamente fraco. Esse ganho não se traduz apenas em aquisições mais rápidas, mas em uma mudança no regime experimental, viabilizando varreduras sistemáticas em energia, ângulo, momento, temperatura e campos externos dentro de tempos experimentais realistas. “O número de fótons por segundo chegando na amostra aumenta significativamente — isso muda completamente o tipo de experimento que conseguimos fazer”, explica Tulio Costa Rizuti da Rocha, coordenador da linha Ipê.
Esse ganho de intensidade também tem impacto na resolução espectral. A maior disponibilidade de fótons permite operar com largura de banda incidente mais estreita, mantendo estatística adequada, permitindo investigar excitações em escalas de energia cada vez menores. Isso abre caminho para o estudo de fenômenos de baixa energia, como excitações coletivas e flutuações quânticas, que antes estavam fora do alcance experimental da linha.
Além disso, o controle da polarização introduz seletividade nos processos de excitação. A dependência do sinal de RIXS com o estado de polarização da luz incidente e a geometria de espalhamento permite acessar a simetria das excitações por meio das regras de seleção. Na prática, isso viabiliza experimentos de dicroísmo (linear e circular) e a separação de diferentes canais de espalhamento, como contribuições magnéticas, orbitais e de carga, ampliando de forma decisiva a capacidade de interpretar e decompor os espectros de RIXS.
Em conjunto, esses avanços redefinem o regime experimental da linha Ipê, combinando alto fluxo, alta resolução e controle de polarização aos experimentos de RIXS. Isso permite não apenas medidas mais eficientes, mas o acesso sistemático a excitações de baixa energia, canais de espalhamento fracos e efeitos dependentes de simetria, abrindo novas possibilidades, por exemplo, no estudo de fenômenos emergentes em materiais quânticos.
Colaboração internacional com o Paul Scherrer Institute (PSI)
O novo ondulador não foi construído do zero: ele veio do Paul Scherrer Institute, onde operava no síncrotron Swiss Light Source (SLS). A incorporação deste equipamento ao Sirius foi viabilizada por uma colaboração internacional que envolveu tanto aspectos científicos quanto estratégicos.
Durante o recente upgrade da rede magnética do SLS, o laboratório suiço precisou reorganizar o espaço interno do acelerador. A nova configuração da máquina, mais compacta e com maior densidade de componentes, impôs restrições físicas que dificultaram a operação de onduladores mais longos e volumosos. Como resultado, alguns dispositivos antes utilizados deverão ser substituídos por versões mais compactas, abrindo a oportunidade para reutilização destes complexos equipamentos.
A aquisição do ondulador pelo CNPEM foi, portanto, uma solução eficiente sob múltiplos aspectos. Além de reduzir custos, a iniciativa fortaleceu a parceria com o PSI. Parte desse acordo envolve atividades científicas conjuntas durante o período de atualização de suas instalações.
Desafios de instalação e próximos passos
A instalação do novo ondulador apresentou desafios técnicos relevantes. Com cerca de 3,4 metros de comprimento na parte magnética e pesando aproximadamente 17,5 toneladas, trata-se do maior dispositivo de inserção já instalado no Sirius. “Foi um dos equipamentos mais pesados que a gente já instalou no Sirius, e tivemos que aumentar a capacidade dos nossos equipamentos para movimentação e posicionamento dentro do túnel. O maior desafio é posicionar e alinhar essa carga com uma tolerância de dezenas de micrômetros”, destaca Sergio Lordano , líder do grupo de Dispositivos de Inserção e Diagnóstico (IDS).
Cassetes de ímãs do ondulador posicionados ao redor da câmara de vácuo no anel de armazenamento do Sirius. O alinhamento do conjunto exige tolerâncias da ordem de dezenas de micrômetros.
Além das dimensões do equipamento, a instalação exigiu uma série de cuidados relacionados ao sistema de vácuo do acelerador. A câmara de vácuo principal, adquirida junto ao ondulador do Swiss Light SOurce (SLS), possui um revestimento interno responsável por auxiliar na obtenção das condições de ultra-alto vácuo necessárias para a operação do Sirius. Antes da instalação, a câmara passou por testes e inspeções realizados pela equipe da Diretoria Adjunta de Tecnologia (DAT) para verificar a integridade e a eficiência desse revestimento. “Precisávamos garantir que a câmara pudesse ser instalada sem comprometer a qualidade do sistema de vácuo do anel de armazenamento”, explica Thiago Mendes da Rocha, gerente do grupo de Sistemas de Vácuo, Pressão e Criogenia (VPC).
O alinhamento também foi um aspecto crítico do processo. A folga entre os magnetos do ondulador e a câmara de vácuo do acelerador é da ordem de centenas de micrômetros, o que exige um posicionamento extremamente preciso e torna a operação particularmente delicada. As tolerâncias de alinhamento, ainda mais rigorosas — na faixa das dezenas de micrômetros — são essenciais para evitar qualquer impacto no feixe de elétrons. “O monitoramento contínuo da folga durante a movimentação, utilizando lâminas calibradas e medições com o laser tracker, foi determinante para o sucesso da operação, permitindo ajustes finos e aumentando significativamente a confiabilidade do posicionamento final”, afirma Douglas Luis Passuelo, gerente do grupo de Metrologia (MET).
A distância entre os cassetes de ímãs do novo ondulador da linha Ipê e a câmara de vácuo é de apenas algumas centenas de micrômetros, exigindo alinhamento extremamente preciso durante a instalação.
As grandes dimensões do ondulador trouxeram uma camada de complexidade extra para o trabalho realizado pelos grupos da Diretoria Adjunta de Tecnologia (DAT). ” Trata-se de um cenário em que são exigidas tolerâncias milésimas ao longo de extensões de centenas de metros, demandando elevado rigor técnico”, comenta Douglas.
Colaboradores do grupo de Metrologia (MET) utilizando lâminas calibradas para monitor a folga entre os cassetes de imãs e a câmara de vácuo durante o processo de instalação.
Com a instalação concluída, a linha entra agora em uma fase de comissionamento técnico e científico. Este processo inclui desde a validação do funcionamento do ondulador até o realinhamento completo dos elementos ópticos. Como a nova fonte altera significativamente o perfil do feixe, será necessário ajustar toda a linha para operar de forma adequada.
A expectativa é que, após essa etapa, a Ipê retome o atendimento a usuários com capacidades ampliadas. Além de acelerar experimentos já existentes, a nova configuração permitirá explorar fenômenos antes inacessíveis, consolidando a linha como uma plataforma de ponta para estudos avançados com luz síncrotron.
Sobre o LNLS
O Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) atua na pesquisa científica e no desenvolvimento tecnológico envolvendo a luz síncrotron, com foco na operação e exploração do potencial multidisciplinar do Sirius, a mais avançada infraestrutura científica do País. Com dez estações de pesquisa já operacionais e abertas à comunidade científica e industrial, Sirius permite que milhares de pesquisadores de diversas áreas testem hipóteses sobre os mecanismos microscópicos que resultam nas propriedades dos materiais, naturais ou sintéticos, usados em diferentes campos, tais como saúde, meio ambiente, energia e agricultura. O LNLS faz parte do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), uma Organização Social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Sobre o CNPEM
O Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) abriga um ambiente científico de fronteira, multiusuário e multidisciplinar, com ações em diferentes frentes do Sistema Nacional de CT&I. Organização Social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o CNPEM é impulsionado por pesquisas que impactam as áreas de saúde, energia, materiais renováveis e sustentabilidade. Responsável pelo Sirius, maior equipamento científico já construído no País. O CNPEM hoje desenvolve o projeto Orion, complexo laboratorial para pesquisas avançadas em patógenos. Equipes altamente especializadas em ciência e engenharia, infraestruturas sofisticadas abertas à comunidade científica, linhas estratégicas de investigação, projetos inovadores com o setor produtivo e formação de pesquisadores e estudantes compõem os pilares da atuação deste centro único no País, capaz de atuar como ponte entre conhecimento e inovação. As atividades de pesquisa e desenvolvimento do CNPEM são realizadas por seus Laboratórios Nacionais de: Luz Síncrotron (LNLS), Biociências (LNBio), Nanotecnologia (LNNano) e Biorrenováveis (LNBR), além de sua unidade de Tecnologia (DAT) e da Ilum Escola de Ciência, curso de bacharelado em Ciência e Tecnologia, com apoio do Ministério da Educação (MEC).