Governo inaugura estação de aceleração de partículas e sugere Vale do Silício da biotecnologia

Publicado em 09/11/2020
Folha de S. Paulo em 21/10/2020

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Equipamento poderá ser utilizado para estudos e pesquisas em áreas estratégicas e em parceria com o setor produtivo

Beatriz Montesanti
CAMPINAS

Uma gigante estrutura de aceleradores de elétrons instalado no interior de São Paulo pode ser o berço de um Vale do Silício da biotecnologia no Brasil. É o que almejam governo e cientistas envolvidos no projeto Sirius, considerado a maior e mais complexa empreitada científica do país.

O Sirius é composto por três aceleradores de elétrons, capazes de gerar a luz síncrotron, espectro que viaja a uma velocidade próxima a 300 mil km/segundo e permite visualizar partículas microscópicas com nitidez. Sua infraestrutura tem o tamanho de um campo de futebol e contou com um investimento de R$ 1,8 bilhão.

O projeto foi aprovado e teve seu início durante o governo de Dilma Rousseff (PT). Nesta quarta (21), foi inaugurada a primeira estação de trabalho do sistema, batizada Manacá, no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (93 km de São Paulo). A cerimônia contou com a presença do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e do ministro ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes.

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro Marcos Pontes inauguram estação de trabalho do Sírius – Zanone Fraissat/Folhapress

“Considerando as grandes empresas que podem se beneficiar dessa obra, por que não fazemos deste lugar o Vale do Silício da biotecnologia?”, questionou o presidente.

A ideia é defendida por Antônio José Roque da Silva, diretor-geral do CNPEM e chefe do projeto de construção do Sirius. “O conhecimento produzido aqui vai permitir ao país competir mundialmente. O Brasil vai poder se posicionar no mundo de maneira diferenciada.”

“Recurso em pesquisa e ciência não é gasto, é investimento”, completou o ministro Marcos Pontes.

A Manacá é dedicada especificamente aos estudos de moléculas biológicas. E a partir de agora, estará aberta para a comunidade científica como um todo. O equipamento poderá ser utilizado para pesquisas em áreas estratégicas, como saúde, agricultura, energia e meio ambiente, e em parceria com o setor produtivo.

Propostas submetidas para o uso da estação de trabalho serão avaliadas por uma comissão externa. No caso de pesquisas acadêmicas, não haverá custos. Já empresas arcam com os gastos de pesquisas que tenham segredo estratégico, mas podem usar a estação gratuitamente se concordarem em tornar públicas medidas de materiais e conclusões.

Com sua inauguração, o centro de pesquisas aposentou o UVX, primeiro acelerador de elétrons a gerar luz síncrotron da América Latina, projetado na década de 1980. “É como se antes tivéssemos um Chevette e agora andássemos em uma Ferrari”, compara Cardoso.

Nos últimos meses, a estação esteve disponível em sua fase de testes para experimentos relacionados à Covid-19. Cientistas puderam, durante este período, analisar mecanismos de inibição do vírus, e como moléculas interagem para impedir sua réplica. Os resultados dos experimentos ainda não foram divulgados.

Outras cinco linhas de luz, com são chamadas as estações de pesquisa, estão em fase de montagem e devem ser concluídas até o final deste ano. Ao todo, a estrutura comporta até 40 estações. Elas serão independentes entre si, o que permitirá que pesquisadores trabalhem simultaneamente.​