Temer não confirma recursos para Sirius

Publicado em 22/02/2018
Correio Popular, 15/02/2018

Michel Temer no Centro Nacional em Energia e Materiais; ele saiu sem conceder entrevista à imprensaLeandro Ferreira/AAN

Michel Temer no Centro Nacional em Energia e Materiais; ele saiu sem conceder entrevista à imprensa

O presidente Michel Temer esteve em Campinas nesta quinta-feira para visitar o Projeto Sirius, no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), mas apesar dos elogios à iniciativa, ele não confirmou a liberação de R$ 200 milhões de recursos suplementares pelo governo federal que faltam para que o primeiro feixe de elétrons circule no novo acelerador de partículas que está sendo construído em Campinas e que deve entrar em operação ainda em 2018.
O custo total do projeto é de R$ 1,8 bilhão, montante que inclui o acelerador, o prédio, a mão de obra e as 13 linhas de luz previstas para entrar em funcionamento até 2020.
Em breve discurso, o presidente disse que a magnitude do projeto “revela as potencialidades do País”. “Esse fato deve ser divulgado não só no Brasil, mas também no exterior para que os brasileiros tenham orgulho do País”, disse.
Temer saiu do evento sem dar entrevistas. Ele se reuniu mais cedo no local com o governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB), quando trataram unicamente do projeto. O tucano também saiu sem falar com a imprensa.
De acordo com diretor do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) e do Projeto Sirius, Antônio José Roque da Silva, apesar da crise econômica nacional dos últimos dois anos, o projeto não foi deixado de lado, porém, sem o suplemento, não será possível concluir as obras. “Hoje, assinamos um termo aditivo para começar a receber os primeiros recursos através da Lei Orçamentária Anual e nossa expectativa é começar a receber ainda em fevereiro. O que vamos precisar também é de uma suplementação orçamentária. O presidente deu indícios fortes de que todo esforço será feito e indicou que o projeto é bastante importante para o País”, explicou.
“Apesar de não termos garantidos 100% dos recursos necessários, o governo tem se esforçado. O PAC que hoje é o ‘Avançar’ teve um corte no ano passado de 30%, mas mesmo com as escolhas do ministério, o Sirius não sofreu com redução nos repasses. Mantendo o cronograma, a primeira volta está prevista para agosto. Mas ela depende tanto do aditivo da LOA como da suplementação” , ressaltou. Segundo o diretor, mesmo com a priorização, houve momentos de incertezas de quando ocorreriam as liberações de verbas. “Foi preciso um esforço de gestão da equipe do projeto para priorizar as atividades e não prejudicar ou minimizar o prejuízo de qualquer atraso”, explicou. O diretor falou ainda das consequências da falta de investimento em inovação científica. “É uma preocupação muito grande do laboratório como o impacto dessa crise afetará os usuários.Não adianta ter um equipamento como esse se você desmontar o sistema de ciência e tecnologia do Brasil”. Até o momento, de acordo com ele, foram investidos R$ 930 milhões. Pela LOA, devem ser enviados mais R$ 218 milhões, além da suplementação.
As obras foram iniciadas em dezembro de 2014 e até agora, cerca de 80% estão concluídas. O ministro de Ciência e Tecnologia, Gilberto Kassab também elogiou o projeto, mas não confirmou a suplementação necessária. “Com o Sirius o Brasil avança 100 anos. É um investimento extremamente importante. A Ciência e a Tecnologia trazem crescimento necessário para o País se destacar no cenário nacional” , falou. O diretor-geral do CNPEM, Rogério Cezar de Cerqueira Leite, o deputado Celso Russomanno (PRB-SO), e o vice-prefeito Henrique Magalhães Teixeira, que está exercendo função de prefeito interino também participaram da visita do presidente.
Pesquisa
Quando o Sirius estiver em atividade, substituindo a atual fonte de luz usada no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, estima-se que uma pesquisa que atualmente é feita em dez horas nos equipamentos mais avançados do mundo poderá ser concluída em dez segundos.
A nova fonte permitirá a realização de experimentos hoje impossíveis no País, abrindo novas perspectivas de pesquisa em áreas estratégicas como energia, biotecnologia, nanotecnologia, ciência dos materiais e ambientais.
Na agricultura, a tecnologia pode ser usada para a produção, por exemplo, de fertilizantes mais eficientes e baratos e até menos poluentes.
Já na saúde, o desenvolvimento de nanopartículas pode ajudar no diagnóstico de câncer e no combate a vírus e bactérias.
Até a produção de novos artigos industrializados como cosméticos podem ser feitos por meio do luz síncrotron. O prédio está entre as obras civis mais sofisticadas do Brasil, com exigências de estabilidade mecânica e térmica.
Hoje, existe apenas uma fonte de luz síncrotron de quarta geração no mundo, inaugurada na Suécia há cerca de um ano. A abertura da nova fonte de luz para pesquisadores está programada para 2019.
Marco Legal
No dia 8 de fevereiro, o presidente Michel Temer assinou um decreto que regulamenta o Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação. Entre os principais pontos da medida está a desburocratização de atividades relacionadas à pesquisa e inovação, assim como a criação de mecanismos para integrar instituições científicas e tecnológicas no Brasil.
A expectativa é que essa facilitação se traduza em mais transparência e segurança jurídica para a realização de convênios que promovam a pesquisa pública.
De acordo com o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), o marco legal resultará em benefícios como a internacionalização dos centros de pesquisa, o aumento da interação delas com o setor produtivo, mais instrumentos de financiamentos à inovação e incentivo à importação de bens e insumos para pesquisas.
Com a lei assinada, o ministro Gilberto Kassab (PSD) prevê o aprimoramento da relação entre empresas e o governo. “Ela torna mais transparente e dá mais amparo para que não haja nenhuma dúvida em relação à legalidade. Traz mais segurança para o pesquisador e o agente público, dando mais condições para o Brasil avançar. Temos, no Brasil, uma ciência de excelência. Mas não tínhamos uma legislação compatível com essa excelência”, avaliou.