SUCRE apresenta estratégias de remoção de palha para bioenergia em Simpósio da ESALQ

Publicado em 02/08/2017

UDOP, 31 de julho de 2017

O Projeto SUCRE apresentou no VIII Simpósio Tecnologia de Produção de Cana-de-Açúcar, promovido pelo Grupo de Apoio à Pesquisa e Extensão (GAPE) da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ/USP), quatro passos capazes de nortear decisões estratégicas de remoção de palha de cana-de-açúcar para cogeração de energia por parte das usinas do setor sucroenergético. A palestra trouxe diversos resultados obtidos pelo Projeto SUCRE, uma iniciativa do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), que compõe o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).

Os quatro passos para definir a melhor estratégia de remoção de palha elencados pela palestrante, engenheira agrônoma do CTBE, Lauren Menandro, foram: 1º – conhecer a oferta e demanda de palha da usina; 2º – não adotar o padrão de 50% para remoção de palha; 3º – identificar ambientes responsivos (ou não) à palha; 4º – recolhimento baseado na qualidade da palha.

O primeiro passo refere-se à capacidade de produção de palha na usina e qual é a demanda dessa biomassa para produção de bioenergia ou comercialização de fardos. Segundo Menandro, é possível mapear a quantidade de palha da usina por meio de uma estimativa do potencial de produção por talhão. Estudos do SUCRE revelam que a cada tonelada de colmo produzido tem-se 120 kg de palha (massa seca).

A engenheira também afirma que não deve ser seguido o padrão de 50% para remoção de palha, adotado pelo setor. “O canavial responde de formas diferentes às quantidades de palha, não podemos generalizar”, esclarece. Antes de definir a quantidade da biomassa que deve ser mantida no solo para que não prejudique o canavial, é preciso identificar os ambientes responsivos ou não à palha, ou seja, qual ambiente responde à presença ou à ausência do resíduo cultural. Esse é o terceiro passo.

Menandro explica que a produtividade é uma resposta às interações da palha com o clima, o solo e outros manejos. “Manejando bem a palha nos ambientes responsivos, a dependência do clima e do solo pode se tornar menor e a do manejo, que é o que você controla de fato, pode aumentar”, afirma.

Estudos do Projeto SUCRE em 28 áreas divididas entre os estados de São Paulo e Goiás demonstram que, em regiões com maior déficit hídrico acumulado e altas temperaturas, a palha auxilia na retenção de água e na manutenção de temperaturas médias inferiores e constantes no solo, mais adequadas para o crescimento da cana. O que explica porque regiões com essas características apresentam perda na produtividade com a remoção da palha do solo. Foi possível identificar, a partir dessas avaliações, que nas áreas de produção do estado de Goiás a remoção de palha resulta em perdas significativas de produtividade do canavial. “Lembrando que estas perdas de produtividade em função do recolhimento de palha são resultados de vários anos de avaliação, contemplando solos e microclimas distintos”, alerta a analista.

Apenas dois experimentos avaliados em Goiás não tiveram esse mesmo resultado. A primeira é uma área de solo hidromórfico, isto é, um solo naturalmente saturado de água, portanto, oferece maior disponibilidade de água para a cultura. E a segunda, uma área com irrigação, o que faz novamente com que a cana não sofra com a falta de água. Nesses casos, a cana-de-açúcar deixa de ser responsiva à palha. “As condições de solo e do manejo [irrigação], se sobrepõem às climáticas”, explica Menandro.

Por outro lado, nas regiões de Agudos, Itirapina e Iracemápolis, em São Paulo, onde o Projeto tem áreas experimentais, verificou-se menor impacto da palha na produtividade dos canaviais. Essas regiões paulistas possuem menor déficit hídrico e temperaturas médias mais baixas, entre 20ºC e 22,5ºC. Nessas condições a palha não interfere na produtividade do canavial e, se aliado a outros fatores, pode ser parcialmente recolhida. O recolhimento da palha deve estar alinhado com o controle de plantas daninhas e com o risco de erosão, que podem ser inibidos com a manutenção de parte dessa biomassa sobre o solo. A indicação, até o momento, é manter no mínimo 7 toneladas por hectare de palha no solo, considerando sua função de herbicida natural, principalmente no controle de plantas daninhas de folha estreita, e de conservação do solo, de modo a evitar gastos extras com herbicidas e perda de solo e nutrientes.

Por meio desses destes estudos, identificou-se também que a palha retarda a brotação e o perfilhamento inicial, mantendo o número de perfilhos mais constante ao longo do desenvolvimento da cana, não prejudicando a produtividade final do canavial. “Esse é um paradigma do setor a ser quebrado e nossos resultados mostram que no período da colheita tem-se a mesma quantidade de perfilhos em áreas com ou sem palha”, afirma. “Nas regiões mais frias, a manutenção de grandes quantidades de palha poderá comprometer a produtividade final, e são nessas áreas que parte da palha poderá ser removida ou desenleirada [afastada da linha da cana-de-açúcar] para manter boas produtividade”, relembra Menandro.

O quarto passo para definir estratégias de remoção de palha no canavial é o recolhimento baseado na qualidade da palha, que está associado à composição dos ponteiros e folhas secas, as duas frações que constituem a palha. Segundo estudo do Projeto SUCRE, de autoria de Menandro e colaboradores, os ponteiros devem permanecer no campo, enquanto as folhas secas podem ser levadas à indústria para geração de bioenergia. Isso porque os ponteiros possuem nutrientes que contribuem com a fertilidade do solo, além de apresentarem elevados teores de cloro e potássio, características prejudiciais à indústria, por reduzirem o rendimento da geração de energia e promoverem incrustação e corrosão nas caldeiras. Por outro lado, as folhas secas apresentam maior poder calorífico, elevando o rendimento de geração de bioeletricidade e trazendo menos prejuízo aos equipamentos. “Fizemos a pesquisa que é base para o desenvolvimento de novas tecnologias. Agora, o setor de mecanização tem subsídios para investir na separação dos ponteiros e folhas secas no canavial e levar essa ideia adiante”, ressalta Menandro.

Menandro destaca ainda que é necessária a integração desses quatro passos com os aspectos econômicos e ambientais. “É somente com estratégias de remoção que será possível otimizar o uso da palha da cana-de-açúcar, atendendo às demandas para bioenergia sem comprometer a qualidade dos canaviais“, afirma. Para isso, o SUCRE planeja um software que ofereça às usinas um panorama de remoção de palha, levando em consideração os passos mencionados e outros aspectos como a distância do campo à usina, os custos do recolhimento, os impactos na qualidade do solo, as emissões de gases de efeito estufa, entre outras questões. O Projeto tem como objetivo integrar todos esses aspectos, de forma a oferecer caminhos à remoção de palha que atenda a realidade de cada usina, e para que essas possam ser autônomas sobre qual alternativa escolher.

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