Novo acelerador de partículas brasileiro começa a virar concreto

Estadão Online  em 02/12/15

Imagens inéditas mostram evolução das obras do projeto Sirius, no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, em Campinas, de R$ 1,7 bilhão.


O projeto de construção do novo acelerador de partículas brasileiro está se tornando cada vez mais concreto, apesar da crise orçamentária que assombra a ciência nacional. É o que mostram imagens aéreas inéditas do canteiro de obras do Sirius, a nova máquina do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), que está sendo construída em Campinas.

Cerca de 15% da parte civil da obra já está de pé e cerca de 80% dos equipamentos que vão compor o acelerador já foram prototipados. A meta é estar com tudo pronto em 2017, para começar a testar o acelerador em 2018 e colocá-lo à disposição da comunidade científica em 2019.

Projeto mais caro e estruturalmente ambicioso da história da ciência brasileira, com custo estimado de R$ 1,7 bilhão (pela cotação atual do dólar), o Sirius foi projetado para ser uma das fontes mais modernas de luz síncrotron do mundo — melhor do que qualquer máquina desse tipo em operação no exterior e muito superior a máquina atual do LNLS, inaugurada em 1997.
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O que essas máquinas fazem é acelerar elétrons a uma velocidade muito próxima da luz (99,999999%), com o intuito de gerar uma luz extremamente brilhante e com uma grande amplitude de comprimentos de onda, variando desde o infravermelho até os raios X. Com essa luz (chamada de luz síncrotron) é possível enxergar objetos em escala micrométrica e até nanométrica. Pode-se pensar nesses aceleradores como enormes microscópios, que os cientistas usam para entender a estrutura atômica de materiais e tirar proveito desse conhecimento para o desenvolvimento de novas tecnologias — que podem variar desde drogas mais eficientes contra o câncer até baterias mais duradouras para celulares, ou até para investigar fósseis de dinossauros.

Para mais detalhes científicos, veja a reportagem especial: Sirius, o maior projeto da ciência brasileira

Há cerca de 45 fontes de luz síncrotron em operação no mundo, mas o Sirius terá um diferencial importante: ele será uma de apenas três máquinas classificadas como de “4a geração”, com emitância abaixo de 0,3 nanômetro-radiano (emitância é a característica pela qual se mede a qualidade da luz síncrotron — quanto menor a emitância, maior o brilho e melhor a luz). Com isso será possível, por exemplo, enxergar organelas celulares em três dimensões, algo que não é possível (ou muito difícil de ser feito) com os síncrotron atuais.

As únicas outras fontes de 4a geração projetadas no mundo, por enquanto, são o síncrotron MAX 4, na Suécia, previsto para entrar em operação no ano que vem, e o síncrotron ESRF 2, na França, previsto para 2020.

Se o cronograma for cumprido e o Sirius for inaugurado em 2019, portanto, ele será uma das únicas máquinas de última geração disponíveis no mundo por vários anos. Um diferencial que deverá atrair muitos pesquisadores estrangeiros para o Brasil, segundo o francês Yves Petroff, um dos maiores especialistas em luz síncrotron do mundo, que já foi diretor científico do LNLS e acompanha de perto o projeto brasileiro.

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“O Sirius já atraiu muitos bons cientistas do exterior, que estão trabalhando no desenvolvimento das futuras linhas de luz (as estações de pesquisa que são posicionadas ao longo do anel, com equipamentos customizados para cada tipo de estudo)”, ressaltou Petroff, em entrevista por email ao Estado. “E se o Sirius for concluído a tempo, muitos outros virão.”

“Estamos sendo verdadeiramente pioneiros na geração de luz síncrotron”, diz o diretor do LNLS, Antonio José Roque da Silva. “É um pioneirismo raro na ciência brasileira, especialmente se tratando de um projeto de grande escala”, completa ele, destacando que o projeto foi 100% desenvolvido no Brasil.

RECURSOS

O LNLS faz parte do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), e o projeto Sirius é financiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Até o ano passado, o custo total do projeto era estimado em R$ 1,3 bilhão. Com a alta do dólar em 2015, porém, essa estimativa subiu para R$ 1,7 bilhão. Cerca de 35% do projeto é “dolarizado”, explica Silva. “Nosso orçamento muda semana a semana.”

O contrato do CNPEM com o MCTI prevê o repasse de R$ 240 milhões para o projeto em 2015, dos quais foram entregues apenas R$ 40 milhões até agora. Apesar disso, Silva diz que não há atrasos nas obras — por enquanto. “Mas há uma preocupação de que os repasses se mantenham, visto que o projeto está entrando numa fase de maiores gastos”, ressaltou. “Do ponto de vista orçamentário estamos bem. O ministério tem apoiado o projeto como prioritário dentro das suas possibilidades. O desafio é manter o fluxo de caixa, para não perdermos o ritmo.”

Há uma expectativa de que em 2016 o Sirius passe a fazer parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal, conforme proposto pelo ex-ministro Aldo Rebelo, o que daria um peso político maior ao projeto — mas ainda assim não será uma garantia absoluta de financiamento.

COMPETITIVIDADE

O Sirius começou a ser projetado em 2009, e o projeto foi inicialmente orçado em R$ 650 milhões, para uma máquina de 3a geração. Em meados de 2012, porém o projeto passou pela revisão de um comitê internacional de especialistas, que sugeriu fazer um upgrade da máquina para 4a geração — utilizando uma combinação inovadora de ímãs ao longo do anel para aumentar significativamente o brilho da luz, sem precisar aumentar o tamanho do acelerador.  Com isso, o custo dobrou para R$ 1,3 bilhão, principalmente por conta de adaptações na estrutura física do prédio.

“É importante salientar que a mudança de 3a para 4a geração foi principalmente motivada pela necessidade de garantir que o investimento feito no projeto iria manter o equipamento, e portanto o Brasil, competitivo pelas próximas décadas”, destaca Silva. “Como a Suécia estava iniciando a construção do MAX 4, o projeto deveria caminhar para garantir a competitividade do país. Isso hoje permite que sejamos líderes e tenhamos impacto em internacionalização, atratividade, qualidade da ciência e tecnologia que poderão sair do Sirius.”

Repercussão: Correio Popular

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