Luz Síncrotron desvenda o passado

Publicado em 30/01/2010

A cerâmica Cucuteni é das mais requintadas do período neolítico da Europa Central, decorada com pintura monocromática ou em combinações harmoniosas de preto, branco e vermelho. Até recentemente, pouco se sabia sobre a origem dos pigmentos que estampam peças descobertas em pesquisas arqueológicas. Utilizando radiação Síncroton, Emmanuel Pantos, do Heritage Science Unit, do Reino Unido, analisou cacos de cerâmica selecionados de uma coleção do Museu Nacional da História, em Bucareste, na Romênia. Constatou que os pigmentos de cor preta foram produzidos por uma variedade dos minerais jacobsita e magnetita, constituídos por óxidos de ferro e manganês; a cor vermelha é derivada do barro com elevado teor de  hematita; e a branca contém calcita.

Além de caracterizar a composição dos pigmentos e desvendar a constituição química dos achados arqueológicos, a Luz Síncrotron também permite precisar, por exemplo, quando uma obra de arte foi produzida. E tudo isso sem danificar as amostras analisadas.

Pantos utiliza essa tecnologia desde 1999 com instrumentação disponível nos laboratórios Daresbury, na Inglaterra, e no European Synchrotron Radiation – Facility (ESRF), em Grenoble, na França. Grande parte de suas publicações estão relacionadas com a constituição química de achados arqueológicos, evidenciadas por meio de técnicas que utilizam radiação desde o infravermelho até os chamados raios-X duros, de menor comprimento de onda, que têm maior facilidade para penetrar substâncias e materiais.

O uso da tecnologia na Arqueometria foi tema do seminário Divulgação da tecnologia de Luz Síncrotron para análises não destrutivas de materiais, realizado no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em Campinas.

Segundo Pantos, a relevância do uso de Luz Síncrotron vai além da resolução de problemas técnico-científicos. “A aplicação inteligente do avanço tecnológico é tão importante quanto a preservação do patrimônio cultural mundial e proporciona aos jovens arqueólogos outras possibilidades na análise dos dados coletados”, afirmou.
O pesquisador também sublinha que a mudança de paradigma na Ciência dos Materiais é uma forma de incitar as atividades de Arqueometria em todo o mundo, já que envolve o emprego da conservação preventiva na restauração, na Ciência da Conservação e na História da Arte. “No futuro, a visão é de uma atividade em escala mundial dirigida por laboratórios de investigação e curadores de museus”, ressalta.

De acordo com Pantos, os estudos mais recentes sobre a Ciência do Patrimônio têm demonstrado que uma vasta gama de problemas de pesquisa pode ser abordada com sucesso com a tecnologia Síncrotron e que a correlação entre áreas científicas produz resultados significativos. O pesquisador elenca alguns exemplos de tais aplicações: as imagens micro-XRF de madeira marítima em nível celular; a reprodução de esmaltes com brilho; a identificação de alterações do pigmento da tinta em pinturas góticas; a eletroquímica em linhas de cobre corroídas e o mapeamento de cinábrio identificado em afrescos de Pompéia.

Destacou, ainda, a importância do uso da tecnologia Síncrotron na conservação do patrimônio arqueológico do Brasil  e contou que já tem um projeto de colaboração com grupos de pesquisa da Amazônia. No início de maio, Pantos participou de seminário organizado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi.

Alguns grupos brasileiros de pesquisa em Arqueometria utilizam a instrumentação disponível no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron ( LNLS), em Campinas, para a caracterização de materiais arqueológicos como pinturas rupestres, resíduos de pigmentos em vasilhames cerâmicos, em patrimônio histórico edificado ou em obras de arte como esculturas e pinturas.

Utilizando técnicas de fluorescência de raios-X convencional, microfluorescência de raios-X e microscopia eletrônica de varredura, um grupo de pesquisadores do LNLS, da Universidade Estadual de Londrina, no Paraná, e do Laboratório de Instrumentação Nuclear da Universidade de São Paulo (USP), puderam determinar a concentração química elementar das amostras de cerâmicas arqueológicas das regiões de Londrina e sul do Pará. Os resultados foram reunidos no paper Fluorescência de raios-X Aplicada a Amostras Arqueológicas, publicado na Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia nº 15/16, 2005-2006.

Com base nas intensidades dos raios-X característicos, eles calcularam as concentrações dos elementos componentes da amostra, constatando a presença de quartzo e diversos tipos de argila. A tecnologia mostrou-se útil na determinação de elementos majoritários e minoritários presentes nas amostras, possibilitando a visualização da distribuição e a homogeneidade dos elementos químicos.

De acordo com Pantos, os avanços das técnicas e a utilização de novos métodos científicos na análise do patrimônio artístico cultural começam a provocar mudança na metodologia usada por curadores de museus e historiadores da arte. “Esses profissionais passam a buscar o apoio da Ciência da Conservação para evitar erros de interpretação decorrentes da aplicação de apenas um único método de investigação científica.”

Tecnologia em alta
O diretor científico do LNLS, Yves Petroff, que dirigiu o ESRF, explica que a participação do uso de Luz Síncrotron em experimentos relacionados a pesquisas em Paleontologia, Arqueologia, entre outros, realizados no laboratório francês, cresceu, em poucos anos, de 1% para 7%.

A possibilidade de se obter uma imagem tridimensional com resolução de submicrons de um tipo de fóssil revolucionou a Paleontologia, ele sublinha. Essa tecnologia foi utilizada, por exemplo, nos estudos de Toumai – um crânio com sete milhões de anos descoberto no deserto do Chade  –  e na análise da maquiagem das mulheres do Egito Antigo. No caso do Egito, uma surpresa: foram encontrados componentes como chumbo e cerusita, além dos minerais laurionita e fosgenita, extremamente raros na natureza, dando provas de que alguma forma de “química” já existia no Egito.

Também foi utilizando Luz Síncrotron que os pesquisadores puderam analisar fósseis de insetos pré-históricos preservados em pedaços de âmbar completamente opacos. Com a mesma tecnologia foram investigadas as pinturas a óleo descobertas nas cavernas que hospedavam os Budas de Bamiyan, as famosas estátuas gigantes entalhadas na montanha e destruídas pelo regime talibã em 2001. Com uma combinação de técnicas sofisticadas, os pesquisadores do ESRF descobriram que, nos século VI e VII, as pinturas murais de 12 das grutas utilizavam pintura a óleo, técnica que se supunha ter tido origem na Itália no século XV.

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