Exame identifica a cor dos fósseis

Publicado em 18/07/2011

Correio Braziliense em 15/07/2011

Por Sílvia Pacheco

Desde seu início, há 200 anos, a paleontologia tem o objetivo de remontar o passado. Graças aos estudos dos fósseis, hoje é possível recriar animais inteiros extintos há mais 150 milhões de anos, seu hábitat, suas linhagens e até mesmo seu comportamento. Mesmo com todo esse avanço, uma lacuna ainda se encontra aberta: ninguém consegue dizer com precisão que cores tinham esses animais. Essa certeza, no entanto, pode estar prestes a surgir. A partir de uma técnica que envolve alta tecnologia de raios X, vai ser possível determinar a cor das penas e da pele de animais pré-históricos e, assim, criar um cenário mais fiel dos seres na época em que os dinossauros dominavam a Terra.

O método, estabelecido por pesquisadores da Inglaterra, Estados Unidos e China, identifica os padrões de pigmentação a partir da análise de metais em fósseis. Partindo do princípio de que a melanina aparece ligada a certos metais, como o cobre e o zinco, o fóssil da ave Confuciusornis sanctus (como o filósofo chinês), que viveu há 120 milhões de anos foi submetido à radiação síncrotron, que emite, entre outros, potentes raios capazes de mapear os diferentes elementos químicos do material. “O intuito era buscar resquícios de melanina, mas esses pigmentos não foram encontrados”, disse o geoquímico Roy Wogelius, da Universidade de Manchester, no Reino Unido, autor do estudo.

O mapeamento, porém, revelou uma grande quantidade de cobre espalhado nas regiões do fóssil correspondentes às pernas e peito da ave, que era do tamanho de um corvo e se parecia muito com o mergulhão, que tem penas pretas e bico longo para pescar peixes. A reconstrução feita pelos cientistas indica uma gradação delicada de claro e escuro, com o peito mais preto e as pontas das asas esbranquiçadas. “Na verdade, o exame não mostra cor, ele diz onde o animal teve a eumelanina (responsável pelas cores marrom e preta), expondo onde estão os tons de claro e escuro”, explica o geoquímico. Para se certificarem de que o cobre no fóssil significava a cor que a ave tinha, os pesquisadores compararam a distribuição do metal nos pássaros modernos. O resultado foi semelhante.

O uso da luz síncroton foi de extrema importância para a descoberta da distribuição do cobre no fóssil porque fornece um tipo de radiação ideal para fazer simulações como esta. Com a sua aplicação, os cientistas conseguem identificar se o átomo era do cobre ou do zinco. “Dessa forma os pesquisadores conseguiram identificar que o cobre fazia de fato parte da eumelanina desses animais”, explica Antônio José Roque da Silva, diretor do Laboratório Nacional de Luz Síncroton (LNLS), em Campinas.

Antes da pesquisa, o estudo que havia chegado mais próximo de revelar a cor dos fósseis em vida tinha encontrado meanossomas (uma espécie de bolsa que fabricava e armazenava os pigmentos de melanina) já vazias. “De vez em quando temos a sorte de descobrir algo novo. Para mim, o aprendizado de que o cobre pode ser mapeado para revelar detalhes sobre a cor em animais de 100 milhões de anos atrás é simplesmente incrível. Mais surpreendente ainda é perceber que estes pigmentos agora podem ser estudados em registro fóssil”, disse o autor da pesquisa.

Repercussão: Estado de Minas

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