Dr. Hermes, o construtor de florestas

Publicado em 21/05/2009

21/05/2009 – Publicado no Portal PUC Campinas

Hermes Moreira de Souza dedicou boa parte de seus 91 anos a difundir e descobrir espécies

Muitas vezes, o grau de reconhecimento sobre uma personalidade é inversamente proporcional à sua importância, seja pela omissão de alguns em dar o devido crédito, seja pelo excesso de modéstia. Esse é caso do engenheiro agrônomo aposentado Hermes Moreira de Souza, uma das mais importantes figuras na área de paisagismo e preservação de flora do Brasil.

Do alto de seus 91 anos, dr. Hermes, como é mais conhecido, tem em seu currículo mais de quatro décadas de serviço no Instituto Agronômico (IAC), de Campinas, onde foi o responsável pelo trabalho pioneiro de implantação de coleções de árvores e palmeiras em uma época em que quase ninguém tinha interesse pelo assunto. O campineiro apaixonado pelas árvores incentivou a criação de muitas coleções públicas e particulares, como a do Jardim Botânico do IAC, em um ofício árduo que incluía expedições de coleta de sementes e estudos de arborização urbana.

O IAC forneceu também muitas sementes, que formaram outros jardins por meio das mãos do dr. Hermes, como o do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) e da Refinaria de Paulínia (Replan), entre outros, além das ruas e praças campineiras.

Sua perseverante atuação como pesquisador ganhou corpo na forma de vários livros de referência, que servem hoje para transmitir um conhecimento específico e muito valioso, entre eles Plantas Ornamentais no Brasil, em parceria com Harri Lorenzi. Foi com base nas suas andanças pelas matas do Brasil que dr. Hermes percebeu a importância de se preservar a diversidade de espécies, algo que estimulou muitos viveiristas a seguir o exemplo. “Há uma espécie de vício neste meio de paisagismo, que é o de utilizar sempre as mesmas plantas na arborização urbana, muitas vezes exóticas, por falta de conhecimento. E o dr. Hermes sempre estimulou a valorização da diversidade com seu trabalho, cultivando espécies brasileiras”, explica Francisco de Assis Leitão de Moraes, técnico de apoio do IAC que trabalhou com o agrônomo por muitos anos.

Dr. Hermes ainda tem muita disposição, apesar da idade avançada, e só tem alguma dificuldade de se comunicar por um problema de audição. Filho de um português que trabalhava como bombeiro em Campinas, ele carregou no sangue o amor pela causa ambiental, mas é arredio a falar sobre a importância de seu trabalho. “O importante é plantar”, resume. “Meu pai era um defensor da natureza, por ser membro do Corpo de Bombeiros. Ele prontamente saia para apagar incêndios em matas aqui em Campinas. Era uma função que lhe dava prazer”, lembra dr. Hermes.

Um exemplo da dedicação do mestre agrônomo é dado por sua filha Marília Waldemarin de Souza, ao lembrar como ele podia esquecer da hora ao se entreter com coletas e plantio em meio a viagens de família. “A gente saía cedo para viajar para Caraguatatuba e chegava lá só de noite porque ele ia jogando sementes na beira da estrada, na serra, para florir o caminho”, conta Marília, ao lembrar que a perua que transportava a família voltava cheia de plantas coletadas. Nessas andanças, mais especificamente no município de Pereiras, no Interior de São Paulo, o agrônomo encontrou uma espécie nova de planta, uma variedade de unha-de-vaca que foi batizada em sua homenagem: Bauhinia hermesiana.

Em uma dessas expedições de coleta de sementes, dr. Hermes trabalhou na região Amazônica ao lado do paisagista Roberto Burle Marx (1909-1984), percorrendo bosques e coleções que o governo do Amazonas mantinha. “As pessoas falam muito de Burle Marx, mas eles estão no mesmo nível”, elogia Francisco de Moraes, apontando a enorme contribuição do dr. Hermes ao formar uma das maiores coleções do País, com cerca de 5 mil espécies de árvores e 700 tipos de palmeiras, no Jardim Botânico do IAC (leia texto ao lado), onde foi chefe da Seção de Floricultura. E é exatamente esse espaço privilegiado, que preserva tantas espécies devastadas diariamente pelo Brasil afora, que profissionais de outros países visitam para conhecer sua riqueza e também crianças e adolescentes assistem a aulas de educação ambiental, contemplando o resultado de décadas de trabalho de um apaixonado “construtor” de florestas.

Pesquisador estava à frente de seu tempo
Fundado em 1887 pelo imperador D. Pedro II, o IAC é um dos mais importantes centros de pesquisa agrícola do País e abriga uma coleção de mais de 5 mil espécies de árvores e 700 de palmeiras em seu Jardim Botânico, onde o agrônomo Hermes Moreira de Souza trabalhou desde o final da década de 30 até o início dos anos 80.

Foi durante este período, mais especificamente entre as décadas de 60 e 80, que dr. Hermes manteve também uma página especial no suplemento agrícola jornal O Estado de S. Paulo, abordando seu conhecimento sobre flora brasileira e respondendo dúvidas de leitores. “Ele fazia um trabalho contra a corrente, em uma época em que não se tratava das questões ambientais como hoje”, diz Francisco de Assis Leitão de Moraes, técnico de apoio do IAC que trabalhou com o dr. Hermes. “Ele foi transferindo este conhecimento adquirido e escreveu obras únicas de referência quando havia muito pouco literatura a respeito.”

Segundo Moraes, uma das grandes contribuições do banco de espécies do Jardim Botânico do IAC é permitir reunir em um mesmo espaço tipos de árvores que estão dispersas na natureza, em locais distantes, e muitas vezes sujeitos a desaparecer por conta da ação do homem.
Dr. Hermes, entretanto, explica tudo com a simplicidade que lhe é característica. “Valorizar a natureza, isso é que é realmente importante.”

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