Clima de rivalidade marca a visita de Dilma

Publicado em 17/06/2016
Correio Popular em 09/06/2016

 

Confusão durante visita da presidente afasta na cidade

Edu Fortes/AAN. Confusão durante visita da presidente afasta na cidade

 

O clima de rivalidade entre apoiadores de Dilma Roussef e grupos contrários ao PT marcou a visita da presidente afastada a Campinas nesta quinta-feira (9). Dilma chegou na cidade pela manhã para visitar o Projeto Sirius, no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), e depois seguiu para um encontro com intelectuais em um condomínio fechado na região do Gramado. Manifestantes contra e a favor da petista fizeram plantão no local e houve tumulto.
Uma jornalista que acompanhava o evento foi agredida por um grupo de mulheres, que estava com o Movimento Brasil Livre (MBL). O PT fretou um jato particular para a viagem de Dilma — a petista teve pedido de usar o avião da Força Aérea Brasileira (FAB) negado pelo governo interino de Michel Temer (PMDB).
Dilma não discursou durante a visita ao projeto, nem falou com a imprensa. A presidente afastada, porém, ficou à vontade no almoço feito em sua homenagem na casa do físico e diretor do CNPEM, Rogério Cezar de Cerqueira Leite. “Nós temos que recuperar não só o meu mandato, mas reconstruir a democracia neste País. O partido que era de centro virou de direita. Ele se transformou em um partido de direita em sua hegemonia”, disse Dilma, se referindo ao PMDB.
“E a hegemonia dele (PMDB) está nas mãos de um ser chamado Eduardo Cunha (presidente afastado da Câmara), que tem pauta própria. E a pauta dele é conservadora para mais de metro”, continuou. O Conselho de Ética da Câmara deve analisar na próxima terça-feira o relatório do deputado Marcos Rogério (DEM-RO), que recomenda a cassação do mandato de Cunha. Dilma disse ainda que “há um golpe no Brasil”. “O golpe foi dado por vários motivos, mas dois são muito claros. Um deles foi estancar a sangria e impedir que as investigações (da Operação Lava Jato) chegassem nele. O outro foi para implantar um projeto que não teve votos.”
Nos vídeos feitos por pessoas que participaram do almoço, Dilma não comentou as declarações do lobista Zwi Skornicki. Ele falou a investigadores da Lava Jato que foram pagos R$ 4,5 milhões em propinas ao publicitário João Santana para caixa 2 da campanha presidencial petista de 2014.
O almoço começou às 13h e Dilma ficou no local até as 15h30. O evento teve a presença de intelectuais como o jornalista e escritor Fernando Morais, o compositor e poeta Paulo Sérgio Pinheiro, o diretor e ator José Celso Martinez Corrêa, o jornalista Juca Kfouri, e lideranças campineiras do PT, como Márcio Pochmann, cotado para ser o candidato da legenda na corrida municipal, e o presidente do diretório local, Casemiro Reis.
Buzinaço
Dentro do condomínio, a maioria dos moradores fez buzinaço e bateu panelas contra Dilma em frente à casa de Cerqueira Leite. Os manifestantes pediam para a presidente afastada, que sofre processo de impeachment, renunciar. Uma das manifestantes anti-PT, Camila Ferreira Alves, disse que ela e sua mãe foram agredidas verbalmente por ativistas pró-Dilma. “Xingaram a minha mãe de tudo quanto é nome. Ela (Dilma) não tem vergonha na cara. Tenho certeza que é um almoço pago com o nosso dinheiro. Ela tem que renunciar.” A aposentada Dagmar Canguçu, de 90 anos, também moradora do condomínio, foi a única no local que estava na porta de Cerqueira Leite para apoiar Dilma. “Ela não roubou nada dos cofres públicos. É uma mulher como eu, que não merece ser castigada desse jeito. Eu a considero uma pessoa muito humana.”
Sirius
Dilma chegou ao Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), que integra o CNPEM, às 11h, onde visitou o Sirius. O projeto de fonte de luz síncrotron, de quarta geração, que será a maior e mais complexa infraestrutura científica já construída no País, começou a ser construído no final do primeiro mandato de Dilma, mas ela nunca havia visitado as obras.
Alguns dos pesquisadores receberam a presidente com rosas vermelhas, mas outros não a cumprimentaram. O diretor do LNLS, Antônio José Roque da Silva, disse parte do investimento bilionário do projeto já está garantido, e que não há razões para crer que ele será paralisado pelo governo interino Michel Temer (PMDB). “O projeto tem empenhado um terço do seu recurso, mas o resto deve ser negociado ano a ano. Mas ele já está no PPA (plano plurianual do Ministério da Ciência e Tecnologia), no valor de R$ 1,3 bilhão, que cobre até 2019. E deve cobrir todo o projeto.” A previsão é que a fonte de luz síncrotron comece a funcionar em 2018.
Agressão
Uma jornalista de 22 anos integrante do Jornalistas Livres foi agredida nas costas com um cabo de vassoura por uma integrante do Movimento Brasil Livre (MBL) quando chegava para cobrir a chegada da presidente afastada Dilma Rousseff no Condomínio Alto das Palmeiras, no Parque das Palmeiras, em Campinas, onde a petista almoçou na casa do químico Rogério Cerqueira César. A repórter Martha Raquel Rodrigues, que também integra a Marcha Mundial das Mulheres e acompanhava a visita da presidente afastada, usava camiseta vermelha.
Além de um golpe de vassoura nas costas, ela também teve o óculos de grau arrancado por outra mulher e foi puxada pelo braço. A Polícia Militar (PM) teve que intervir para separar a jornalista, que não revidou, das agressoras.
Dilma chegou em um carro preto com vidro escuro. Foi aplaudida pelos militantes do PT e vaiada pelo grupo do MBL. Alguns dos petistas seguravam rosas vermelhas. Ao todo, cerca de 150 pessoas foram ao local para manifestar apoio e também para protestar contra Dilma.
A presidente chegou com sua comitiva no condomínio por volta das 13h15. A Polícia Militar fez o acompanhamento dos grupos no local. Faixas de isolamento foram colocadas na esquina da calçada do condomínio para delimitar o espaço para os simpatizantes de Dilma. Já o grupo do MBL foi instalado no canteiro central da Avenida Papa João Paulo I. Para protestar contra a presidente afastada, usaram uma espécie de cruz feita com cabo de vassoura e bandeiras.
A agressão ocorreu depois que a jornalista estacionou o carro e passou andando próximo das cruzes. “Eu não fiz nada. Veio um grupo de cinco ou seis mulheres em minha direção e começaram a me xingar com palavras do tipo ‘você não tem vergonha de lutar por pessoas erradas’, entre palavrões. Continuei caminhando e uma delas me bateu com o cabo de vassoura nas costas, outra tirou meu óculos e uma me puxou”, relatou Martha. “Tenho meu posicionamento e não vim aqui como manifestante, mas para cobrir o evento.”
A mulher acusada pela repórter negou a agressão e disse que apenas se aproximou da jovem para pedir para que ela não destruísse as faixas. “Ela (Martha) chegou destruindo tudo. A gente queria que ela parasse. Ninguém agrediu”, disse a mulher que não quis se identificar.
O coordenador do MBL, Ronald Tanimoto, também negou a agressão, mas frisou que “neste tipo de evento sempre existe confronto”. “Não é nosso perfil a agressão. Viemos para mostrar nossa indignação contra Dilma e tenho certeza que nosso recado foi dado.” Ele afirmou que a convocação aconteceu na noite anterior, nas redes sociais. “Acredito que ao menos 50 pessoas vieram. Não ligamos para números”.
“Nós lutamos pela democracia e não viemos para brigar. Tenho admiração pela Dilma, pois é a primeira mulher presidente do Brasil”, disse a aposentada Iolanda Ide, de 74 anos, do movimento Marcha Mundial das Mulheres. Dilma deixou o condomínio por volta das 16h. Escoltada, abaixou o vidro do carro e acenou para os manifestantes. Um adolescente arremessou uma flor vermelha para a petista, que chegou a se assustar, mas sorriu. Dilma seguiu para o aeroporto de Viracopos, onde embarcaria para São Paulo. (Alenita Ramirez/AAN)
Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Email this to someone