Três meses após ataque hacker, centro que abriga Sirius diz que finalizou apuração, mas se esquiva sobre identificação de autoria

Publicado em 06/06/2022
Por G1 em 24/05/2022

 

O Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), confirmou ao g1 na tarde desta terça-feira (24) que finalizou as apurações sobre o ataque hacker que invadiu o sistema interno, sequestrou parte dos arquivos e afetou uma série de setores há três meses. Entretanto, a diretoria, em nota, se esquivou de responder se a autoria foi ou não identificada durante este período de trabalhos internos, ou eventualmente por “autoridades” que foram comunicadas sobre o caso.

A estrutura abriga o superlaboratório de luz síncrotron de 4ª geração Sirius, acelerador de partículas do Brasil, e o “incidente de segurança em computadores e servidores” no local veio à tona em 19 de fevereiro. No texto, a instituição afirmou que “um possível comprometimento foi identificado em menos de 1% das atividades de tratamentos de dados pessoais do CNPEM” e que, por isso, notificou os titulares de dados como nome completo e e-mails que constavam no servidor afetado.

 

“Esta é uma medida preventiva, já que não é possível afirmar que os dados pessoais foram vazados. As autoridades competentes foram comunicadas”, informa outro trecho da nota do CNPEM ao destacar compromisso com “ética, responsabilidade e transparência”. A instituição, contudo, também não informou quando a apuração foi concluída, nem quais autoridades foram acionadas.

“As atividades de pesquisa e desenvolvimento realizadas nos Laboratórios Nacionais do CNPEM, no Sirius e as ações da Ilum – Escola de Ciência seguem normalizadas. Com foco na prevenção e na melhoria contínua de seus processos, novos procedimentos e ferramentas para reforçar a segurança da informação foram implementados”, destaca ainda o texto divulgado pela assessoria.

Prejuízos financeiros

 

A reportagem solicitou à instituição em abril, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), informações sobre a possível identificação de autoria e eventual prejuízo financeiro, mas à época o CNPEM alegou que os trabalhos estavam em andamento e, por isso, as informações estavam sob sigilo. Além disso, também não apresentou detalhes sobre o que são as novas medidas de segurança.

Além disso, também alegou à época que eventuais respostas aos questionamentos poderiam prejudicar a integridade das investigações internas a fim de apurar o evento ocorrido, principalmente em razão do envolvimento de um agente malicioso no crime cibernético.

g1 solicitou um posicionamento para a Polícia Federal sobre o caso, para saber se ela foi comunicada sobre o ataque hacker, mas não houve resposta até a publicação.

O ataque hacker

 

A estrutura confirmou que o ataque cibernético foi do tipo ransomware, que impede o acesso às informações armazenadas em um dispositivo. Com isso, os cibercriminosos pretendem forçar a vítima a pagar para recuperarem o acesso ao sistema. Entenda o crime nesta reportagem e no vídeo abaixo.

A assessoria do centro também nunca confirmou se, até esta publicação, houve contato de cibercriminosos para cobrança de valores em troca da devolução dos dados.

Sem impacto no Sirius

 

Em nota, o centro reforçou que o Sirius não foi afetado. “A operação e os dados do Sirius foram preservados, devido aos rígidos padrões de segurança adotados pelo Projeto. Dados do Sirius são armazenados na nuvem e seus aceleradores de elétrons e estações de pesquisa utilizam sistemas customizados, desenvolvidos pela equipe do CNPEM e sem acesso à rede”.

O CNPEM é uma organização social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). O g1 questionou o ministério sobre o caso, nesta tarde, e aguarda retorno.

Área interna do CNPEM, em Campinas — Foto: Cristiane Duarte/CNPEM

Área interna do CNPEM, em Campinas — Foto: Cristiane Duarte/CNPEM

A estrutura

 

O centro possui quatro laboratórios que são referências mundiais. Um deles, o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), opera o Sirius, acelerador de partículas brasileiro. Superlaboratório funciona como um microscópio de alta performance que analisa diversos tipos de materiais, orgânicos ou não.

O CNPEM também abriga o Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), que desenvolve pesquisas em áreas de fronteira da Biociência; o Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), responsável pela pesquisa para o desenvolvimento de biocombustíveis; e o Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano), que pesquisa materiais avançados.

“Os quatro Laboratórios têm, ainda, projetos próprios de pesquisa e participam da agenda transversal de investigação coordenada pelo CNPEM, que articula instalações e competências científicas em torno de temas estratégicos”, informa o site do centro. A partir de 2022, com o apoio do Ministério da Educação (MEC), o CNPEM abriu a Ilum Escola de Ciência.

“O curso superior interdisciplinar em Ciência, Tecnologia e Inovação adota propostas inovadoras com o objetivo de oferecer formação de excelência, gratuita, em período integral e com imersão no ambiente de pesquisa do CNPEM”, completou o CNPEM.