O ‘astronauta’ que levará farmacêutica brasileira ao espaço

Publicado em 24/12/2021
Valor Econômico em 21/12/2021

Airvantis, de Lucas Fonseca, quer estimular economia espacial entre as empresas brasileiras

O sonho de Lucas Fonseca, 37 anos, era ser astronauta da Nasa, mas os rumos da carreira do engenheiro espacial o levaram a dizer não para a maior agência espacial americana. “Enviei diversos currículos para Nasa e, quando recebi uma proposta firme anos depois, tinha acabado de ser convidado para trabalhar na missão Rosetta, pela agência alemã”, conta Fonseca, que se define como “astro-empreendedor”.

Na missão Rosetta, cuja nave de mesmo nome foi construída para fazer o mais detalhado estudo de um cometa – no caso, o 67P/Churyumov-Gerasimenko -, Lucas Fonseca foi o único brasileiro a participar da equipe que enviou uma sonda para o espaço em 2014, considerado um dos projetos mais ambiciosos da Agência Espacial Europeia (ESA).

Engenheiro mecatrônico formado pela Universidade de São Paulo (USP), Fonseca se especializou em engenharia espacial na França, onde morou entre 2009 e 2010, abrindo espaço para o brasileiro na Europa. Ele ficou na missão Rosetta, contratado como funcionário público na Alemanha por dois anos. Depois, decidiu voltar para empreender no Brasil.

À frente da Airvantis, uma startup de logística espacial fundada por ele em 2013, Fonseca quer colocar o Brasil na rota da economia “new space”. A empresa, que já fez vários trabalhos com o governo brasileiro para a entrega de satélites, fechou contrato com a farmacêutica nacional Cimed, especializada em medicamentos genéricos, e está em negociações com outras companhias ligadas à tecnologia.

“Há um mercado muito grande a ser explorado no espaço e as empresas brasileiras são incipientes nesse processo”, conta Fonseca.

A Cimed, que está reforçando sua estratégia em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), contratou a Airvantis e firmou parceria com Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), organização supervisionada pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), para viabilizar o experimento que consiste em cristalizar proteínas no espaço.

Essa técnica já é utilizada por farmacêuticas internacionais há mais de 20 anos e permite explorar as condições de microgravidade, buscando obter cristais de proteína de melhor qualidade.

A Airvantis organizou para hoje o envio das primeiras quatro moléculas de proteínas de covid-19 para o espaço. O foguete que transportará as proteínas é da Space X, do bilionário Elon Musk, e sairá do Cabo Canaveral, nos EUA. Três delas são da Cimed e a quarta molécula será bancada por Lucas Fonseca.

O empresário brasileiro João Adibe, dono da Cimed, diz que a companhia está investindo pesado em P&D – o grupo destinará R$ 300 milhões nos próximos anos em produtos inovadores, valor que também inclui os experimentos espaciais. “Queremos nos firmar como uma ‘healthtech’. Achamos importante fazer essas pesquisas no espaço”, diz.

O primeiro projeto é levar as proteínas de covid para tentar desenvolver medicamentos de combate à doença. “Não seremos produtor de vacinas”. O primeiro experimento decola hoje e há planos para enviar ao espaço outras moléculas de proteínas de covid-19 no meio do ano. A Cimed também vai levar levedura de vitamínicos para o espaço entre maio e junho.

Segundo Fonseca, o ambiente espacial é favorável à produção de radicais livres, que poderão ajudar na pesquisa dessas leveduras.

Valor apurou que a Airvantis também está em negociações com a empresa de tecnologia asiática Asus para levar materiais da companhia para o espaço. O objetivo é testar a deterioração de equipamentos e também fazer trabalhos de marketing.

As campanhas de marketing no espaço são um filão que a Airvantis quer explorar mais. A Cimed também vai ter sua placa com o nome da empresa junto com outras companhias globais que vão divulgar seu nome fora da Terra.

A Airvantis também tem uma holding nos Estados Unidos, que atua como “venture builder”, ou seja, constrói oportunidades de negócios para outras startups e empresas. O engenheiro espacial começou o negócio com capital próprio, em torno de US$ 100 mil, logo quando saiu da missão Rosetta, e depois recebeu aporte de R$ 5 milhões do empresário brasileiro Martim Matos, sócio da GreenCare, de medicamentos à base de cannabis, por acreditar no projeto.

“O mercado de ‘new space’ pode ser explorado por diversos setores, de agricultura a mineração”, diz Fonseca. O artista plástico brasileiro Romero Britto consultou a Airvantis para levar telas para o espaço. “É uma forma de marketing positivo que pode ser explorado. Antes, a economia espacial estava atrelada à geopolítica e os governos eram os que estimulavam a exploração do espaço. Hoje tem outras empresas que estão neste mercado.”

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Repercussão: Valor Econômico (impresso)