Como cientistas usarão coronavírus geneticamente alterados para achar cura

Publicado em 17/04/2020

UOL, 13/04/2020

Cientistas brasileiros do Cnpem (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais), situado em Campinas (SP), receberam na última semana uma autorização para fazer pesquisas com o coronavírus “geneticamente modificado”. A permissão do CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), que regula pesquisas que envolvam biossegurança no país, envolve um projeto para achar um remédio eficaz contra a covid-19.

A pesquisa em questão segue em paralelo à que busca um composto para tratar o coronavírus, com testes in vitro de células infectadas com o organismo. Esta pesquisa, que também ocorre no Cnpem, já achou inclusive dois medicamentos com potencial inibição contra o vírus, sendo que um deles tem resultados bem semelhantes aos da cloroquina em teste com células – ainda é preciso averiguar a eficácia em humanos de fato.

Ao contrário da pesquisa in vitro com o coronavírus em células infectadas, o estudo do organismo geneticamente modificado usará uma partícula gerada em laboratório que não tem capacidade de replicação, segundo os pesquisadores. A intenção é manter uma pesquisa que busca um remédio, mas ao mesmo tempo ter uma segurança maior, sem a possibilidade de infecções.

“Nosso objetivo consiste em aumentar o nível de segurança. A partícula viral selvagem é infecciosa e requer elevado nível de biossegurança para manipulação em laboratórios. A partícula modificada não é infecciosa e apresenta menor risco biológico. Ela pode ser manipulada de forma mais segura em laboratório, para viabilizar estudos na busca de fármacos que possam inibir a montagem das partículas virais ou inibir a interação do vírus com células humanas”, explica ao Tilt Marcio Chaim Bajgelman, pesquisador do Cnpem.

A ausência da infecção permite, também, que o Cnpem faça pesquisas em suas instalações, no LNBio (Laboratório Nacional de Biociências). Esse laboratório possui nível dois de biossegurança, enquanto o coronavírus demanda nível três – por isso, as pesquisas in vitro até o momento são feitas em laboratório da Unicamp.

Como se cria um vírus modificado?

O vírus geneticamente modificado é, de certa forma, uma “criação” de cientistas. Essa partícula é produzida a partir de clonagens do próprio vírus, deixando de fora estruturas que podem provocar infecção e replicação do vírus.

“Essa partícula é produzida por meio da clonagem de 3 a 4 genes virais com o objetivo de montar uma partícula viral defectiva, desprovida de material genético e que portanto não carrega informação para geração de novas partículas, mas pode ser utilizada para estudos de novos medicamentos, por exemplo”, aponta Bajgelman.

O pesquisador explica que a produção desse vírus geneticamente modificado envolve três etapas:

  1. Clonagem de genes virais: são copiadas informações do genoma viral, que são inseridas em uma construção de DNA sintético.
  2. Estabelecimento de linhagens celulares: a construção de DNA sintético é inserida em células cultivadas em placas. Essas células podem produzir partículas virais sem a capacidade de infecção.
  3. Purificação de partículas: como o nome diz, as partículas passam por uma purificação para pesquisa.

Mesmo sendo na prática uma “criação”, as partículas geradas com a tecnologia chamada de “DNA recombinante” são enquadradas como organismos geneticamente modificados. Até por isso é necessária a permissão de órgãos de controle para a liberação de estudos.

Atualmente, os pesquisadores relatam estar concluindo a clonagem dos genes virais. Ainda nesta semana deverá ter início o estabelecimento da primeira linhagem celular, cujo processo pode durar cinco semanas. Por fim, a etapa de purificação deve levar uma semana.

“Acreditamos que em maio já devemos ter as partículas defectivas disponíveis para estudos e para ceder a outros grupos de pesquisa da Rede Vírus, se for o caso”, afirma Bajgelman.

Segurança

Qualquer coisa com a palavra “geneticamente modificado” já cria alertas e gatilhos com temores de segurança da coisa, né? Mas, neste caso, a intenção é exatamente o contrário: gerar vírus que sejam mais seguros para a manipulação em laboratórios e tragam menos riscos.

“O nosso objetivo de produzir uma partícula viral geneticamente modificada consiste justamente em tornar a partícula mais segura para estudos no laboratório. Dessa forma, a partícula é construída com apenas 3 a 4 proteínas virais e não apresenta genoma. Por isso a partícula não é infecciosa e não se replica”, conta o pesquisador.

Segundo Bajgelman, todo o estudo para a criação desse vírus geneticamente modificado foi planejado pelo Laboratório de Vetores Virais, também do Cnpem. Não é a primeira vez que partículas do tipo são criadas pelo laboratório.

“Após o planejamento, o projeto foi encaminhado e avaliado pela CTNBio, que tem a competência para deliberar a respeito de projetos envolvendo organismos geneticamente modificados no Brasil. O desenvolvimento do projeto no Cnpem ocorre em instalações previamente credenciadas pela CTNBio, com pessoal treinado para manipulação de organismos geneticamente modificados em contenção, seguindo criteriosos requisitos de segurança, monitoramento e inspeções de avaliação constantes”, explica.

Vacina tem abordagem parecida

A abordagem de fazer vírus sem a capacidade de infeccionar pessoas lembra a tática adotada por laboratórios que investigam uma possível vacina no Brasil. A pesquisa nacional por uma vacina trabalha com o chamado VLP – virus like particles (ou partículas semelhantes a vírus, na tradução literal).

As VLPs, assim como as partículas geneticamente modificadas do Cnpem, usam o coronavírus sem o código genético do organismo. Isso retira a capacidade de infecção da doença. No caso da vacina, contudo, essas partículas estariam dentro da dose injetada na imunização da população.

“Colocamos as partes do coronavírus que são importantes para desencadear uma forte resposta do sistema imunológico, para emitir os anticorpos bloqueadores e impedir o vírus de penetrar nas células”, afirmou ao Jornal da USP o chefe da pesquisa Jorge Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Incor (Instituto do Coração) da FMUSP (Faculdade de Medicina da USP).

 

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