Capivaras podem ajudar na produção de etanol: Sirius encontra novas enzimas

Publicado em 23/02/2022
Por UOL Tilt em 02/02/2021

 

Mark Metcalfe/Getty Images
Imagem: Mark Metcalfe/Getty Image

Marcella Duarte

Colaboração para Tilt, em São Paulo

02/02/2022 08h37Atualizada em 08/02/2022 14h15

Pesquisadores do CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações), em Campinas (SP), usaram técnicas avançadas da ciência moderna, incluindo linhas de luz sincrotron de um acelerador de partículas, para desvendar os segredos do processo digestivo do maior roedor do mundo: a capivara.

Disso saiu uma descoberta surpreendente, publicada nesta quarta-feira (2) na revista científica Nature Communications. Duas novas famílias de enzimas, envolvidas na digestão das capivaras, podem ser usadas para geração de biocombustíveis e biomateriais.

 

Ou seja, são soluções biotecnológicas encontradas na biodiversidade brasileira.

Capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris) habitam desde o sul do Brasil até a bacia Amazônica. São herbívoras, se alimentando exclusivamente de plantas aquáticas e gramíneas, inclusive cana-de-açúcar. Elas conseguem digerir eficientemente fibras de materiais lignocelulósicos, em particular as do bagaço de cana, e transformá-los em moléculas utilizadas como fonte de energia, como ácidos graxos.

Mas este mecanismo não era totalmente conhecido.

Os cientistas perceberam que os simpáticos animais abrigam uma complexa comunidade microbiana em seus intestinos, responsável por degradar os polissacarídeos (carboidratos complexos) vegetais.

A ação destas bactérias constitui um sistema enzimático sem precedentes, perfeito para desconstrução de biomassa.

Conhecidas como CAZymes, ou enzimas ativas em carboidratos, são proteínas promissoras para aplicações em processos biotecnológicos, como a fabricação de combustíveis e outros materiais a partir de biomassa, ou na indústria de alimentos e bebidas.

Acessar este potencial genético inexplorado pode nos ajudar na transição para uma economia mais sustentável, substituindo produtos de origem fóssil.

A alta resistência da biomassa das plantas, tanto a processos físico-químicos, quanto biológicos, é um dos entraves para sua ampla utilização na indústria. O intestino dos herbívoros é como um biorreator natural no qual podemos nos inspirar.

Descobertas

Os pesquisadores do CNPEM descobriram dois novos tipos de CAZymes no trato digestivo das capivaras, sendo “uma nova família de hidrolases glicosídicas com atividade de Beta-galactosidase (nomeada GH173) e um novo módulo de ligação a carboidratos envolvidos no reconhecimento de xilanos (CBM89)”.

A primeira se mostrou particularmente interessante para aplicações relacionadas à área de alimentos, atuando principalmente na metabolização de derivados de leite.

A segunda é bastante promissora para ser incorporada a plataformas enzimáticas que já vem sendo aperfeiçoadas, com aplicações na produção de combustíveis, bioquímicos, biomateriais e até alimentos.

O trabalho partiu de uma suspeita inicial: por estarem habituadas a consumir cana no território brasileiro, as capivaras teriam incorporado, em seu microbioma intestinal, bactérias com recursos adaptativos especializados para digerir eficientemente este tipo de biomassa.

Para encontrar e mapear os microorganismos, então, os cientistas realizaram uma espécie de censo, com análises integradas multi-ômicas, incluindo sequenciamento de DNA e RNA e reconstrução metabólica.

Aos poucos, o foco foi sendo reduzido até chegar na escala atômica — com ajuda do acelerador de partículas Soleil, na França. Nas próximas etapas do estudo, deve ser utilizada a linha de luz sincroton Manacá, do brasileiro Sirius, que funciona no CNPEM.

Assim, foram revelados detalhes inéditos e desconhecidos da composição, estrutura e processos enzimáticos da digestão de fibras vegetais.

A degradação da celulose é feita, principalmente, por bactérias do filo Fibrobacter, enquanto hemiceluloses e pectinas são processadas por um arsenal de CAZymes, identificadas em genomas do filo Bacteroidetes.

Veja aqui o artigo completo, em inglês: “Gut microbiome of the largest living rodent harbors unprecedented enzymatic systems to degrade plant polysaccharides” (Microbioma intestinal do maior roedor vivo abriga sistemas enzimáticos sem precedentes para degradar polissacarídeos vegetais).

Errata: o texto foi atualizado
Diferente do que estava no texto anteriormente, o acelerador de partículas já utilizado no estudo foi o Soleil, não o Sirius. A informação já foi corrigida.