Síncrotron é afetado pelo terremoto

Publicado em 05/03/2010
05/03/2010 – O Correio Popular

O Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, em Campinas, registrou reflexos do terremoto que atingiu o Chile, na madrugada do último sábado. Houve oscilação no feixe de elétrons. Segundo informações do laboratório, até agora não há relatos de danos causados nas pesquisas em andamento naquele dia, mas é possível que no acúmulo dos dados apareçam distorções. Desde o dia 18 de janeiro deste ano, cerca de 88 pesquisas foram realizadas nas 15 linhas de luz do laboratório.

A instabilidade foi identificada às 3h45, minutos após o tremor de terra de 8,8 graus de magnitude atingir a região central do Chile, e se tornar o quinto maior terremoto da história.
A oscilação foi percebida durante o monitoramento que ocorre em tempo integral no laboratório. Inicialmente, o técnico que acompanhava o desempenho da unidade percebeu a oscilação que durou alguns minutos e não conseguiu relacionar o problema na estabilidade do feixe e na distorção da órbita com qualquer evento interno.

De acordo com o coordenador do Grupo de Operações da Fonte de Luz Síncrotron, Ruy Hanazaki do Amaral Farias, o relato inicial não identificou o problema. “No dia seguinte, com a notícia do terremoto fizemos a relação. A distorção foi de 300 micrometros, cerca de 0,3 milímetros, considerada fora do comum dentro do laboratório e pouco acima da faixa de tolerância de 10%”, afirmou.

Este foi o primeiro episódio de oscilação no feixe decorrente de um tremor de terra identificado no laboratório. “É um fato curioso saber que um terremoto desta intensidade atingiu o Brasil e de forma fraca. O equipamento do laboratório é programado para corrigir automaticamente essas instabilidades.

O acelerador mantém a órbita estável no ponto onde estão os experimentos. Como as pesquisas realizadas aqui costumam ter alguns meses de coletas de dados, até agora não recebemos nenhuma notificação de anormalidades detectadas naquela madrugada, mas é possível que algo apareça na análise futura”, disse o coordenador. A luz síncrotron é gerada dentro de um anel de armazenamento que possui 30 metros.

Neste anel, um feixe de elétrons percorre toda a estrutura, praticamente atingindo a velocidade da luz. Este feixe tem cerca de 1 milímetro. Em um determinado momento, eles são forçados a mudar de percurso e passam a emitir uma luz de alto brilho — a luz síncrotron. Essa radiação eletromagnética emitida vai desde o raio infravermelho até o raio X. Logo após, o feixe selecionado para uma determinada pesquisa passa pela amostra a ser analisada. E revela as propriedades imperceptíveis ao olho humano.

São 15 linhas utilizadas para pesquisa no laboratório e especializadas em diferentes técnicas. Se, por exemplo, um pesquisador quiser desenvolver um plástico mais resistente, ele pode trabalhar com a linha de luz na faixa de raio X aplicada no material de análise e identificar as principais pontes de sustentação molecular dentro dos plásticos, e como elas influenciam as propriedades mecânicas.

O Laboratório Nacional de Luz Síncrotron é o único deste gênero na América Latina. Centenas de pesquisadores, do Brasil e do exterior utilizam a fonte brasileira de luz síncrotron para fazer pesquisas de átomos e moléculas.

Saiba mais
Segundo cálculos do laboratório da Nasa, na Califórnia, o eixo do planeta desviou oito centímetros durante o terremoto que atingiu o Chile, de magnitude 8,8, informou em comunicado oficial a agência espacial. Os dias terrestres duram 24 horas devido ao tempo que o planeta leva para completar a rotação em torno de seu eixo. A leve modificação deste eixo incide sobre sua duração. Se o eixo da Terra teve um desvio de oito centímetros durante o sismo no Chile, isso corresponde a um encurtamento da duração do dia terrestre em 1,26 microssegundo, de acordo a agência. Um microssegundo representa um milionésimo de segundo, uma mudança quase imperceptível.

O terremoto de sábado desviou mais o eixo de rotação terrestre do que o de magnitude 9,1 ocorrido ao longo da Indonésia e que acarretou o tsunami de 2004, na Ásia. O motivo vem do fato de que a falha que esteve na origem do terremoto no Chile tem maior capacidade de deslocar verticalmente a massa terrestre e modificar seu eixo.

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