Se na Lua não venta, por que a bandeira dos EUA tremeu?

Publicado em 23/07/2014
UOL Notícias, em 22/07/2014

 

Lá se vão 45 anos que o homem pisou na lua pela primeira vez. E ainda assim, há quem acredite que tudo não passou de uma armação dos americanos. O maior argumento diz respeito à bandeira americana, que parece se mover na foto. É isso mesmo? Conheça os fatos para acabar com esse mito

Nesta semana, o mundo comemora o aniversário de 45 anos do dia em que o homem colocou os pés na Lua pela primeira vez. E apesar de tanto tempo ter passado, ainda há quem acredite que tudo não passou de uma armação dos americanos. Um dos argumentos mais utilizados para alimentar a teoria da conspiração é o da bandeira dos EUA, que aparece em movimento nos vídeos da Nasa (a agência espacial americana). Como isso é possível se na Lua não venta?

O questionamento sobre a ondulação da bandeira aparece em todos os textos e documentários criados para espalhar a tese de fraude, que nasceu nas palavras de Bill Kaysing, autor do livro “Never Went to the Moon”(“Nunca fomos à Lua”), de 1974. Kaysing morreu há alguns anos, mas suas ideias nunca deixaram de circular, ainda mais com o advento da internet.

A questão é que os vídeos originais da Nasa são bem tediosos e ninguém tem muita paciência para assisti-los inteiros. E se a bandeira aparece tremulando no momento em que é fincada na Lua, ou quando o astronauta a arruma, as mesmas imagens a mostram paradinha momentos depois, como deve ser em um ambiente de vácuo como é o espaço.

“Se você olhar com cuidado os filmes da época, ou as fotos, verá que a bandeira está parada, e só se mexe quando algum astronauta a toca. Quando ele faz isso, ela se move como um tecido se moveria, ou seja, vai fazer uma onda. Não por causa de vento, mas sim pelo movimento provocado pelo astronauta diretamente na bandeira e pela flexibilidade do tecido”, explica Douglas Galante, pesquisador do Laboratório Brasileiro de Luz Síncrotron e do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (Universidade de São Paulo).

Na verdade, a bandeira se move daquele jeito ao ser manipulada justamente porque não está sujeita à resistência do ar. Vale lembrar que o mastro é de alumínio flexível, por isso o movimento continua mesmo depois que o astronauta tira a mão. “A inércia faz com que ela continue a se mover”, esclarece o especialista Roger Launius, do Museu Espacial Smithsonian, em Washington, em reportagem da National Geographic sobre o tema.

Mitos

O astrônomo Phil Plait, autor do premiado blog “Bad Astronomy”, tem um post específico para explicar não só a história da bandeira, mas todas as outras divulgadas pelos conspiracionistas. Como o fato de que não há estrelas nas fotos tiradas pelas máquinas embutidas nos trajes dos astronautas da Apollo 11. Ele explica que o tempo de exposição das câmeras estava configurado para ser curto, já que o pouso ocorreu de manhã, com o Sol brilhando intensamente. Assim, a luz das estrelas que estão ao fundo não pode ser vista.

Outro argumento famoso é o das pegadas, que para ficarem assim tão bem definidas só poderiam ter sido feitas em areia molhada, segundo os céticos. Plait também derruba o questionamento, lembrando que o solo lunar é composto por uma areia finíssima, que lembra pó ou cinza vulcânica. Por isso, ela se comprime facilmente, formando o desenho detalhado da bota. E por que fica intacta por tanto tempo? Novamente, por causa do vácuo.

Vários desses mitos foram derrubados pelos divertidos apresentadores do programa “MythBusters”, do Discovery Channel, que até usaram uma câmara de vácuo para desbancar as teorias. Mas o povo do contra não se convenceu: de acordo com eles, o programa é patrocinado pela Nasa.

Provas

“Muita gente tentou desacreditar a ida dos americanos à Lua, mas ela de fato aconteceu e isso é um consenso hoje em dia”, comenta Galante. O pesquisador até cita uma prova clara disso: “Podemos enviar um laser para a Lua, fazê-lo refletir em um dos espelhos deixados para esse propósito pelos astronautas da Apollo, e medir o sinal de volta aqui na Terra.”

Há várias outras confirmações, não só do pouso da Apollo 11, mas das missões que se seguiram até 1972, quando o dinheiro acabou. A missão indiana Chandrayaan-1, lançada em 2008, orbitou a Lua e confirmou que os jatos propulsores do módulo lunar da Apollo 15 alteraram a superfície, deixando-a mais clara. E olha que a Índia não teria nenhum interesse em apoiar os EUA em um eventual embuste.

Ainda há fotos de satélites que mostram objetos deixados pelos astronautas americanos na Lua, e confirmam a desconfiança de Buzz Aldrin de que a famosa bandeira caiu com a vibração do módulo lunar durante a decolagem. E, bom, há as centenas de amostras de rochas lunares trazidas pelos astronautas. Russos também fizeram coletas em missões não tripuladas e eles certamente teriam feito algum barulho caso houvesse diferença de composição entre as pedras.

Mas talvez seja mais interessante para certas pessoas pensar que foi tudo foi simulado – e teve até direção do cineasta Stanley Kubrick, dizem. Pelo menos enquanto não for possível para qualquer mortal ir até a Lua e procurar as provas pessoalmente. “Em breve, se alguém vencer o Google Lunar Prize, talvez tenhamos um pequeno rover particular visitando um dos antigos locais de pouso na Lua, mostrando aos incrédulos que há quase 50 anos já éramos capazes de viajar para outros corpos do nosso Sistema Solar”, conclui Galante.

Repercussão: BOL Notícias
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