Novo reator permitirá independência

Publicado em 12/12/2013

Jornal da Unicamp em 11/12/2013

Investimento de US$ 500 milhões vai permitir ao Brasil mais do que dobrar exames e procedimentos de Medicina Nuclear

O investimento do governo federal de US$ 500 milhões no Reator Multipropósito Brasileiro (RMB) vai permitir ao Brasil mais do que dobrar a quantidade de exames e procedimentos de Medicina Nuclear e proporcionar uma independência inédita ao país na produção de radiofármacos. Durante simpósio na Unicamp realizado no dia 10, pesquisadores apresentaram as possibilidades de uso desse reator nuclear de pesquisa que será construído na região de Sorocaba (SP).

Na abertura do evento, organizado pelo Fórum Pensamento Estratégico (PENSES), o reitor da Unicamp, professor José Tadeu Jorge, destacou que o empreendimento representa uma importante estrutura para a pesquisa do país e reforçou o apoio institucional da universidade ao RMB, formalizado em moções da Reitoria e do Instituto de Física GlebWataghin (IFGW), que sediou o simpósio. “A Unicamp tem plena consciência e entendimento de que o RMB irá beneficiar o país de forma bastante significativa”, declarou Tadeu Jorge. “Uma universidade pública não pode se furtar a iniciativas como essa, que retornam os investimentos feitos com dinheiro público.” Para o reitor, a parceria da Unicamp com o RMB deverá se efetivar não só com o IFGW, mas também com outras unidades e órgãos da universidade. “Queremos colaborar o máximo possível para que isso se viabilize e que não percamos a chance de ter um projeto tão importante e tão tecnicamente bem elaborado.”

Essa maior interação entre a universidade e o RMB será essencial para que o Brasil desenvolva novos radiofármacos e não se limite a reproduzir as inovações do exterior. Atualmente essa tarefa fica limitada pelo fato de o país importar a grande maioria da matéria-prima para esses procedimentos médicos. Segundo o médico Celso Darío Ramos, professor da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), que importa os radioisótopos para processá-los e fornecê-los às clínicas brasileiras, não consegue se dedicar adequadamente à pesquisa. Ramos justificou a limitação do IPEN pela necessidade de suprir a demanda da Medicina Nuclear brasileira, já que o órgão tem o monopólio da atividade. Há mais de 50 anos, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) já forneceu cerca de 50 milhões de doses de radiofármacos, sendo que nunca houve relato de reação adversa grave que resultasse em morte ou internação. O IPEN é uma autarquia do governo paulista gerenciada técnica, administrativa e financeiramente pela CNEN.

O professor da FCM aponta que a área de radioatividade é um setor naturalmente de aglutinação em pesquisa, diferenciando-se de outros ramos da ciência que normalmente interagem menos. “Quando entramos em radioatividade, todos nós temos que trabalhar juntos. Vejo a Unicamp com um potencial grande”, previu Ramos. “Sobra pouco espaço no IPEN para se criar novos radiofármacos e isso seria uma vocação natural da universidade”, defendeu o docente, que também é presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear (SBMN) e diretor do Serviço de Medicina Nuclear na Unicamp.

No Brasil são realizados por ano cerca de dois milhões de procedimentos de diagnóstico médico com tecnécio-99. Esse radioisótopo é originado a partir do molibdênio-99, que por sua vez é um produto da fissão do urânio-235, minério radioativo encontrado na natureza. O país importa todo o molibdênio-99 necessário para esses procedimentos, ao custo anual de US$ 10 milhões.

O coordenador do RMB, José Augusto Perrotta, estima que o empreendimento, que será construído em Iperó (SP), compensará, apenas com o molibdênio-99, o investimento feito em um prazo de 20 a 25 anos. De acordo com o engenheiro, que também é assessor da Presidência da CNEN, a dependência das importações de África do Sul, Canadá e Argentina é prejudicial porque deixa o Brasil sujeito a problemas externos. Há cerca de duas semanas, problemas com os reatores sul-africano e canadense fizeram com que o país só tivesse um terço de sua demanda por radiofármacos suprida pelos argentinos. Em 2008 e 2009, o problema foi ainda mais grave, pois o governo importava somente do Canadá.

A Argentina, que é parceira do Brasil no projeto do RMB, conta com uma Medicina Nuclear mais desenvolvida. “A Medicina Nuclear do Brasil é avançada, mas limitada a poucos centros. Em relação ao tamanho da população, a nossa Medicina Nuclear é quase três vezes menor do que a argentina”, constatou Ramos. O docente da FCM apresentou dados de 2011 mostrando que, do total de médicos especialistas do Brasil, apenas 0,24% são especializados em Medicina Nuclear, o que totalizava cerca de 500 profissionais. Além do mais, a concentração desses médicos é muito maior nas regiões Sul e Sudeste.

Perrotta mostrou que o Brasil consome 4% da produção mundial de radiofármacos atualmente. Depois que o RMB entrar em operação, no prazo de cinco anos, o país poderá responder pelo dobro desse percentual, previu o engenheiro. Além dessa utilização de grande importância social, o RMB também produzirá radioisótopos e fontes radioativas para aplicações na indústria, agricultura e meio ambiente; e permitirá a realização de testes de irradiação de combustíveis nucleares e de materiais estruturais.

Durante o evento, o pesquisador científico do IPEN Fabiano Yokaichiya abordou outra utilização importante do RMB, na área de pesquisas com feixes de nêutrons em várias áreas do conhecimento, entre elas a análise de materiais. Essa estrutura destinada aos feixes de nêutrons será utilizada no modelo de laboratório multiusuário, aberto a pesquisadores externos, com função complementar ao realizado pelo Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS). “A grande vantagem da difração de nêutrons é poder obter estruturas magnéticas”, explicou Yokaichiya, referindo-se às limitações da técnica de difração de raios-X, usada no LNLS, em alguns tipos de materiais. No simpósio, o pesquisador do IPEN mostrou utilizações práticas do feixe de nêutrons em pesquisas, como em análise de materiais arqueológicos para preservação e na construção civil, para melhoramento de produtos.

A professora Marina Beatriz Vasconcellos, pesquisadora científica no IPEN, abordou as “Aplicações da Análise por Ativação com Nêutrons” e trouxe exemplos dessa técnica que emprega a formação de isótopos radioativos por meio de reações nucleares. As amostras, que podem ser das mais diversas origens, interagem com os nêutrons a partir de uma exposição e, por meio das radiações emitidas, pode-se fazer análise da concentração de elementos químicos presentes no material. Uma das principais vantagens é que esses elementos podem estar presentes na amostra em concentrações extremamente baixas. A Análise por Ativação com Nêutrons pode ser aplicada, por exemplo, em análises geológicas, plásticos, amostras arqueológicas, metais e ligas, alimentos e amostras ambientais. O evento foi encerrado com a palestra do professor Sandro Guedes de Oliveira, do IFGW, que mostrou aplicações específicas na Medicina sobre a “Terapia de Captura de Nêutrons pelo Boro”.

Também estiveram presentes no Simpósio RMB a pró-reitora de Pesquisa da Unicamp, professora Gláucia Maria Pastore; o diretor do IFGW, professor Daniel Pereira, e Júlio César Hadler Neto, professor do IFGW e coordenador do PENSES da Unicamp. O PENSES é um espaço acadêmico vinculado ao Gabinete do Reitor responsável por promover discussões que contribuam para a formulação de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento da sociedade em todos os seus aspectos.

Repercussão: Jornal da Ciência

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