José Israel Vargas: Da crise à oportunidade

Publicado em 20/04/2011

Revista Pesquisa FAPESP, em 04/2011

O mineiro José Israel Vargas, de 83 anos, não é apenas testemunha privilegiada da consolidação da ciência brasileira no século XX, como se tornou uma das vozes mais influentes da política científica e tecnológica do país, do alto de cargos como o de ministro da Ciência e Tecnologia de 1992 a 1998 – ele foi, até hoje, o mais duradouro titular da pasta. Licenciado em química pela Universidade Federal de Minas Gerais em 1952, logo se ligou à física, campo em que sua formação se consolidou no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e na Universidade de São Paulo (USP). Doutor em ciências nucleares pela Faculdade de Física e Química da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, foi um dos formuladores da política de energia nuclear do país no início dos anos 1960, atividade interrompida pelo golpe militar de 1964, o que o fez partir, em exílio voluntário, para uma temporada de seis anos e meio como pesquisador do Centro de Estudos Nucleares do Comissariado de Energia Atômica, em Grenoble, na França. Vargas retomou a carreira de formulador de políticas com Aureliano Chaves, na época governador de Minas Gerais; mais tarde tornou-se secretário de Tecnologia Industrial do Ministério da Indústria e Comércio, no governo Figueiredo. A ascensão de Itamar Franco à Presidência levou-o ao Ministério da Ciência e Tecnologia, onde continuou no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. “Como sou pé-frio, sempre fui chamado em momentos de crise”, define Vargas, que há três anos reuniu alguns de seus escritos das últimas três décadas no livro Ciência em tempo de crise. Defensor da energia nuclear e crítico do corporativismo na ciência brasileira, Vargas narra sua trajetória na entrevista a seguir.

O senhor é graduado em química, mas sua carreira enveredou para a física. Como foi essa transição?
Os meus amigos brincam que, para os físicos, sou químico e, para os químicos, sou físico. Estão querendo dizer que sou igualmente ignorante nas duas áreas, não é? (risos). A área de atração para quase toda a minha geração foi a da física nuclear e a energia nuclear, a maior conquista técnico-científica durante e logo após a Segunda Guerra Mundial. O Brasil tinha tido a ventura de contar com uma geração, a dos anos 1940 na USP, que nos deu uma série de grandes cientistas, formados pela brilhante escola italiana criada por Enrico Fermi. Gleb Wataghin e Giuseppe Occhialini formaram, na USP, Marcelo Damy, Abraão de Moraes, Mário Schönberg, Paulus Aulus Pompeia, César Lattes e Oscar Sala. Meu contato com essa geração começou no período em que fui estudar química na Universidade Federal de Minas Gerais [UFMG], em 1948. No segundo ano me transferi para a USP, na alameda Glete, onde fiquei quase dois anos. Como todo jovem da época, eu era de esquerda e estive envolvido com a agitação estudantil e a campanha “O petróleo é nosso”, liderada principalmente pela juventude comunista. Fiz amigos e conhecidos que se tornaram cientistas importantes.
Por exemplo…

Ely Silva, Luís Hildebrando Pereira da Silva, Ernesto e Amélia Hamburger, Fernando Henrique Cardoso, José Goldemberg, Victor Nussenzweig, com o qual, aliás, fui preso durante a campanha do petróleo. Voltei para Minas inclinado pela física. Tornei-me professor de física do curso secundário, embora continuasse a estudar química, e fui professor de física num cursinho pré-vestibular na Faculdade de Filosofia da UFMG.
Como foi sua passagem pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica?

Durante esse período, o ITA promoveu um curso de aperfeiçoamento de professores de física do curso secundário, uma iniciativa do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]. Foi organizado pelo Paulus Aulus Pompeia, que era uma das mais importantes figuras do grupo de Occhialini e Wataghin. O Pompeia fora um dos participantes de descoberta marcante da física da época: os chamados chuveiros penetrantes, uma das primeiras demonstrações de que o núcleo atômico é muito mais complexo do que se imaginava. Nesse curso havia uns 20 e poucos alunos do Brasil todo. A perspectiva que a energia nuclear abria à economia mundial e à ciência era formidável. Era natural que os jovens com alguma inclinação científica se encaminhassem para essa área. O curso foi interessante porque o Pompeia mobilizou a fina flor da física brasileira para lecionar e fazer conferências. Também estavam no Brasil naquela época dois grandes físicos norte-americanos, Richard Feynman e David Bohm, este último refugiado do macartismo. Na ocasião, o Abraão de Moraes, que foi um teórico importante da física e da astronomia brasileiras, sugeriu ao Pompeia que me recrutasse para o ITA. Era recém-formado em química, mas fui para o departamento de física.

Como era o ambiente do ITA?
Fiquei no ITA de 1952 a 1954. Foi um período extremamente interessante, porque o ITA havia recrutado o que havia de melhor no Brasil. Jovens cientistas e engenheiros em várias áreas, sobretudo na de engenharia mecânica, de materiais, de aeronáutica e, é claro, de matemática. Havia trazido, sobretudo do Massachusetts Institute of Technology, o MIT, um grande número de cientistas. Alguns alemães do grupo do Von Braun, além de belgas, franceses, checos e suíços que começaram a trabalhar em projeto para o primeiro avião brasileiro, a semente do que viria a ser a Embraer. O ITA era um local especial, porque oferecia casa, comida, um pequeno salário e uma carga horária mínima, que permitia assistir a diversos cursos no próprio ITA, entre os quais o ministrado pelo Walther Baltensperger, originário do Politécnico de Zurich, de quem me tornei amigo fraternal. Eu ia além disso a São Paulo uma vez por semana, assistir ao seminário do David Bohm, na USP, hospedando-me frequentemente na casa do Fernando Henrique Cardoso. No mesmo edifício morava o Mário Schönberg, o que motivava longas conversas noturnas. Isso me orientou cada vez mais para a física. Deixei o ITA por doença de meu pai e regressei a Belo Horizonte. Abriu-se então um concurso para professor catedrático de física no colégio municipal. Pouco depois foi criado em Belo Horizonte o Instituto de Pesquisas Radioativas [IPR] e fui convidado pelo professor Francisco Magalhães Gomes, organizador do órgão, para trabalhar no que eu desejava, a área nuclear.

O passo seguinte foi o doutoramento na Universidade de Cambridge.
Exatamente. Nessa época, foi organizado no Chile o primeiro curso latino-
-americano de química nuclear na Universidade de Concepción, patrocinado pela Universidade de Cambridge e pela Unesco. Ganhei a bolsa do CNPq para esse curso; fomos dois brasileiros apenas. Lá conheci Alfred Maddock, que me propôs fazer o doutorado em Cambridge e se tornaria meu orientador. Iniciei em 1956. A Universidade de Cambridge tinha sido o principal centro do desenvolvimento da ciência nuclear. Na minha época lá havia uns cinco ou seis prêmios Nobel. Os pesquisadores vinham do programa inglês de armamento nuclear e muitos haviam participado do projeto Manhattan americano. À época lecionavam lá vários cientistas como James Chadwick, descobridor do nêutron, e Otto Frisch, autor do primeiro modelo da fissão nuclear.

O que fez na volta ao Brasil?
Reassumi minha função no Instituto de Pesquisas Radioativas e na Faculdade de Filosofia, onde exercia interinamente a cátedra de físico-química e química superior, depois fui aprovado em concurso para provimento dessa cátedra. Empenhei-me em conseguir as condições materiais para o trabalho científico, o que era urgente. A partir dessa ocasião me relacionei fortemente com o Marcelo Damy e participei de numerosos grupos de trabalho criados na Cnen [Comissão Nacional de Energia Nuclear], presidida por ele. Fui designado membro da diretoria da Cnen e nessa função tornei-me suplente dele na Junta de Governadores da Agência Internacional de Energia Atômica, em Viena, onde integrei diversas comissões, duas das quais merecem referência: a que estabeleceu as regras de salvaguarda para orientar o controle por inspeção das atividades nucleares; e a que foi incumbida de proceder à normalização internacional dos dados nucleares, até então muito divergentes.

Por que o senhor foi exonerado da Cnen após o golpe de 64?
Naturalmente se recordavam de que eu tinha sido agitador estudantil; a revolução tinha uma memória longa. Como todas as revoluções… Fui submetido a uns três inquéritos policiais militares; meu laboratório foi invadido por destacamento do Exército. Fui exonerado “a pedido” da diretoria da Cnen, mas resolvi não sair do Brasil até que as coisas se esclarecessem, para evitar que fosse processado in absentia. Em 1964 fui convidado a ir para os Estados Unidos, para a Argentina, para a Holanda e para a França. Optei pela França, em particular para Grenoble, mas mantendo estreitas relações com o Instituto Nacional de Técnicas Nucleares, que funcionava em Saclay, perto de Paris. Fui para Grenoble porque um dos meus amigos da Agência Internacional de Energia Atômica [AIEA], Pierre Balligand, que fora seu diretor de reatores de potência, tornou-se diretor do Centro de Estudos Nucleares de Grenoble, conjuntamente com Louis Néel, prêmio Nobel de Física.

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