‘Inovação no Brasil ainda é medíocre’

Academia Brasileira de Ciências, em 18/05/2015

É possível e é necessário construir convergências entre pessoas e interesses a favor da inovação”. Com essa afirmação, o químico e Acadêmico Fernando Galembeck iniciou sua palestra sobre nanotecnologia e inovação, que aconteceu no segundo dia da Reunião Magna 2015 da Academia Brasileira de Ciências.Durante sua fala, o Acadêmico mostrou alguns aspectos que motivam pessoas à prática científica. A ciência desempenha um papel importante tanto na cultura quanto na educação das pessoas. Além disso, ela é estratégica, traz poder e contribui para a inovação.

A inovação, segundo Galembeck, se tornou um mantra em muitos países. Hoje, todos aqueles que pensam em desenvolvimento estão diretamente ligados à inovação.

“Estamos diante de grandes desafios e especialmente de um crescimento enorme da população global”, explicou o químico. “Em algumas décadas, chegaremos a 9 bilhões de pessoas, que querem viver mais e com mais qualidade de vida. Por outro lado, alguns modelos matemáticos mostram a possibilidade de um colapso no futuro próximo, devido à diminuição na disponibilidade de recursos naturais.”

Algumas implementações do modelo World3 – modelo de dinâmica de sistemas para simulação em computador de interações entre população, o crescimento industrial, a produção de alimentos e os limites dos ecossistemas da Terra – mostram que a produção industrial poderá atingir o pico em alguma década muito próxima, seguida de uma grande queda na oferta de bens e serviços para uma população maior que a atual.

Apesar dessas previsões preocupantes, Galembeck disse ser um otimista militante. Para ele, os cientistas têm uma grande responsabilidade, junto aos demais grupos da sociedade, no esforço para se conseguir, através da inovação, um caminho para evitar o anunciado colapso.
Cada pesquisador pode participar do processo de inovação criando novo conhecimento e novas soluções, adotando novas atitudes e cultivando uma nova prontidão para deixar de lado o que está superado e preservar aquilo que não pode ser extinto. No fim das contas, há inovação quando há um novo produto ou processo que gere resultado econômico. Sem isso, torna-se inviável atender às múltiplas e enormes necessidades da sociedade.

É preciso inovar mais

“Somos seguidores competentes, agora podemos copiar qualquer produto existente em nossa área. No entanto, devemos concentrar-nos na criação de novos produtos”. Citando a frase de Carmine Taralli, que foi diretor de pesquisa e desenvolvimento da Pirelli Cabos S.A, Galembeck explicou que produtos inovadores têm melhores resultados financeiros e são a ponte para o futuro. Os gestores lúcidos apoiam a criação e a inovação.
Em relação a esse aspecto, a posição do Brasil não é boa. Para o pesquisador, “o país existe graças à inovação, mas ela ainda é medíocre”. Se compararmos o investimento em pesquisa e desenvolvimento em relação ao PIB, o Brasil está na 38º posição, longe de países como Israel, Alemanha e França, como mostra a imagem abaixo.
O Acadêmico também explicou que, em relação à avaliação da inovação, existe uma armadilha que também ocorre em outras áreas: o uso que fazemos das estatísticas e dos indicadores.
“Não podemos confundir indicadores com fatos”, argumentou. “Indicadores são tentativas de se resumir fatos, de forma muito concisa. Com relação às patentes, no começo dos anos 2000, tornou-se muito comum uma comparação entre Brasil e Coreia do Sul, que concluía que o Brasil é pouco inovador porque deposita poucas patentes. Essa comparação ignorava, por exemplo, as muitas inovações que garantem ao agronegócio brasileiro uma posição de grande destaque global e que não envolveram patentes. A consequência não foi positiva: muitos pedidos de patentes passaram a ser depositados, mas sem serem acompanhados de outras ações necessárias para chegar à inovação.”
Mesmo com essa ressalva, Galembeck argumentou que “as patentes são essenciais, pois dão segurança jurídica ao investidor para que ele decida investir dinheiro em um desenvolvimento e enfrentar os riscos tecnológicos e econômicos”. Os requisitos de uma patente são: novidade, invenção e aplicabilidade” acrescentou Galembeck.
A novidade é garantida se a patente usar conhecimento novo, ciência nova resultante do trabalho de pesquisa. Já a invenção estabelece uma conexão entre o fato (propriedade, funcionalidade, comportamento) e a funcionalidade, exigindo que o pesquisador esteja conectado às necessidades práticas e enxergue as oportunidades que poderão ser criadas pelo que ainda não existe. A aplicabilidade, por sua vez, significa que um novo produto ou processo poderão vir a existir na prática, produzindo renda e empregos.

Ferramentas para a inovação

“Todo conhecimento acaba levando à inovação”, afirmou o pesquisador. Na conferência, ele destacou a nanotecnologia como sua principal ferramenta.
A nanotecnologia traz diversas oportunidades de fazer novos materiais, polifuncionais e de comportamento complexo. Isso é necessário porque os novos materiais viabilizam ideias. Na arquitetura, por exemplo, um novo filme plástico, o poli (etileno tetrafluoretileno – ETFE) vem produzindo uma revolução. Comparado ao vidro, o ETFE transmite mais luz, isola melhor, custa de 24% a 70% menos para instalar e é 99% mais leve.
Arena Pernambuco e Centro Nacional Aquático de Pequim
Considerado um “parente” do Teflon, o ETFE foi usado na Arena Pernambuco não só para revestir o estádio, mas também para criar efeitos de iluminação e decoração. O ETFE é chamado de material de construção “milagre”, pois é capaz de suportar cerca de 400 vezes o seu próprio peso, pode ser esticado até três vezes seu comprimento sem que haja perda de elasticidade, é autolimpante (devido à sua superfície não aderente), reciclável e pode durar cerca de 50 anos.
A nanotecnologia tem permitido que mesmo materiais notáveis como esse sejam transformados em outros novos materiais, com propriedades surpreendentes.
Desenvolvimento de nanotecnologia e inovação
Para o Acadêmico, o trabalho bem sucedido na área de nanotecnologia necessariamente envolve redes que conectam grandes e pequenas empresas, universidades e institutos de pesquisa.
“Os centros de competência alemães em nanotecnologia, criados em 2001, são bons exemplos de redes que reúnem todos os tipos de atores do processo de inovação”, comenta. De acordo com a avaliação feita no novo plano, em 2015, o Ministério da Educação e Pesquisa da República Federativa da Alemanha (BMBF, sigla em alemão) concluiu que esse país ocupa hoje a posição número um da Europa no campo de nanotecnologia. Além disso, as empresas orientadas para produtos da nanotecnologia também aumentaram claramente em número e melhoraram a sua reputação.
“Os Estados Unidos e a Europa têm, aproximadamente, o mesmo número de empresas relacionadas à nanotecnologia e cerca de metade das empresas de nanotecnologia na Europa são alemãs”, resumiu. “Isso mostra a importância de ter bons planos e, principalmente, de executá-los com competência.”
 “Uma reportagem especial sobre ciência de materiais no Brasil”
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No âmbito brasileiro, Galembeck comentou sobre o trabalho desenvolvido por ele e pela orientanda Márcia Rippel: a criação de um nanocompósito de borracha natural. A revista do Reino Unido Science Impact, em 2014, publicou uma matéria sobre o assunto. Na reportagem, o empresário que licenciou a patente do nanocompósito, Eduardo Figueiredo, diretor da Orbys – empresa que fornece matéria-prima utilizada em cilindros de borracha usados em processos industriais – afirmou que os clientes perceberam que o novo nanocompósito trouxe diversos benefícios. Entre eles, a redução significativa na histerese (tendência de um material ou sistema de conservar suas propriedades na ausência de um  estímulo que as gerou), melhoria da resistência química e melhor acabamento da superfície dos cilindros.
“Criação e patente não são suficientes. O resultado do trabalho só é positivo se o material for útil para a sociedade”, declarou Galembeck. O Acadêmico também mencionou o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) como um exemplo de “nó” importante em redes de inovação no país.
O CNPEM, localizado em Campinas, é uma organização social qualificada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que tem quatro laboratórios de classe global e abertos às comunidades científica e empresarial. Um deles é o Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano), que realiza pesquisas com materiais avançados, de grande potencial econômico para o país.
“O LNNano tem como um objetivo a criação e disseminação de produtos e processos com aplicação de nanotecnologia, para todos os setores econômicos”, comentou Galembeck. “Ele tem uma importante contribuição na prestação de serviços de alta complexidade tecnológica para usuários externos e empresas. O LNNano também executa projetos de P&D, criando, desenvolvendo, melhorando e aplicando materiais, junto com seus parceiros industriais e acadêmicos. Dessa forma, contribui para a inovação no Brasil.”
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