Iluminado pela própria natureza

Publicado em 02/08/2010

02/08/2010, Portal Neomundo

Numa edição que trata das alternativas de energia limpa, NEO MONDO foi buscar uma das maiores autoridades não só no tema do nosso Caderno Especial, mas também em assuntos de múltiplo interesse socioeconômico pela sua carreira caracterizada pela diversidade de atuação: da docência acadêmica a participações como conselheiro, passando pela gestão de instituições privadas e públicas.
Rogério Cezar de Cerqueira Leite é físico, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), membro do Conselho de Ciência e Tecnologia da Presidência da República, presidente do Conselho de Administração da ABTLuS (Associação Brasileira de Tecnologia de Luz Síncrotron) e membro do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo.
A ABTLuS administra o Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais, que congrega os quatro laboratórios nacionais (Síncrotron, Biociências, Nanotecnologia e Etanol). Cerqueira Leite tem participação importante no desenvolvimento da ciência, especialmente em São Paulo, por ser membro fundador da Academia Paulista de Ciências e atuar, durante 6 anos, como membro do Conselho Superior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Na qualidade de pesquisador, foi também presidente do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), de 1985 a 1997, onde ainda atua como presidente do Conselho de Administração.
Fazem parte de sua trajetória atividades como a presidência da Companhia de Desenvolvimento do Pólo de Alta Tecnologia de Campinas, a vice-presidência executiva da Companhia Paulista de Força e Luz, a participação em 1976, como consultor, da Conferência de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento, da Organização das Nações Unidas (ONU), e a participação em missões da Presidência da República do Brasil para acordos de cooperação internacional em tecnologia industrial.
Cerqueira Leite não deixou de lado nenhuma das questões levantadas e é ao mesmo tempo visceral e bem-humorado quando trata de assunto que é a bola da vez: a construção de Belo Monte. ” ‘Ignocentes’ veem a árvore, mas não percebem a floresta em que ela está inserida”, diz. Vale a pena ler a entrevista que gentilmente nos concedeu.
Neo Mondo: A saída para o Brasil é insistir na construção de hidrelétricas? Por quê? E em que medida esse tipo de usina pode acrescentar como alternativa de energia limpa?
Cerqueira Leite: No médio e longo prazo o problema ambiental fundamental será o do aquecimento global; todos os demais serão insignificantes perto deste. Isto, se não tomarmos providências sobre a emissão de gases do efeito estufa (GEE), e a hidrelétrica ainda é a opção que emite menor quantidade de CO2 e outros gases GEE. Principalmente a longo prazo, pois o tempo de vida de uma usina dessas é de mais de 100 anos.
É claro que outras opções, principalmente a eólica, podem ser adicionadas a sistemas em que não sejam majoritárias. Isto devido à baixa confiabilidade inerente ao regime de ventos.
Neo Mondo: Por que se investe tão pouco, no país, comparativamente, nas modalidades eólica e solar: Falta vontade política? Falta interesse do setor privado? Falta planejamento? Ou não compensa mesmo?
Cerqueira Leite: Investimentos em hidrelétricas são de retorno muito longo, e empresários brasileiros estão acostumados a recuperar seus capitais em poucos anos. Eis porque não são comuns investimentos privados em hidrelétricas no Brasil. A solução continua sendo investimento público, ou privado com empréstimos a baixos juros. Mesmo assim o empresário brasileiro tem outras opções de retorno rápido.
Neo Mondo: Como estão esses investimentos no mundo ou nos países em que há mais avanços? Há casos em que possamos nos espelhar e aplicar as soluções aqui?
Cerqueira Leite: Em outros países o setor financeiro não oferece retorno tão generoso como no Brasil e, por isso, o setor de energia tem alguma atratividade para o setor privado. Isto ocorre principalmente nos Estados Unidos, mas não na Europa, onde o setor público se ocupa da produção de energia.
Neo Mondo: Investir em energia significaria também contribuir para mitigar os efeitos do aquecimento global? Se sim, como? Ou uma coisa não tem a ver com a outra?
Cerqueira Leite: É claro que investir em eletricidade produzida por meio de combustíveis fósseis é o mais atraente do ponto de vista estritamente financeiro, principalmente porque o período de construção dessas usinas é muito menor, ensejando retornos mais rápidos. Todavia, se torna um atraso essa escolha devido à enorme emissão de GEE. Hoje, do ponto de vista financeiro e ecológico, a melhor opção para o Brasil ainda é a cogeração em usinas de álcool e açúcar. De fato, é um atraso que apenas um percentual muito baixo desse potencial já existente seja atualmente aproveitado.
Esse potencial poderá ser ele mesmo aumentado quando o Brasil vier a exportar álcool, o que terá uma dupla vantagem financeira e ecológica, pois a redução de emissão de GEEs que vier a ocorrer nos países importadores de álcool beneficiará igualmente o Brasil e o resto do planeta.
Neo Mondo: O senhor vê como positivas as iniciativas de grupos como a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), que estão avançados no aproveitamento do potencial que o setor sucroenergético possui?
Cerqueira Leite: Considero que as iniciativas do grupo Unica e outras têm sido eficientes para derrubar barreiras baseadas em falsas premissas que foram erguidas na Europa e em outras partes do universo. Embora o governo federal e alguns governos estaduais tenham feito algum esforço no mesmo sentido, o resultado é muito inferior àqueles dos setores sucroalcooleiros.
Neo Mondo: Como estamos no Brasil em relação a outros países em pesquisas, projetos e realizações para incrementar a oferta de energia limpa? O senhor pode citar exemplos bem-sucedidos ou pelo menos bem encaminhados?
Cerqueira Leite: O Brasil domina e está na dianteira quando se trata de tecnologias como as de hidrelétricas e de produção de álcool, mas está atrasado no que se refere a vários tipos de aproveitamento de energia solar e eólica. Também no que diz respeito a energia nuclear; apenas recentemente percebeu o Brasil que é necessário um esforço de pesquisa em ciência e tecnologia nuclear, e não a aquisição de pacotes fechados e reatores de grande porte. É um engano imperdoável achar que o Brasil terá alguma competência tecnológica em energia nuclear comprando mostrengos como Angra 3.
Se o Brasil tem hoje alguma competência no setor é porque, opondo-se, embora timidamente, a influências externas, desenvolveu seu próprio sistema de enriquecimento de urânio. Devido a interesses puramente financeiros o setor sucroalcooleiro desenvolveu com muita competência
a tecnologia de produção de açúcar e álcool de primeira geração. Isto ocorreu, sobretudo, devido à criação ousada do Centro de Pesquisa da Copersucar. Todavia, embora um pouco tardiamente, mas não tarde demais, o governo federal decidiu criar um centro de pesquisas dedicado principalmente à tecnologia do álcool de segunda geração, isto é, álcool produzido a partir da celulose, inclusive bagaço de palha de cana. Este esforço é concomitante aos que são realizados atualmente pela Petrobrás e pela Embrapa.
Neo Mondo: Belo Monte parece ser a bola da vez. O que há de mito e realidade na relação custo/benefício neste empreendimento?
Cerqueira Leite: Que carnaval estão fazendo ambientalistas e ecopalermas em torno da futura usina de Belo Monte, a ser implantada no médio Xingu, na Amazônia. Esse exército extemporâneo de Brancaleone é composto de conservacionistas de diversas espécies. Além de uma tribo de índios locais e de bem-intencionados, porém mal informados, estudantes e intelectuais, veem-se artistas de Hollywood e de outras culturas, malabaristas, fanfarrões e pseudointelectuais.
Será que esses senhores deixaram de comprar móveis de mogno, ou se manifestaram perante seus governos, ou boicotaram a carne e a soja produzidas na Amazônia? Será que percebem que a área alagada pelo projeto Belo Monte corresponde a tão-somente 0,01% da Amazônia brasileira e que bastaria 0,025% do rebanho nacional de gado para invadi-la, dentro da média atual de ocupação? Ou seja, da maneira como está planejada, Belo Monte, usina de fio d’água, não há no Brasil melhor opção do ponto de vista de sustentabilidade, que combine condições ecológicas e também financeiras. Que bênção seria se tivéssemos mais uma meia dúzia de Belo Monte!
Neo Mondo: Como assim, professor. Só há benefícios?
Cerqueira Leite: Os mais inteligentes e bem-intencionados “ignocentes” (neologismo composto por 50% de inocência + 50% de ignorância) dirão: e a biodiversidade? Ora, qualquer espécie que esteja espontaneamente restrita a um território de 500 km2, excetuando-se algumas confinadas a pequenas ilhas,
já está em extinção. Só um ignorante pode pensar em perda de biodiversidade nessas circunstâncias. E é claro que muitos espécimes vão sucumbir, milhares, se não milhões de formigas, carunchos e talvez até alguns mamíferos. Em compensação, 20 milhões de brasileiros poderão ter luz em suas casas, muitos outros locais passarão a ter benefícios do progresso, poderão ver pela TV o Programa do Ratinho.
Indústrias geradoras de emprego serão implantadas. É isso que os “ignocentes” não percebem. Eles veem a árvore, mas não percebem a floresta onde ela está inserida, sem a qual não pode a árvore sobreviver. Quanto à questão social, é preciso lembrar que o caso de Belo Monte é muito diferente do de Três Gargantas, na China, onde a densidade da população ribeirinha era extremamente elevada. O governo chinês admite que precisou realocar 1 milhão de habitantes; outras organizações falam em 2 e até 3 milhões.
Neo Mondo: A seu ver, como está a convivência e até mesmo a parceria entre órgãos públicos, como o Ministério das Minas e Energia e seus derivados ou equivalentes nos estados e municípios, com o setor privado, ONGs, sociedade em geral?
Cerqueira Leite: Em casos como esse, em que uma nova oportunidade surge, a ansiedade inicial causa algumas diferenças de opinião; por exemplo, certo
constrangimento entre o setor público e o privado ocorreu no que diz respeito à tecnologia do álcool, o que é uma pena, pois o objetivo do setor público é apenas desenvolver tecnologias que sejam aproveitadas pelo setor privado.
A mesma falta de entendimento existe entre órgãos do próprio governo federal e entre estes e alguns dos órgãos estaduais. Parece ser uma questão apenas de disputa de espaços. É uma pena. Todavia, essa competição vem aos poucos se amenizando graças a intervenções do Ministério de Ciência e Tecnologia.
Neo Mondo: O que tem de ser feito para o Meio Ambiente tornar-se matéria obrigatória nas escolas em todos os níveis, seja nas particulares seja nas públicas?
Cerqueira Leite: Algumas escolas secundárias têm introduzido a questão ecológica em seus cursos. Obviamente só haverá disciplinas específicas com a conscientização da questão ambiental em diversos setores da sociedade, inclusive governos estaduais, ministérios e a sociedade como um todo.
Neo Mondo: O senhor participa de instituições de relevância no cenário nacional. Seria possível resumir o que cada uma delas faz de significativo na questão energético-ambiental? É possível apresentar para nossos leitores os resultados mais expressivos?
Cerqueira Leite: A questão da sustentabilidade está-se tornando um problema de toda a sociedade, e creio que cada uma das organizações em que atuo, como o Conselho de Ciência e Tecnologia, órgão da Presidência da Republica, tem-se mostrado sensível à questão. O problema atual é que ambientalistas apaixonados com seu extremismo dogmático e pseudocientífico tornam difícil uma conscientização racional dos problemas do meio ambiente. Isto é natural em todo o início de revolução cultural, mas já é tempo de ambientalistas, cientistas e governos se fazerem entender.
Neo Mondo: No caso da mídia, em recente evento internacional, em Manaus, ela foi cobrada por não fazer da questão ambiental uma bandeira, em vez de tratá-la apenas como notícia. O que o senhor acha disso?
Cerqueira Leite: É claro que todo mundo acha que é o outro o culpado pelos problemas ambientais. A imprensa não é mais culpada do que qualquer outro setor.
Durante cinco ou seis anos mantive uma coluna da Folha de S. Paulo denominada “O todo e a parte” e não tive muito sucesso. O amadurecimento em relação à questão ambiental está-se acelerando nestes últimos anos, principalmente na Europa.
Acredito que no Brasil isso ocorrerá tanto mais cedo quanto a sociedade vier a perceber os exageros de suas militâncias. Se um jornal nesse momento fizer uma campanha de esclarecimento, ela não deve ser excessivamente contundente. A capacidade de absorção pela população quando se trata de problemas de longo prazo é também lenta. Não devemos esperar milagres.
Neo Mondo: O que cabe a cada um de nós fazer para termos melhor qualidade de vida, a partir dos cuidados socioambientais: o indivíduo, a família, a escola, as ONGs, as empresas, as instituições acadêmico-científicas?
Cerqueira Leite: Hoje creio que ninguém mais defende o desmatamento. Ele ocorre já no âmbito da marginalidade. Mas devemos lembrar que qualidade de vida não melhora sem uma melhor distribuição de renda no país, sem melhores salários, sem empregos; e esta será consequência de melhorias na educação, no saneamento básico e na infraestrutura. A questão ambiental virá como consequência dessas outras melhorias.
Neo Mondo: Obrigado pela entrevista. Fique à vontade para deixar seu recado para os leitores de NEO MONDO.
Cerqueira Leite: A questão da biodiversidade está-se tornando uma religião e não mais um tema de natureza cientifica. Ambientalistas e até mesmo cientistas vêm defendendo a Amazônia devido ao valor financeiro de suas riquezas bioquímicas, de sua biodiversidade, o
que é uma reversão histórica. A farmácia até 1950 teve de fato como fonte de seus produtos e de conhecimento a natureza. Hoje, dentre as várias dezenas de milhares de fármacos, apenas um é extraído da natureza. O extrativismo foi a forma inicial de que se valeu a humanidade para sua sobrevivência em seus primórdios; depois vieram a agricultura, a revolução industrial, a informática etc. O homem usa hoje a sua inteligência para criar moléculas para toda e qualquer finalidade. Colocar as esperanças do desenvolvimento do Brasil em extrativismo, em biodiversidade é um retrocesso inaceitável para um país moderno.
Devemos lutar contra o desmatamento da Amazônia e de outras áreas que devem ser preservadas, principalmente devido ao fato de que contêm elas o carbono que pode vir a ser um desastre para a humanidade, pois a quantidade de CO2² que seria produzida com a destruição da Amazônia é equivalente àquela devida a todo petróleo que já foi utilizado, mais aquele que ainda resta nas reservas conhecidas. Temos que mantê-la também devido à sua influência no regime de chuvas, essencial para nossa economia. Devemos ainda manter a Amazônia porque é parte integrante da identidade nacional.
Link da matéria:
http://www.neomondo.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=649:iluminado-pela-propria-natureza&catid=55:perfil&Itemid=58

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