Entrevista: Michal Gartenkraut

Publicado em 27/07/2009

07/2009 – Informe ABIPTI

Em entrevista ao Informe ABIPTI, o novo diretor geral da ABTLuS, Michal Gartenkraut, fala sobre as prioridades da sua gestão. Uma delas será a busca de modelos alternativos de financiamentos que garantam à associação realizar os investimentos necessários para atender as novas e crescentes exigências oriundas dos setores acadêmico e produtivo. “É necessário encontrar outros mecanismos, além dos contrato de gestão e dos apoios obtidos em agências de fomento à pesquisa”, afirma. Confira, a seguir, a entrevista na íntegra.

Quais serão as suas prioridades como diretor da ABTLuS?
Em meu discurso de posse sinalizei alguns pontos que julgo relevantes, a saber: a ABTLuS é agora responsável por gerenciar três laboratórios nacionais, o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), o Centro de Biologia Molecular Estrutural (CEBiMe) e o Centro de Tecnologia e Ciência do Bioetanol (CTBE).

O LNLS é o mais conhecido, tem uma história própria que já remonta há 20 anos. O CEBiMe existe há oito anos e embora criado já com escopo de centro autônomo, integrava a estrutura organizacional do LNLS. Agora, com o estatuto que entrou em vigor ao final de 2008, passa a ser, de fato, um centro associado.

O CTBE está em fase de implantação, com a formação da equipe técnico-científica e a construção de um prédio apropriado. Isto exige, de imediato, um rearranjo da estrutura organizacional e dos processos de gestão capazes de possibilitar a operação integrada desses centros associados, sem perder uma norma perene na ABTLuS, a de otimizar recursos em benefício do atendimento à missão que lhe dá vida, ou seja, fornecer infra-estrutura de classe mundial para que cientistas, do Brasil e do exterior, possam realizar pesquisas competitivas.

Há, também, o projeto de desenvolvimento de uma nova fonte de luz síncrotron, com parâmetros capazes de fornecer fótons ainda melhores do que a atual. Como conseqüência, serão criadas novas condições para expandir a competência científica e tecnológica do Brasil. O projeto, iniciado na gestão anterior da ABTLuS, já tem o aval do Ministério da Ciência e Tecnologia.

As demandas por uma nova máquina síncrotron são fruto de um crescimento da comunidade de pesquisadores-usuários, em termos qualitativos e quantitativos, e representam, em certa medida, um claro sinal de que os benefícios decorrentes do projeto original que motivou a criação do LNLS incluem também a formação de pesquisadores cada vez mais competitivos.

Será também prioritária em minha gestão a busca de modelos alternativos de financiamentos que garantam à ABTLuS realizar investimentos necessários para atender as novas e crescentes exigências oriundas dos setores acadêmico e produtivo. É necessário encontrar outros mecanismos, além do contrato de gestão e dos apoios obtidos em agências de fomento à pesquisa.

Em sua opinião, qual é a importância do complexo ABTLuS para o desenvolvimento científico e tecnológico do país?
Pode-se afirmar que os laboratórios que integram a ABTLuS têm significativo papel no desenvolvimento científico que o Brasil está experimentando, em especial nos últimos dez anos. Em áreas específicas da física, da biologia, da ciência de materiais e da nanociência e nanotecnologia, a presença do país se tornou mais relevante no contexto mundial sem dúvida graças à existência do LNLS. Áreas de conhecimento que tinham produção reduzida foram impulsionadas e pesquisadores que não tinham condições de realizar determinados experimentos no Brasil começaram a fazê-lo aqui, com o uso de equipamentos científicos somente disponíveis no complexo de laboratórios gerenciados pela ABTLuS.

Temos que avançar mais e rapidamente no processo de interação com o setor industrial, com o qual já há alguns contratos em andamento. Em um mundo cada vez mais voraz por inovação, no complexo de laboratórios geridos pela ABTLuS, com recursos humanos altamente qualificados, as indústrias poderão obter resultados vitais para crescimento e modernização.

Como tem sido o processo de produção do conhecimento nas unidades da ABTLuS?
Os laboratórios operados pela ABTLuS são abertos a usuários externos, criando condições para que se desenvolva pesquisa avançada que, de outro modo, não ocorreria. Portanto, o conhecimento é produzido, em grande parte, por grupos científicos externos, oriundos de universidades e outros centros de pesquisa, localizados em 15 Estados brasileiros, bem como do exterior. Assim, expande-se a possibilidade de realização de pesquisas por grupos científicos fora das regiões tradicionais. Ressalvadas as pesquisas fechadas, de interesse específico de indústrias, realizadas mediante contratos específicos, todas as demais são abertas e os resultados são publicados em periódicos especializados, no Brasil e no exterior, permitindo-se o compartilhamento do conhecimento obtido.

Qual será o orçamento da instituição neste ano e onde esses recursos serão investidos?
O orçamento global da ABTLuS em 2009 gira em torno de R$ 80 milhões. Aí estão incluídos recursos advindos do MCT por conta do Contrato de Gestão para a operação do LNLS, do CeBiME e da implantação do CTBE e recursos que são obtidos em agências de fomento, mediante projetos específicos a elas submetidos. Esperamos que o orçamento seja crescente nos próximos anos, para que a ABTLuS possa corresponder às aspirações expressas em seu Plano Diretor, alinhado às prioridades nacionais em CT&I, expressos no Plano de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Nacional (Pacti 2007-2010).

Quais são os principais desafios da instituição?
Viabilizar a implantação da nova estrutura da ABTLuS, que doravante passa a gerir um Parque Integrado de Laboratórios Nacionais, continuando a atender melhor a comunidade acadêmica, do Brasil e do exterior, que demanda infra-estrutura de alto desempenho para realizar experimentos científicos relevantes.

Além disso, ampliar a capacidade instalada de estações experimentais na fonte de luz síncrotron e, ao mesmo tempo, mobilizar recursos para o desenvolvimento do projeto da nova fonte brasileira de luz síncrotron. Outros desafios são buscar alternativas adicionais de provimento de recursos financeiros, para atender a novas e crescentes demandas; expandir a interação com áreas do setor industrial; e ter condições para manter um corpo técnico-científico-administrativo altamente qualificado, capaz de corresponder aos anseios dos que utilizam os laboratórios operados pela ABTLuS. Tudo isto são desafios permanentes, aos quais dedicaremos atenção durante o mandato iniciado em 13 de maio.

O senhor poderia avaliar a importância de uma instituição como a ABIPTI no cenário da C&T do país?
Por meio de suas ações contínuas e projetos, a ABIPTI tem contribuído para colocar a ciência, a tecnologia e a inovação na agenda político-institucional do país, tarefa importante e necessária. O trabalho missionário da ABIPTI contribui para ampliar, junto aos que tomam decisões, a percepção de que um país economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente equilibrado requer uma forte base científica e tecnológica, aliada a uma sólida base de educação. Nesta fase em que buscará maior interação com as indústrias, a ABTLuS pretende incrementar sua interação com a ABIPTI, buscando subsídios em mecanismos e ações sugeridas pela associação.

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