Desvendando o inimigo

Publicado em 10/09/2011

Um grupo de pesquisadores do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio) está empenhado em compreender melhor o mecanismo de ação da bactéria Xanthomonas citri, causadora do cancro cítrico, uma das principais doenças que afetam a produção de laranja no Brasil, país líder mundial na exportação de suco concentrado. Ao desvendar como o micro-organismo age, os cientistas esperam desenvolver soluções que possam levar à cura da planta contaminada ou pelo menos amenizar os sintomas causados pelo patógeno. De acordo com dados do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), entidade que representa os citricultores, de janeiro a outubro de 2008 foram erradicados do Estado de São Paulo, maior produtor brasileiro, e ao sul do Triângulo Mineiro 165.397 pés de laranja em talhões e 49.753 em pomares domésticos por causa do ataque do cancro cítrico.

Um dos estudos em torno do tema foi realizado pela bióloga Mariane Noronha Domingues, que defendeu recentemente tese de doutorado no curso de pós-graduação em Biologia Funcional e Molecular do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, sob orientação do professor Celso Eduardo Benedetti. A pesquisadora concentrou sua investigação na ação da proteína conhecida como PthA, usada pela bactéria para promover o surgimento dos sintomas da doença, que são a hipertrofia e hiperplasia (aumento do tamanho e do número de células da planta).

Para entender melhor esse processo, Mariane identificou e caracterizou interações entre essa proteína e as proteínas da laranja. “O que foi possível verificar é que, uma vez dentro das células, essa proteína manipula a expressão dos genes da planta. Dito de forma simplificada, ela usa a seu favor as funções que ajudariam no desenvolvimento da planta”, explica. A compreensão desse aspecto, conforme a autora da tese, representa mais um passo em direção à possível definição de métodos que anulem ou atenuem a ação da bactéria. “Outras pesquisas estão sendo desenvolvidas pelo grupo do LNBio, para que continuemos ampliando nosso conhecimento em torno do tema. Atualmente, o cancro cítrico não tem cura. Quando ocorre a contaminação, as plantas de laranja infectadas devem ser erradicadas”, diz.

A pesquisadora informa que o avanço do cancro cítrico ocorre de forma muito rápida. A bactéria pode ser disseminada pelo vento, pela chuva, pelo homem através de podas com ferramentas contaminadas pelo micro-organismo e até por insetos herbívoros. A bactéria penetra nos tecidos da planta através de aberturas naturais, como os estômatos, ou de pequenos ferimentos nas folhas, frutos e ramos. “Inicialmente, surgem pústulas nas folhas, caules e frutos. Conforme a infecção vai aumentando, as pústulas se tornam elevadas, feito bolhas. Os quadros mais graves podem levar à desfolha e até mesmo ao caimento prematuro dos frutos”, detalha Mariane.

Embora não haja notícia de que a bactéria cause algum problema ao homem, para a citricultura ela é terrível, como observa a pesquisadora. Além de comprometer a safra de laranja, a doença também representa um sério empecilho às exportações. Alguns países compradores de suco concentrado brasileiro, como os da Europa, impõem severas barreiras fitossanitárias ao produto justamente por causa da presença do cancro cítrico nos nossos pomares.

Segundo a bióloga, que contou com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), há vários anos a doença representa um sério problema para a citricultura nacional, mas a situação se agravou a partir de 2009, quando a Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo resolveu abrandar as medidas de fitossanidade relativas ao cancro cítrico. A resolução SAA-43 determinou que os produtores paulistas passassem a seguir a portaria 291 do Ministério da Agricultura, publicada dez anos antes. Com a alteração, os produtores foram isentos da necessidade de erradicar o talhão caso a contaminação ultrapassasse um limiar de 0,5% de plantas infectadas. Antes, o procedimento era remover os talhões que apresentassem incidência de cancro cítrico superior a 0,5%. Para incidências iguais ou inferiores a 0,5%, eram eliminadas as plantas doentes e as demais inseridas em um raio de 30 metros. A medida continua em vigor.

Assim que a legislação foi mudada, a Fundecitrus se posicionou contra a iniciativa, por considerá-la um retrocesso. O pesquisador da entidade, José Belasque Júnior, avaliou que medidas mais drásticas na erradicação de plantas com cancro cítrico, baseadas em pesquisas científicas, é que permitiram ao longo do tempo o controle eficaz da doença. “Com a volta de uma legislação menos rígida, plantas doentes permanecerão nos talhões, resultando na disseminação do cancro cítrico para as demais árvores e pomares vizinhos”, afirmou em dada ocasião.

Na mesma linha, o presidente da Fundecitrus, Lourival Carmo Monaco, argumentou que o risco de aumento dos índices do cancro cítrico, a exemplo de outros países e estados brasileiros, seria iminente por causa da mudança. “O provável aumento do cancro cítrico em São Paulo implicará na necessidade de mais equipes de inspeção de campo e combate químico que acarretará em mais custos para os produtores”, previu. De acordo com a Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), apenas no âmbito nacional a cadeia citrícola movimenta anualmente cerca de US$ 15 bilhões , gerando 230 mil empregos.

Tese: “Caracterização de proteínas de Citrus sinensis que interagem com a proteína efetora PthA, indutora do cancro cítrico”
Autora: Mariane Noronha
Orientação: Celso Eduardo Benedetti
Unidade: Instituto de Biologia (IB)

Artigo

DOMINGUES, MARIANE NORONHA ; DE SOUZA, TIAGO ANTONIO ; CERNADAS, RAÚL ANDRÉS ; DE OLIVEIRA, MARIA LUIZA PEIXOTO ; DOCENA, CÁSSIA; FARAH, CHUCK SHAKER ; BENEDETTI, CELSO EDUARDO . The Xanthomonas citri effector protein PthA interacts with citrus proteins involved in nuclear transport, protein folding and ubiquitination associated with DNA repair. Molecular Plant Pathology, v. 11, p. 663-675, 2010.

Veja a matéria com fotos no Jornal da Unicamp

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