A solução contra o coronavírus pode estar nas prateleiras?

Publicado em 21/03/2020
Assessoria de Comunicação em 21/03/2020

Na corrida contra o COVID-19, o CNPEM busca moléculas capazes de impedir a replicação do vírus em drogas já comercializadas

teste de medicamento de prateleira [majoritariamente azul] no corona vírus [roxo]

Em primeiro plano [majoritariamente azul], composto ativo de medicamento já disponível nas farmácias para outra finalidade interage com proteína fundamental para o ciclo de vida do corona vírus [em tons de roxo]

Buscar moléculas ativas contra o coronavírus entre medicamentos que já estão no mercado é um dos principais esforços do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), no âmbito da Rede Vírus MCTIC– iniciativa promovida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

Por meio de ferramentas avançadas de biologia computacional e inteligência artificial, os pesquisadores do CNPEM têm avaliado os cerca de 2.000 fármacos já aprovados, já conhecidos e comercializados. As análises indicam se essas substâncias são capazes de se ligar ao vírus, em lugares específicos, capazes de bloquear a replicação viral.

“Diante do cenário de pandemia, a busca por moléculas em medicamentos já autorizados é estratégica. Ao olharmos para substâncias já avaliadas como seguras, podemos chegar aos testes clínicos, com pacientes humanos, em um intervalo de tempo reduzido, se comparado ao processo normal de descoberta de fármacos”, explica Rafael Elias Marques, especialista em virologia do CNPEM.

O CNPEM já avaliou os cerca de 2.000 fármacos já aprovados contra o COVID-19. Deste universo de substâncias já conhecidas, 5 foram consideradas como promissoras e seguem em testes com células infectadas com o vírus. Essa pré-seleção reúne drogas como analgésicos, anti-hipertensivos, antibióticos, diuréticos e outros

Solução estaria no medicamento contra a Malária?

A mobilização mundial contra o coronavírus tem apontado efeitos positivos de remédio droga já empregado no combate à malária para tratar a infecção viral. Esses resultados positivos, já extremamente relevantes, podem ser potencializados pelos esforços dos pesquisadores brasileiros. Isso porque no combate às infecções virais, as terapias mais efetivas reúnem mais de um composto ativo para vencer as frequentes mutações do vírus. Ou seja, é preciso um arsenal terapêutico, capaz de inibir diferentes alvos virais, como acontece no coquetel utilizado contra o HIV. Esta estratégia está sendo adotada pelos pesquisadores do CNPEM nas pesquisas em combate ao COVID-19.

Chave-fechadura

O material genético do coronavírus encontra-se no interior do capsídeo, um invólucro de natureza proteica, contido, por sua vez, em um envelope constituído por três proteínas estruturais, dentre as quais a proteína spike, envolvida na entrada do vírus na célula hospedeira e que dá a aparência de coroa ao vírus. O coronavírus também produz enzimas acessórias que são essenciais para o seu ciclo de vida e que, portanto, são alvos potenciais para a ação de fármacos com efeitos antivirais.

No CNPEM, os pesquisadores, estão trabalhando na procura de inibidores de pelo menos quatro proteínas do coronavírus, incluindo enzimas acessórias e proteínas estruturais. Em testes computacionais, que utilizam dados atômicos da estrutura e ação das proteínas, combinados com o uso de ferramentas de inteligência artificial, os pesquisadores testam a interação de moléculas disponíveis nas farmácias com essas proteínas-alvo para pré-selecionar aquelas que se mostram promissoras em interferir na infecção.

As moléculas selecionadas são então testadas em ensaios in vitro, para verificação de sua eficácia em eliminar a carga viral, embasando assim a reproposta de uso dos medicamentos já disponíveis.

Esforços do CNPEM também estão na determinação da estrutura das proteínas do coronavírus, formas ainda não conhecidas, e da própria organização da partícula viral. Isto é possível graças à infraestrutura estabelecida no CNPEM, a qual permite a produção dos alvos proteicos, determinação e o estudo de proteínas virais.

Trabalho contínuo

A rápida resposta do CNPEM à epidemia de corona vírus vale-se da expertise de seus pesquisadores em virologia, biologia computacional, estudos aprofundados de proteínas, dentre outras competências que precisam ser integradas para enfrentar grandes desafios. Além do time de especialistas altamente qualificados, o Centro mantém, com financiamento do MCTIC, infraestrutura e equipamentos de última geração, competitivos internacionalmente, para apoiar os avanços da pesquisa nacional. Em breve, esse arsenal ganhará um importante aliado, o Sirius – o novo acelerador de elétrons brasileiro. Projetado para ser uma das mais avançadas fontes de luz síncrotron do mundo e com recursos para lançar a outro patamar as pesquisas que utilizam estruturas moleculares, como é o caso da área de descoberta de fármacos, entre tantas outras.

 

Sobre o CNPEM

Ambiente de pesquisa e desenvolvimento sofisticado e efervescente, único no País e presente em poucos polos científicos no mundo, o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) é uma organização social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). O Centro opera quatro Laboratórios Nacionais e é berço do mais complexo projeto da ciência brasileira – o Sirius – uma das mais avançadas fontes de luz síncrotron do mundo. O CNPEM reúne equipes multitemáticas altamente especializadas, infraestruturas laboratoriais mundialmente competitivas e abertas à comunidade científica, linhas de pesquisa em áreas estratégicas, projetos inovadores em parcerias com o setor produtivo e ações de treinamento para pesquisadores e estudantes. O Centro constitui um ambiente movido pela busca de soluções com impacto nas áreas de saúde, energia, meio ambiente, novos materiais, entre outras.   As competências singulares e complementares presentes nos Laboratórios Nacionais do CNPEM impulsionam pesquisas e desenvolvimentos nas áreas de luz síncrotron; engenharia de aceleradores; descoberta de novos medicamentos, inclusive a partir de espécies vegetais da biodiversidade brasileira; mecanismos moleculares envolvidos no surgimento e na progressão do câncer, doenças cardíacas e do neurodesenvolvimento; nanopartículas funcionalizadas para combate de bactérias, vírus, câncer; novos sensores e dispositivos nanoestruturados para os setores de óleo e gás e saúde; soluções biotecnológicas para o desenvolvimento sustentável de biocombustíveis avançados, bioquímicos e biomateriais.

 

Sobre a Rede Vírus MCTIC

A Rede Vírus MCTIC, criada pela portaria MCTIC nº 1010/2020, funcionará como um comitê de assessoramento estratégico que irá atuar na articulação dos Laboratórios de Pesquisa, com foco na eficiência econômica e na otimização e complementaridade da infraestrutura e de atividades de pesquisa que estão em andamento, em especial com o coronavírus e influenza. Sendo assim, se pretende otimizar o conhecimento científico que está sendo produzido no país com relação a este tema e auxiliar a transformação deste conhecimento em resultados práticos para a sociedade.

Os principais objetivos do Rede Vírus MCTIC são auxiliar os ministérios na:

I – integração dos esforços de pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico em viroses emergentes;

II –definição de prioridades de pesquisa nesta área;

III – articulação de iniciativas de P,D&I em andamento e relacionadas às viroses emergentes, inicialmente com foco em coronavírus e influenza

IV – desenvolvimento de tecnologias para auxiliar o País no enfrentamento das viroses emergentes.

– Quem são os envolvidos nela? Outras universidades públicas participam da Rede?

O Comitê da Rede Vírus contará pesquisadores especialistas em viroses, além de representantes do Ministério da Saúde e das agências de fomento do MCTIC. Cabe ressaltar que o comitê da Rede Vírus prevê a participação de pesquisadores e entidade convidados, desta forma poderá receber contribuições de diversos pesquisadores e de diferentes áreas do conhecimento.

Os nomes ainda estão sendo confirmados, mas a Rede terá representantes da Fiocruz, Butantan, USP, Unicamp, UFMG, UFC, CNPEM/LNBio, UFRJ, entre outros.

– O MCTIC destinou ou irá destinar quanto de verba para novos estudos sobre esse assunto?

Sim, no momento o MCTIC está destinando uma verba inicial para os laboratórios realizarem a atividades iniciais tais como: cultivo do vírus em laboratório, sequenciamento, entre outras. Adicionalmente o Ministro Marcos Pontes enviou uma proposta de Medida Provisória para a Casa Civil para liberação emergencial de R$ 100 milhões do FNDCT. Este recurso , que aguarda a aprovação do Ministério da Economia, será aplicado em Redes de Pesquisa, INCTs e chamadas públicas via CNPq e Finep.