A concepção de uma universidade

Publicado em 05/10/2016

Revista Fapesp, 09/2016

Com senso prático e habilidade política, Zeferino Vaz foi o executor do projeto Unicamp

zeferino_unicampA lei que instituiu a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) foi assinada no final do governo de Carlos Alberto de Carvalho Pinto, em 28 de dezembro de 1962. Desde 1946 havia uma campanha em curso, iniciada pelo jornalista Luso Ventura, no Diário do Povo, e apoiada pelos moradores, por uma faculdade de medicina local. Existiam apenas duas cursos de formação de médicos na época, o da Universidade de São Paulo (USP) e a Escola Paulista de Medicina, ambos na capital. Em 1951, a USP abriu uma nova faculdade em Ribeirão Preto, cujo fundador e primeiro diretor foi o médico parasitologista Zeferino Vaz (1908-1981), natural de São Paulo. Zeferino foi o maior opositor da criação do curso em Campinas durante toda a década de 1950, alegando que as escolas de medicina não deviam ficar próximas umas das outras. A partir de  1965, no entanto, tornou-se a força motriz que planejou e erigiu o projeto da Unicamp, cuja primeira unidade foi a faculdade desejada pela cidade.

Pelo menos duas leis foram propostas e criadas entre 1953 e 1958 prevendo a criação da Faculdade de Medicina de Campinas, mas sem a necessária aprovação de recursos para sua instalação. Em 1961, Carvalho Pinto, também responsável pela criação da FAPESP, havia concluído que a reivindicação campineira não poderia mais ser postergada e instituiu uma comissão para estudar a instalação de um núcleo universitário na cidade. No final do ano seguinte o governador revogou todas as leis anteriores e criou a universidade, à qual foi incorporada a escola médica. Dessa vez não faltou verba e o curso começou a funcionar em 1963 provisoriamente na Maternidade de Campinas (ver reportagem). Apenas em 1965 foi criada a Comissão Organizadora da Unicamp, cujo presidente foi Zeferino Vaz.

Poucos meses antes da nomeação, Zeferino deu por encerrada uma experiência difícil como reitor da Universidade de Brasília (UnB), entre 1964 e 1965. A instituição havia sido atingida por embates com o regime militar então recém-instaurado e do qual o médico foi apoiador de primeira hora. A escolha para planejar a Unicamp tinha a ver com sua ampla experiência como gestor universitário – além da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, esteve envolvido diretamente na organização de escolas médicas em Botucatu e Santos. Havia também razões políticas, como o apoio e a confiança do então governador Adhemar de Barros.

Uma vez à frente do projeto, Zeferino declarou que faria uma universidade moderna e eficiente. Achou rapidamente o local para o campus: um canavial de 30 alqueires paulistas perto do distrito de Barão Geraldo, a 12 quilômetros do centro urbano de Campinas, de propriedade do banqueiro João Ademar de Almeida Prado. A gleba foi desapropriada pelo valor simbólico de 1 cruzeiro com a concordância do dono. No dia 5 de outubro de 1966 foi lançada a pedra fundamental do campus com a presença do presidente da República, general Humberto Castello Branco, e Laudo Natel, o governador que havia assumido no lugar de Adhemar, cassado pelos militares.

Montagem da universidade
A experiência na UnB foi curta, mas acabou sendo útil ao projeto da Unicamp por várias razões. A arquitetura da universidade brasiliense indicou a Zeferino o que ele não queria fazer. No relatório que apresentou ao governo do estado o futuro reitor dizia vislumbrar um campus com “edifícios sóbrios, sem fachadas imponentes e sem luxos de acabamento e de espaços construídos sem qualquer utilidade”. De acordo com o jornalista Eustáquio Gomes em seu livro O mandarim – História da infância da Unicamp (Editora Unicamp, 2006), Zeferino queria evitar prédios como o Instituto Central de Ciências da UnB, projetado por Oscar Niemeyer, com 720 metros (m) de comprimento, 60 m de largura, 120 mil metros quadrados de área construída e apenas 70 mil metros quadrados utilizáveis para laboratórios e salas.

Por outro lado, Zeferino mirou-se em alguns exemplo da UnB – originalmente um projeto inovador do educador Anísio Teixeira e do antropólogo Darcy Ribeiro – do que seria uma universidade com uma organização moderna. A nova instituição deveria “ser um organismo, e não uma colônia de organismos”. Os institutos a serem criados seriam um espelho da “interdependência e subordinação recíproca de todas as ciências” e não meramente unidades independentes.

A montagem da universidade começou pela contratação de professores que fossem, de preferência, também pesquisadores, algo inovador. Nos anos seguintes, o reitor conseguiu trazer cerca de 230 cientistas estrangeiros da Europa e Estados Unidos para dar aulas e pesquisar em Campinas, segundo entrevista concedida à revista Veja em 2 de fevereiro de 1978; outros 180 brasileiros que estavam em instituições do exterior foram trabalhar no campus de Barão Geraldo. O recrutamento de docentes e pesquisadores ocorreu igualmente no Brasil. A biologia era coordenada por Walter August Hadler, já docente da Faculdade de Medicina de Campinas, depois Faculdade de Ciências Médicas. Para o Instituto de Física, Zeferino chamou Marcello Damy de Souza Santos, um dos principais nomes da física nuclear da época. A organização do Instituto de Química foi feita pelo italiano Guiuseppe Cilento, pesquisador de prestígio internacional. As engenharias ficaram com o general da reserva e físico com doutorado na Universidade Stanford José Fonseca Valverde. O Instituto de Filosofia e Ciências Humanas começou a ser planejado pelo filósofo Fausto Castilho, que veio da Faculdade de Filosofia de Araraquara.

© ARQUIVO CENTRAL / SIARQ

Na primeira fila (da dir. para a esq.), Murillo Marques, Damy e Cerqueira Leite na homenagem a Gleb Wataghin em 1971: pioneiros

Na primeira fila (da dir. para a esq.), Murillo Marques, Damy e Cerqueira Leite na homenagem a Gleb Wataghin em 1971: pioneiros

Cursos inovadores
“A universidade foi estruturada inicialmente com os institutos de matemática, física, biologia e química. Os demais vieram um pouco depois”, lembra o matemático Rubens Murillo Marques, que foi para Campinas a convite de Zeferino, primeiro para ser professor de bioestatística na medicina, depois como diretor do Instituto de Matemática, hoje Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc), onde criou os cursos de estatística e ciências da computação. “Uma das boas contribuições da Unicamp para o ensino superior foi fundar cursos e faculdades inovadores”, afirma Marques. “Era a visão do Zeferino, que não achava inteligente oferecer aquilo que já estava presente em quase todas as cidades, como escolas de direito e pedagogia.” Atualmente presidente de honra da Fundação Carlos Chagas, em São Paulo, Marques propôs fazer as matrículas por disciplinas e a distribuição dos cursos por módulos semestrais, em vez de anuais, como na tradição das instituições norte-americanas. A Unicamp foi a primeira a adotar esse sistema no país.

O senso prático e a forte personalidade do reitor, segundo o matemático, provocavam admiração e ressentimentos. “Ele pegava as ideias no ar, decidia rapidamente e já as colocava em execução”, conta. “Mas era alguém que gostava de fazer valer sua própria opinião, nem sempre para o bem.” Marques lembra que Zeferino tinha trânsito fácil com políticos e militares. “Uma boa amostra disso é que ele conseguiu demitir o general Valverde, então diretor da Faculdade de Engenharia, quando entraram em rota de colisão.” Data da demissão: 31 de dezembro de 1969, em pleno recrudescimento da ditadura.

Para o linguista Carlos Vogt, na época em que a universidade começou a funcionar e nas circunstâncias em que tudo aconteceu, a Unicamp não teria sido possível sem Zeferino Vaz. “Ele é querido na Unicamp e detestado na UnB. É como se fossem duas figuras diferentes do ponto de vista da relação que teve com a universidade”, testemunha Vogt, reitor da Unicamp entre 1990 e 1994 e um dos responsáveis pela criação do Instituto de Estudos da Linguagem, o IEL (ver reportagem). “Essa imagem criou um mito em torno de Zeferino: ele seria comprometido com a direita, mas com uma visão aberta do ponto de vista da vida intelectual e acadêmica e, portanto, um homem esclarecido.”

Segundo o físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, um dos pesquisadores que vieram dos Estados Unidos para o Instituto de Física a convite de Zeferino, a habilidade política era uma característica forte do reitor, com quem entrou em choque não poucas vezes. “Ele sabia fazer concessões, convivia perfeitamente com todos e ajudava pessoas de esquerda, que tinham sido presas pelos militares”, conta Leite, atual diretor do Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais (Cnpem). “Ele era alguém necessário para aquele momento.” Cerqueira Leite conta que Zeferino valorizava a interação com a indústria, um dos marcos da Unicamp (ver reportagens nas páginas10 e 16). “O fato de o reitor aprovar e gostar dessa aproximação ajudou a induzir a atividade na época”, afirma o físico.

Durante os anos 1970, Zeferino enfrentou crises, uma parte delas em razão de seu longo período na reitoria. “Ele sempre foi reitor pro tempore, o que era conveniente para mantê-lo no comando porque não havia um mandato de quatro anos para expirar”, lembra Vogt, hoje presidente da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp). Zeferino deixou a reitoria em 1978, quando os 70 anos o obrigaram à aposentadoria compulsória, e passou a presidir a então recém-constituída Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp).

Plínio Alves de Moraes, professor da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP), unidade incorporada à Unicamp em 1967, foi nomeado reitor pelo governador Paulo Egydio (1975-1979) graças ao apoio de Zeferino. Foi uma gestão conturbada, com graves problemas econômicos, políticos e até uma intervenção na universidade, em 1981, determinada pelo governador Paulo Maluf. Em 1982 o médico José Aristodemo Pinotti assumiu a reitoria. “A partir daquele momento começou outra fase da universidade”, conclui Carlos Vogt.

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