Entrevista/Fernando Galembeck

Publicado em 06/05/2013

A Notícia, em 20/04/2013

O professor Fernando Galembeck é um dos maiores especialistas do Brasil em nanotecnologia. É diretor do Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano), uma das instalações que compõem o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), referência no tema. Para ele, é preciso ser criativo, mas também crítico em relação à nova tecnologia. A seguir, Galembeck analisa seus avanços e oportunidades.

A Notícia – O Brasil tem avançado nas pesquisas sobre nanotecnologia?

Fernando Galembeck – Existe bastante atividade de pesquisa no Brasil, incluindo parcerias com países avançados. Por exemplo, acaba de sair um artigo sobre a síntese de nanopartículas estruturadas que poderão ser úteis no diagnóstico de dengue, resultado de uma parceria Brasil-Alemanha e que ganhou a capa de uma revista inglesa publicada pela Royal Society of Chemistry. Por outro lado, em muitos casos, tem havido uma pulverização de esforços e recursos, que pode não levar a resultados importantes. Mas há bons exemplos de produtos e processos que chegaram ou estão chegando ao mercado.

AN – Quais setores são mais promissores?

Galembeck – A nanotecnologia está presente na maioria dos materiais desenvolvidos recentemente para todos os setores da indústria, agricultura e serviços. Também está presente em produtos que existem há muito tempo e que estão sendo melhorados. Um exemplo de aplicação são os compostos de borracha usados em pneus. Os setores de cosméticos, alimentos, automobilístico e de equipamentos de transporte têm sido especialmente ativos no aproveitamento. Não se fazem equipamentos eletrônicos miniaturizados sem usar semicondutores nanoestruturados.

AN – No Brasil, a nanotecnologia já se traduz em bons negócios?

Galembeck – Já provocou a criação de empresas e permitiu que empresas existentes aumentassem sua competitividade e criassem novos produtos.

AN – De que forma a nanotecnologia pode contribuir para aumentar a sustentabilidade dos produtos e dos processos das empresas?

Galembeck – A pesquisa sobre aproveitamento da biomassa, com estudos de nanoestruturas, é um bom exemplo. Hoje é possível criar novos processos de produção de nanocompósitos para atender às necessidades de empresas de muitos setores industriais e, cada vez mais, novas demandas surgem. Destaco o grande desafio de compreender as estruturas de materiais, como o bagaço de cana e outros resíduos agrícolas, para maximizar os benefícios do seu aproveitamento como matérias-primas para produção de etanol, por exemplo. As várias nanotecnologias são necessárias para que se consiga fazer a transição para uma economia sustentável, baseada em matérias-primas de fontes renováveis.

AN – Quais os principais riscos da nanotecnologia?

Galembeck – Riscos ambientais e toxicológicos sempre podem estar presentes e é preciso considerá-los desde os primeiros momentos. Espero que as empresas e pesquisadores tenham aprendido com os problemas causados pela energia nuclear, pelo amianto e outras tecnologias, para serem criativos, mas, também, críticos.

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