Sirius nasce com status de estrela científica internacional e luta por verbas

Publicado em 03/08/2017

G1, 28 de julho de 2017

A última reportagem da série sobre o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron mostra por qual motivo o Sirius, o novo acelerador de partículas do Brasil, é aguardado com ansiedade por cientistas de todo o mundo

O orçamento para o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações neste ano teve um corte de 40%, afetando os principais projetos científicos brasileiros. A verba para as obras do Sirius, o novo acelerador de partículas do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron construído em Campinas e que pode revolucionar a pesquisa brasileira e internacional (orçado em R$ 1,5 bilhão), entretanto, foi mantida. Nele, uma pesquisa que atualmente é feita em 10 horas nos equipamentos mais avançados do mundo poderá ser concluída em 10 segundos.

O Sirius foi preservado porque já estava em fase adiantada de execução e, segundo o ministro de Ciência e Tecnologia, Gilberto Kassab, pela seriedade do Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM), que desenvolve o projeto. Além disso, o equipamento é aguardado com expectativa pela comunidade científica internacional (veja no final deste texto os números do Sirius e suas principais linhas de pesquisa). A paralisação das obras neste momento causaria estragos na imagem do país no exterior.

Em visita ao CNPEM no dia 7 de julho, o ministro Gilberto Kassab disse que esse foi o único grande projeto em todos os ministérios que teve suas verbas preservadas. Mas desde o ano passado, com o afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff, o setor de ciência vive incertezas. Muitos projetos foram cortados, o programa Ciência sem Fronteiras para graduação acabou e cientistas começaram a deixar o Brasil.

O diretor do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron ( LNLS), Antonio José Roque da Silva, trabalha contra a crise econômica que atinge o país e as contas governamentais. A verba para as obras do acelerador foram preservadas, mas custos operacionais do centro tiveram cortes de 40%. Para manter as atividades, o LNLS interrompeu quatro das 18 linhas do LNLS para economizar.

“Esse é um problema de ser uma OS (Organização Social), quando há cortes do gênero, isso afeta até os salários. Nos órgãos de governo, os salários são preservados. Por isso, se os cortes persistirem no próximo ano, poderá haver redução de pessoal”, diz o diretor-geral do CNPEM, Rogério Cezar de Cerqueira Leite.

Cronograma expandido

Para garantir o cronograma, Silva negociou com a construtora da gigantesca obra, de 68 mil m² em um terreno de 150 mil m², a ampliação da divisão de construção de sete para 13 fases. Isso permitiu que as obras não parassem, pois cada montante liberado permitia que uma nova fase fosse concluída.

O diretor do LNLS, Antonio José Roque da Silva, mudou cronograma para manter obras (Foto: Divulgação/CNPEM)O diretor do LNLS, Antonio José Roque da Silva, mudou cronograma para manter obras (Foto: Divulgação/CNPEM)

O diretor do LNLS, Antonio José Roque da Silva, mudou cronograma para manter obras (Foto: Divulgação/CNPEM)

Com isso, foi mantido o prazo de junho de 2018 para o início de suas atividades. Primeiro serão abertas cinco linhas de luz e posteriormente outras oito, todas elas com nomes de árvores, pássaros ou animais. A capacidade total de funcionamento é de 40 linhas de luz.

O Sirius e o MAX-IV, construído na Suécia, serão os únicos do mundo da 4ª geração de luz síncrotron. Ele foi projetado para ter o maior brilho do mundo entre as fontes com sua faixa de energia. Isso permitirá muito mais precisão, rapidez e capacidade de analisar diferentes materiais, o que está gerando expectativas entre cientistas.

Harry Westfahl Junior, que é responsável pela Linha de Luz IMX dedicada a técnicas de Tomografia de Raios-x da fonte de luz síncrotron UVX do LNLS, também participa do projeto da Linha Mogno na nova fonte de luz síncrotron Sirius.

Ele explica algumas diferenças entre as duas luzes. No UVX, o raio X consegue penetrar 1 mm em um material como o ferro, enquanto no Sirius essa penetração pode chegar a dois centímetros.

E a rapidez do Sirius também é muito maior que os melhores equipamentos do mundo. Atualmente, uma tomografia de célula em 3D demora 10 horas para ser feita nos equipamento de última geração. No Sirius, o mesmo procedimento vai durar 10 segundos.

A análise de células de plantas e animais feita em 75 minutos vai durar um segundo no Sirius com o dobro da resolução. Pesquisas que antes precisam ser feitas no exterior, a partir do ano que vem poderão ser feitas no Brasil. Mais do que isso, muitos pesquisadores do mundo inteiro devem procurar o Sirius para viabilizar suas pesquisas.

Equipamentos

Para chegar nesse nível de qualidade, os pesquisadores do CNPEM precisaram desenvolver equipamentos que não existiam no mesmo padrão em nenhum outro laboratório. O monocromador, por exemplo, já chama curiosidade de pesquisadores de diversos países.

Esse aparelho faz a separação da linha de luz depois que ela sai do acelerador em diferentes faixas, sendo que cada uma é utilizada para uma finalidade distinta de pesquisa. O monocromador do Sirius quebrou o recorde mundial de estabilidade e foi desenvolvido em parceria com uma empresa holandesa.

De todo equipamento utilizado no Sirius, cerca de 85% são de fabricação nacional. As parcerias com empresas nacionais permitiu o desenvolvimento de tecnologia. A Weg, especializada na fabricação de motores, investiu para desenvolver os ímãs que serão usados no equipamento sem utilizar usinagem, o que o torna muito mais barato e não altera o material utilizado.

Linhas de pesquisa

Essas qualidade da luz do novo acelerador permitirão pesquisadores desenvolverem tecnologias em áreas consideradas estratégicas no CNPEM.

Maquete virtual do Sirius (Foto: Divulgação/ LNLS)

Maquete virtual do Sirius (Foto: Divulgação/ LNLS)

Na área de saúde, uma delas é o estudo do cérebro humano, o que permitirá desenvolver tratamentos e medicamentos para doenças como Alzheimer, Parkinson e outras doenças degenerativas. Também poderá melhorar o diagnóstico por imagens, a eficácia de medicamentos e decifrar estruturas virais para desenvolvimento de vacinas.

Na área de energia, um dos pontos altos deverá ser o desenvolvimento de baterias com maior duração, menor custo, menores e mais seguras. Isso permitirá uma revolução na área energética, com o aproveitamento de diferentes fontes de geração de energia. Também poderá auxiliar no melhor aproveitamento de biomassas para geração de energia.

Na agricultura, o grande desafio será descobrir com exatidão o funcionamento do solo, os mecanismos de absorção das plantas e melhor aproveitamento de insumos e de controle de pragas. Isso será essencial para aumentar a oferta de alimentos e garantir segurança alimentar para a população mundial.

Na exploração de óleo e gás, o estudo de rochas e do movimento e absorção do petróleo pode baratear os custos e aumentar a produção em áreas como o pré-sal.

Números

Os números do Sirius são tão impressionantes quanto seu prédio, que parece um gigantesco estádio de futebol com arquitetura futurista. Confira alguns:

  • 68 mil: metros quadrados é a área construída do Sirius.
  • 600 mil: vezes os elétrons percorrem os 500 metros do acelerador a cada segundo, durante horas, sem que oscilem mais que um décimo do seu tamanho.
  • 40: linhas de luz poderão funcionar no acelerador, seis das quais são consideradas longas, com comprimentos variando de 100 a 150 metros. Até 2020 estão previstos o funcionamento de 13 delas.
  • 1,5: micrômetros tem cada feixe de elétrons em alguns trechos do acelerador, quatro vezes menor que uma célula vermelha do sangue.
  • 620: pessoas, entre funcionários e visitantes, poderão circular no novo prédio.
  • 1 bilhão: de vezes superior será o brilho da luz do Sirius em relação ao que hoje está disponível aos pesquisadores.
  • 518,4: metros é medida exata do anel de armazenamento do acelerador.
  • 1,5: bilhão de reais é o valor estimado do projeto.
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