Desenvolvimento de antitumoral e descoberta de potencial marcador de câncer de boca são resultados de pesquisas premiadas pelo Icesp

SBOC, em 22/08/16

 

Em 2006, a pesquisadora Ana Marisa Chudzinski-Tavassi (na primeira foto, ao centro) testava a característica anticoagulante do Amblyomin-X, uma proteína da glândula salivar do carrapato-estrela, quando os primeiros resultados apontaram que a molécula poderia agir na proliferação celular. “Decidimos testá-la em células normais e tumorais e constatamos seu efeito tóxico sobre as tumorais”, diz Ana Marisa, que é diretora do Laboratório de Bioquímica e Biofísica do Instituto Butantan e coordenadora da pesquisa. “Mudamos a estratégia porque era mais inovador desenvolver um antitumoral no Brasil em vez de um anticoagulante, que tem alternativas disponíveis no mercado”, conta.

O trabalho rendeu aos pesquisadores do Instituto Butantan o Prêmio Octavio Frias de Oliveira — concedido pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira (Icesp), em parceria com o Grupo Folha de S.Paulo — na categoria Inovação Tecnológica em Oncologia. “Estamos há uma década tentando transformar uma pesquisa básica em um produto farmacêutico inovador. Por isso, receber um prêmio de inovação conferido pelo Icesp tem um significado enorme”, diz Ana Marisa.

Os pesquisadores estão em fase de transferência da tecnologia de produção para a farmacêutica brasileira União Química. Os testes pré-clínicos da molécula em camundongos e coelhos indicaram uma toxicidade aceitável e o início dos testes de segurança e eficácia em seres humanos está previsto para o próximo ano.

Em testes in vitro, o Amblyomin-X induziu a morte de 23 linhagens de células tumorais humanas, sem ação sobre células normais (fibroblastos, células endoteliais e outras), usadas como padrão de comparação. O Instituto Butantan continuará a pesquisa depois de transferir a tecnologia de produção. “Queremos esclarecer por que a proteína seleciona somente células tumorais”, explica Ana Marisa.

Indícios sobre a evolução do câncer de boca

Há quatro anos, a pesquisadora Adriana Franco Paes Leme (na segunda foto, à esquerda), do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio) do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, iniciou um trabalho sobre câncer de boca, buscando moléculas que estivessem associadas ao prognóstico da doença. Para realizar o estudo, ela utilizou amostras coletadas pela Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pelo Icesp. As amostras eram de dez indivíduos saudáveis, dez pacientes com carcinoma oral de células escamosas (OSCC), um dos tipos mais frequentes de câncer de boca, e dez pacientes sem lesão ativa. O trabalho, publicado na revista Scientific Reports no ano passado, revelou diferenças significativas nas proteínas da saliva de pessoas saudáveis e de indivíduos com câncer de boca, com e sem lesão ativa, e rendeu à pesquisadora o prêmio do Icesp na categoria Pesquisa Oncológica. “Esse prêmio dá um novo ânimo para continuar o estudo. Vamos incluir um número maior de pacientes e prevemos também análise de amostras de sangue e de tecidos tumorais”, explica Adriana.

A pesquisa selecionou um painel de proteínas diferencialmente expressas no grupo com câncer quando comparado com o grupo saudável com 90% de acurácia. Os resultados levaram à identificação de 38 proteínas presentes somente na saliva de indivíduos com câncer e lesão ativa, cinco exclusivas à saliva do grupo com câncer sem lesão ativa, além de diferenças na expressão de quatro proteínas localizadas em vesículas extracelulares da saliva de pessoas com câncer. Uma proteína específica, chamada PPIA, mostrou-se relacionada a um pior prognóstico da doença, quando encontrada em baixa concentração na saliva. “Esperamos confirmar a possibilidade de uso da saliva como marcador de prognóstico complementar não invasivo da progressão de tumores de boca e poder ajudar na decisão de estratégias terapêuticas de tratamento”, diz Adriana.

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