‘Aspectos éticos precisam ser considerados’, dizem especialistas sobre técnica com DNA

Publicado em 09/08/2017
Estadão, 02 de agosto de 2017

Especialistas ouvidos pelo Estado afirmam que a nova técnica levanta preocupações éticas e que sua aplicação clínica necessitará de muitos estudos. Pesquisadores comprovaram que é possível corrigir falhas no DNA de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro.

A presidente da Sociedade Brasileira de Bioética, Regina Parizi, destaca que esse tipo de método deve ser usado exclusivamente para corrigir problemas de saúde. “Há um temor relacionado ao seu uso em intervenções de melhoramento genético humano. Esse tipo de manipulação ainda está no campo da ficção, mas é preciso ter atenção, porque as consequências seriam muito sérias – agregar à desigualdade socioeconômica uma desigualdade biológica seria uma tragédia. Estudos exaustivos têm de ser feitos para cercar essas técnicas da máxima segurança possível.”

Angela Saito, do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), utiliza cotidianamente a técnica Crisper para pesquisas em camundongos. “Quando queremos estudar um gene em particular, podemos usar a técnica Crisper para fazer o nocaute, isto é, ‘desligar’ o gene, inserindo assim uma mutação de interesse. Com isso podemos reproduzir uma mutação que cause uma doença específica e conseguimos estudá-la. A técnica e muito importante para modelos de pesquisa em organismos animais”, disse Angela.

A pesquisadora elogia a nova técnica, mas alerta para o risco de que ela corrija uma mutação, mas produza outras ainda imprevisíveis. “É um trabalho bem feito, com tecnologias avançadas, mas a aplicação para a correção de embriões humanos está distante. Na prática, o controle do processo é difícil e há risco de que a técnica produza mutações indesejadas.”

Usuário frequente da técnica CRISPR em seu laboratório, o médico José Xavier Neto, do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), afirma que as aplicações médicas, na forma apresentada no estudo, são improváveis. “O trabalho é uma prova de conceito de alto valor científico, mas ninguém vai usar essa técnica na prática para garantir que seu bebê não terá uma mutação indesejável, porque isso já é feito de uma maneira tremendamente simples”.

Segundo Xavier, atualmente os embriões são analisados no início de seu desenvolvimento para identificar aqueles que possuem o a cópia mutante do gene. “Na prática, basta identificar os embriões que possuem a mutação deletéria e não implantá-los. Nenhum casal vai optar por editar os genes mutantes se há possibilidade de simplesmente não recorrer a eles. Por isso o estudo é uma investigação puramente científica, como aplicação, não se sustenta.”

Eficácia. O pesquisador Daniel Brison, da Universidade de Manchester, do Reino Unido, ressalta que a tecnologia ainda não é totalmente eficaz. “Embora seja um avanço considerável, é preciso destacar que a tecnologia não foi 100% eficiente.” Nesse tipo de doença, o porcentual de embriões naturalmente saudáveis gerados pela fertilização é de 50% e o procedimento aumentou a taxa para 74%.

 

Repercussão: UOLBahia Notícias; Istoé; O Diário; Tribuna Ribeirão; Primeira Edição; Diário de Pernambuco; Repórter Diário; Folha de Valinhos;

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