{"id":8001,"date":"2014-05-21T15:06:08","date_gmt":"2014-05-21T18:06:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnpem.staging.wpengine.com\/?p=8001"},"modified":"2026-03-02T16:31:07","modified_gmt":"2026-03-02T19:31:07","slug":"a-materia-desvendada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cnpem.br\/en\/a-materia-desvendada\/","title":{"rendered":"A mat\u00e9ria desvendada"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Revista Pesquisa FAPESP em Abril de 2014<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">POR NELDSON MARCOLIN<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dupla h\u00e9lice como representa\u00e7\u00e3o do DNA \u00e9 uma das imagens mais conhecidas produzidas pela ci\u00eancia do s\u00e9culo XX. A descoberta da estrutura da mol\u00e9cula ocorreu em 1953 em boa parte gra\u00e7as ao trabalho da biof\u00edsica Rosalind Franklin, que usou a t\u00e9cnica de difra\u00e7\u00e3o de raios X para obter a imagem. A hist\u00f3ria \u00e9 conhecida: Francis Crick e James Watson usaram os dados de Rosalind \u2013 sem o conhecimento e aprova\u00e7\u00e3o dela \u2013 e escreveram o artigo pioneiro em 1953, publicado na revista\u00a0<em>Nature<\/em>. A \u201cfoto\u201d do DNA feita pela pesquisadora inglesa \u00e9 uma das vedetes da cristalografia, cujos m\u00e9todos experimentais e te\u00f3ricos come\u00e7aram a ser desenvolvidos em 1895 com a descoberta dos raios X pelo alem\u00e3o Wilhelm\u00a0R\u00f6ntgen. A Unesco reconheceu a import\u00e2ncia desta ci\u00eancia b\u00e1sica e instituiu 2014 como o Ano Internacional da Cristalografia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA cristalografia \u00e9 o m\u00e9todo que serviude base para mais trabalhos ganhadores de pr\u00eamios Nobel at\u00e9 hoje, num total de 29\u201d, diz Iris Torriani, pesquisadora do Instituto de F\u00edsica da Universidade Estadual de Campinas (IFGW-Unicamp). Em setembro, o Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron (LNLS), em Campinas, sediar\u00e1 uma confer\u00eancia internacional com o tema \u201cCristalografia biol\u00f3gica e m\u00e9todos complementares\u201d, da qual Iris \u00e9 uma das coordenadoras. Argentina radicada no Brasil, ela trabalha com cristalografia na Unicamp desde 1974. Algumas de suas pesquisas de maior destaque est\u00e3o relacionadas com o estudo de macromol\u00e9culas biol\u00f3gicas usando espalhamento de raios X a baixos \u00e2ngulos, com instrumenta\u00e7\u00e3o desenvolvida sob sua coordena\u00e7\u00e3o no LNLS.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois da descoberta de Wilhelm R\u00f6ntgen, os f\u00edsicos mergulharam no estudo das propriedades e aplica\u00e7\u00f5es dos raios X. Em 1912, o alem\u00e3o Max von Laue realizou uma experi\u00eancia chamada de difra\u00e7\u00e3o, na qual mostrou que os raios X se comportam como ondas eletromagn\u00e9ticas. Ele irradiou um cristal e registrou os raios X transmitidos numa chapa radiogr\u00e1fica. O resultado foi uma chapa com v\u00e1rios pontos arranjados simetricamente, o difratograma, o que provava a exist\u00eancia de uma rede de difra\u00e7\u00e3o formada pelo arranjo regular dos \u00e1tomos no cristal. Ao aplicar c\u00e1lculos matem\u00e1ticos usando os dados observados no difratograma \u2013 como \u00e2ngulos, dist\u00e2ncias entre os pontos e suas intensidades \u2013 foi poss\u00edvel estabelecer o ordenamento regular dos \u00e1tomos em um cristal. Ou seja, desvendou-se a estrutura at\u00f4mica do material irradiado. \u201cOs raios X e alguns conceitos matem\u00e1ticos s\u00e3o ferramentas que nos dizem onde cada \u00e1tomo se localiza nas mol\u00e9culas estudadas\u201d, explica Iris.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1913, dois cientistas, o ingl\u00eas William Henry Bragg e seu filho William Lawrence, fizeram avan\u00e7ar definitivamente a cristalografia. Com base em experimentos feitos por Lawrence, William Henry construiu o primeiro difrat\u00f4metro de raios. O instrumento permitia direcionar os raios X para a face do cristal em qualquer \u00e2ngulo e registrava a intensidade dos feixes difratados usando um detector de radia\u00e7\u00e3o, o que tornou o m\u00e9todo mais preciso e amig\u00e1vel. O material analisado pode ser de origem org\u00e2nica ou inorg\u00e2nica. Alguns deles n\u00e3o s\u00e3o obviamente cristalinos e muitas vezes \u00e9 preciso usar t\u00e9cnicas complicadas para cristalizar o que se quer estudar, como uma prote\u00edna, por exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de desenvolver o difrat\u00f4metro, os Bragg o utilizaram para resolver a estrutura do diamante em 1913. Este trabalho marcou o come\u00e7o da cristalografia de raios X. Pelos anos seguintes muitos outros f\u00edsicos e qu\u00edmicos fizeram o mesmo com os mais diversos materiais. Um dos melhores exemplos \u00e9 o da qu\u00edmica brit\u00e2nica Dorothy Hodgkin, que determinou a estrutura da penicilina em 1945, da vitamina B12 em 1957 e da insulina em 1969. Mais recentemente, em 2009, Ada Yonath, Thomas Steitz e V. Ramakrishnan caracterizaram o ribossomo, respons\u00e1vel pela s\u00edntese de prote\u00ednas. Todos ganharam o pr\u00eamio Nobel de F\u00edsica, Qu\u00edmica ou Fisiologia e Medicina \u2013 Lawrence Bragg \u00e9, at\u00e9 hoje, o mais jovem a ser premiado, aos 25 anos, em 1915. A exce\u00e7\u00e3o foi Rosalind Franklin, que j\u00e1 havia morrido quando Crick, Watson e Wilkins foram laureados, em 1962.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revista Pesquisa FAPESP em Abril de 2014 POR NELDSON MARCOLIN A dupla h\u00e9lice como representa\u00e7\u00e3o do DNA \u00e9 uma das imagens mais conhecidas produzidas pela ci\u00eancia do s\u00e9culo XX. 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