{"id":6342,"date":"2013-08-30T11:41:51","date_gmt":"2013-08-30T14:41:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnpem.staging.wpengine.com\/?p=6342"},"modified":"2026-03-03T08:19:18","modified_gmt":"2026-03-03T11:19:18","slug":"somos-todos-filhos-de-marte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cnpem.br\/en\/somos-todos-filhos-de-marte\/","title":{"rendered":"Somos todos filhos de Marte?"},"content":{"rendered":"<div><em>Folha de S. Paulo, em 29\/08\/2013<\/em><\/div>\n<div>POR SALVADOR NOGUEIRA<\/div>\n<div>\n<div id=\"attachment_308\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/mensageirosideral.blogfolha.uol.com.br\/files\/2013\/08\/mars-hubble.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/mensageirosideral.blogfolha.uol.com.br\/files\/2013\/08\/mars-hubble-300x225.jpg?resize=300%2C225&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida na Terra teria come\u00e7ado\u2026 em Marte! \u00c9 o que sugere, como se n\u00e3o fosse nada demais, o bioqu\u00edmico Steven Benner, pesquisador do Instituto Westheimer para Ci\u00eancia e Tecnologia, nos Estados Unidos.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falando ontem a uma plateia de cientistas em uma confer\u00eancia em Floren\u00e7a, na It\u00e1lia, Benner sugeriu que, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, os primeiros passos da vida, a partir de qu\u00edmica simples, teriam sido dados muito mais facilmente no planeta vermelho, 4 bilh\u00f5es de anos atr\u00e1s, do que na Terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O papo vai ficar meio cabeludo agora, mas, por favor, aguente firme que valer\u00e1 a pena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Benner \u00e9 um dos defensores da hip\u00f3tese conhecida como \u201cmundo de RNA\u201d. Trata-se da resposta mais aceita ao cl\u00e1ssico dilema de Tostines no que diz respeito \u00e0 origem da vida: o que vem primeiro, o material gen\u00e9tico, que guarda as receitas das prote\u00ednas que fazem tudo no interior dos organismos, ou as prote\u00ednas, que tocam o metabolismo adiante e s\u00e3o a raz\u00e3o de ser do material gen\u00e9tico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, a principal mol\u00e9cula guardadora do material gen\u00e9tico, como todos n\u00f3s conhecemos, \u00e9 o DNA. Todas as criaturas vivas t\u00eam seus genomas confortavelmente conservados em longas mol\u00e9culas dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, no passado, o RNA \u2014 que hoje serve principalmente para fazer o leva-e-tr\u00e1s da informa\u00e7\u00e3o contida no DNA \u2014 pode ter sido o protagonista da festa. Por qu\u00ea? Ocorre que os cientistas descobriram que, em certas circunst\u00e2ncias, ele pode agir ora como uma prote\u00edna, estimulando rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas (ou seja, realizando metabolismo), ora para servir como guardador da informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica (como, inclusive, faz para alguns v\u00edrus at\u00e9 hoje). Resolvendo os dois problemas ao mesmo tempo, ele seria o primeiro passo natural da vida, sem exigir a forma\u00e7\u00e3o de duas coisas diferentes (DNA e prote\u00ednas) simultaneamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed a ideia de que o livro da vida teria como seu cap\u00edtulo inicial o \u201cmundo de RNA\u201d.<\/p>\n<p>E MARTE?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Benner se especializou nos \u00faltimos anos no estudo de processos que podem partir de mol\u00e9culas simples e chegar \u00e0 s\u00edntese de RNA. Seu trabalho \u00e9 t\u00e3o reconhecido que o paleont\u00f3logo americano Peter Ward chegou a cham\u00e1-lo de \u201cmestre-cuca do RNA\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suas pesquisas, Benner se deparou com dois paradoxos. O primeiro \u00e9 o de que, quando voc\u00ea junta mol\u00e9culas org\u00e2nicas e as coloca para reagir, voc\u00ea n\u00e3o cria vida \u2014 de RNA ou de qualquer outro tipo. \u201cO que voc\u00ea tem \u00e9 algo como piche, \u00f3leo ou asfalto\u201d, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aparentemente, h\u00e1 alguns elementos qu\u00edmicos que, colocados na mistura, impedem que esse processo de degrada\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a, entre eles boro e molibd\u00eanio. \u201cAn\u00e1lises de um meteorito marciano recentemente mostraram que havia boro em Marte. E agora acreditamos que a forma oxidada do molibd\u00eanio tamb\u00e9m estava l\u00e1\u201d, complementa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo paradoxo tem a ver com a \u00e1gua. Ela \u00e9 essencial \u00e0 vida, mas faz um estrago danado quando RNA \u00e9 exposto a ela. Benner aponta que, embora houvesse \u00e1gua no passado de Marte, ela existia em quantidades bem menores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, transferindo o mundo de RNA da Terra para Marte, Benner parece estar resolvendo alguns dos maiores desafios qu\u00edmicos para a origem da vida. Usando boratos para impedir a tend\u00eancia de os compostos org\u00e2nicos simples virarem piche, e molibdatos (vers\u00f5es oxidadas do molibd\u00eanio) para rearranjar as mol\u00e9culas capturadas pelos boratos, Benner e seus colegas obtiveram ribose. \u201cO R do RNA\u201d, diz. \u201cE estamos usandos ambientes des\u00e9rticos para administrar a instabilidade intr\u00ednseca do RNA em \u00e1gua.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perguntei a ele se tudo isso n\u00e3o poderia tamb\u00e9m ter acontecido na Terra primitiva, mas ele n\u00e3o se mostrou muito otimista. \u201cMuitos ge\u00f3logos n\u00e3o nos \u2018d\u00e3o\u2019 boratos em altas concentra\u00e7\u00f5es, molibdatos e desertos na Terra primitiva\u201d, contou Benner. \u201cSegundo eles, a Terra era jovem demais para ter concentrado os boratos, muito redutora para dar molibd\u00eanio em alto estado de oxida\u00e7\u00e3o e coberta por \u00e1gua.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em compensa\u00e7\u00e3o, Marte parece ter sido o ambiente ideal para essas rea\u00e7\u00f5es. \u201cCerca de 3,5 bilh\u00f5es de anos atr\u00e1s, toda a qu\u00edmica que propomos poderia ter acontecido em Marte\u201d, ele me disse. \u201cConforme o planeta foi ficando cada vez menos habit\u00e1vel, a vida que se originou em Marte escapou para a Terra, que permanece habit\u00e1vel at\u00e9 hoje.\u201d<\/p>\n<div id=\"attachment_319\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/mensageirosideral.blogfolha.uol.com.br\/files\/2013\/08\/ALH84001_structures.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/mensageirosideral.blogfolha.uol.com.br\/files\/2013\/08\/ALH84001_structures-300x202.jpg?resize=300%2C202&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"202\" \/><\/a><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Legal, mas como a vida vai de um planeta a outro? Ela pode pegar carona em meteoritos. Um asteroide colide com Marte, atira material marciano \u2014 com criaturas vivas \u2014 para o espa\u00e7o. Esses pedregulhos ficam flutuando sem rumo pelo Sistema Solar at\u00e9 que caem na Terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acontece direto. Aconteceu com o ALH 84001, meteorito que ficou famoso depois que um grupo de pesquisadores da Nasa, liderados por David McKay, disse ter encontrado sinais de bact\u00e9rias marcianas antigas nele. (Hoje, a maior parte da comunidade aposta que os cientistas comeram barriga. Benner tamb\u00e9m n\u00e3o compra a vers\u00e3o dos micr\u00f3bios marcianos, embora ressalte que \u201caus\u00eancia de evid\u00eancia\u201d n\u00e3o \u00e9 \u201cevid\u00eancia de aus\u00eancia\u201d.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos pesquisadores que estudam a resist\u00eancia de organismos vivos a viagens espaciais involunt\u00e1rias como essa \u00e9 Douglas Galante, do Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron, em Campinas. Embora ele acredite na viabilidade da panspermia (teoria que fala na transfer\u00eancia de organismos de um planeta a outro), o brasileiro \u00e9 cauteloso quanto \u00e0s afirma\u00e7\u00f5es mais arrojadas de Benner.<\/p>\n<div id=\"attachment_318\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/mensageirosideral.blogfolha.uol.com.br\/files\/2013\/08\/curiosity-mars.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/mensageirosideral.blogfolha.uol.com.br\/files\/2013\/08\/curiosity-mars-300x210.jpg?resize=300%2C210&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"210\" \/><\/a><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 algo que ainda precisaremos provar\u201d, diz. \u201cA ideia ganharia muita for\u00e7a se detectarmos, com uma sonda como a Curiosity, uma grande quantidade de mol\u00e9culas precursoras da vida em Marte, que tenham sobrevivido \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o pela radia\u00e7\u00e3o UV e pelos raios c\u00f3smicos.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por enquanto, portanto, a origem marciana da biosfera na Terra \u00e9 s\u00f3 uma hip\u00f3tese bacana, que ilustra muito bem como \u00e9 complicado compreender como veio a ser esse fen\u00f4meno incr\u00edvel que chamamos de vida.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Folha de S. 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