{"id":6101,"date":"2013-07-15T15:01:29","date_gmt":"2013-07-15T18:01:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnpem.staging.wpengine.com\/?p=6101"},"modified":"2026-03-03T08:19:36","modified_gmt":"2026-03-03T11:19:36","slug":"um-peixe-modelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cnpem.br\/en\/um-peixe-modelo\/","title":{"rendered":"Um peixe modelo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Revista Pesquisa FAPESP, em Julho\/2013<\/em><\/p>\n<div style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"font-size: 13px;\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/016-021_CAPA_cobaias_209-1.jpg?resize=290%2C192&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"290\" height=\"192\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Preenchendo lacuna: nativo da \u00c1sia, o paulistinha ou zebrafish \u00e9 um modelo animal intermedi\u00e1rio entre a dros\u00f3fila e os roedores<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">No subsolo do Museu de Ci\u00eancias e Tecnologia da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), em Porto Alegre, funciona uma ag\u00eancia de encontros um tanto incomum. Todo fim de tarde alguns casais \u2013 trios, na verdade \u2013 s\u00e3o conduzidos a uma sala silenciosa onde, \u00e0s escuras, passam algumas horas se conhecendo a certa dist\u00e2ncia. Pela manh\u00e3, quando as luzes s\u00e3o acesas e o contato f\u00edsico \u00e9 liberado, os participantes iniciam um namoro de apenas 15 minutos que costuma deixar muitos descendentes. Um cartaz afixado no lado de fora da porta mant\u00e9m afastados os curiosos: \u201cN\u00e3o entre: acasalamento em andamento\u201d. Nesse laborat\u00f3rio da PUC-RS, a bi\u00f3loga Monica Ryff Moreira Vianna, seguindo estrat\u00e9gias que ela otimizou, controla a reprodu\u00e7\u00e3o de um pequeno peixe listrado de prata e negro conhecido como\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0ou paulistinha, cada vez mais usado nas pesquisas em neuroci\u00eancias no mundo e, agora, no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEm alguns testes, o\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0pode funcionar como uma alternativa ao uso de roedores; em outros, pode oferecer informa\u00e7\u00e3o complementar\u201d, afirma o bi\u00f3logo Denis Rosemberg, que recentemente participou da instala\u00e7\u00e3o de um biot\u00e9rio de\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0na Universidade Comunit\u00e1ria da Regi\u00e3o de Chapec\u00f3 (Unochapec\u00f3), em Santa Catarina. Ele come\u00e7ou a trabalhar com o peixe no Laborat\u00f3rio de Neuroqu\u00edmica e Psicofarmacologia, da farmacologista Carla Bonan, durante a gradua\u00e7\u00e3o na PUC-RS. Ele investigou os efeitos danosos do \u00e1lcool sobre o c\u00e9rebro e demonstrou a a\u00e7\u00e3o neuroprotetora da taurina, naturalmente produzida pelo organismo e encontrada em bebidas energ\u00e9ticas, quando migrou para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Santa Catarina, Rosemberg e o farmacologista Angelo Piato come\u00e7am agora a usar o peixe para investigar os efeitos do estresse no sistema nervoso central e no comportamento. Esse, ali\u00e1s, \u00e9 um dos casos em que o\u00a0<em>zebrafish\u00a0<\/em>(<em>Danio rerio<\/em>) pode oferecer vantagens sobre os roedores. \u00c9 que no peixe o horm\u00f4nio que controla o estresse \u00e9 o cortisol, o mesmo que nos seres humanos \u00e9 liberado por gl\u00e2ndulas situadas sobre os rins em situa\u00e7\u00f5es reais ou imagin\u00e1rias de amea\u00e7a \u00e0 vida. Nos roedores, o horm\u00f4nio produzido nessas situa\u00e7\u00f5es \u00e9 a corticosterona, que ocorre em concentra\u00e7\u00f5es muito baixas no organismo humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na UFRGS, o grupo do bi\u00f3logo Diogo Losch de Oliveira conseguiu dar um passo al\u00e9m. Em um trabalho publicado no in\u00edcio deste ano na revista\u00a0<em>PLoS One<\/em>, ele e seu aluno de mestrado Ben Hur Mussulini haviam descrito detalhadamente as altera\u00e7\u00f5es comportamentais que caracterizam os est\u00e1gios epil\u00e9pticos no\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0adulto. \u201cNa literatura cient\u00edfica s\u00f3 havia descri\u00e7\u00f5es detalhadas para o modelo em larvas, que apresentam um repert\u00f3rio comportamental mais restrito\u201d, diz Losch.<\/p>\n<div id=\"attachment_123767\" style=\"text-align: justify;\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/016-021_CAPA_cobaias_209-2.jpg?resize=290%2C241&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"290\" height=\"241\" \/><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais recentemente seu grupo come\u00e7ou a testar os primeiros de um grupo de 30 compostos desenvolvidos em parceria com Grace Grosmann, da Faculdade de Farm\u00e1cia da UFRGS. Esses compostos tentam explorar uma via bioqu\u00edmica distinta das que s\u00e3o alvo dos medicamentos atualmente dispon\u00edveis, incapazes de controlar cerca de 30% dos casos de epilepsia. Dos tr\u00eas compostos testados, apenas um se mostrou capaz de reduzir a intensidade das crises e deve seguir para outras fases de avalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estudos internacionais, a prop\u00f3sito, consideram o\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0uma ferramenta bastante promissora para a an\u00e1lise e sele\u00e7\u00e3o de compostos candidatos a medicamentos. Com esse peixe, espera-se acelerar e baratear o processo. Uma das vantagens \u00e9 que seu ciclo de vida \u00e9 r\u00e1pido \u2013 em quatro dias v\u00e1rios dos seus \u00f3rg\u00e3os est\u00e3o formados \u2013 e as larvas, que nascem \u00e0s centenas a cada postura, com uns poucos mil\u00edmetros de comprimento, podem ser acomodadas em v\u00e1rios po\u00e7os de teste com doses baix\u00edssimas de compostos qu\u00edmicos. Com essa sele\u00e7\u00e3o, imagina-se ser poss\u00edvel reduzir o n\u00famero de mol\u00e9culas que seguiriam para as fases seguintes, de experimentos com roedores. \u201cCom o\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0\u00e9 poss\u00edvel testar em meses e com alguns milhares de d\u00f3lares o que levaria anos para ser feito com roedores e custaria milh\u00f5es\u201d, comenta o bioqu\u00edmico Diogo Onofre Souza, coordenador do Instituto Nacional de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o de Excitoxocidade e Neuroprote\u00e7\u00e3o, onde s\u00e3o desenvolvidas as pesquisas com\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0na UFRGS. No exterior, algumas ind\u00fastrias de medicamentos j\u00e1 come\u00e7am a adot\u00e1-lo em sua linha de testes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pioneiros<\/strong><br \/>\nNativo do sudoeste da \u00c1sia, onde \u00e9 encontrado em rios calmos e rasos e nas planta\u00e7\u00f5es alagadas de arroz e juta, esse peixe chegou aos laborat\u00f3rios de pesquisa no final dos anos 1960, com o bi\u00f3logo norte-americano George Streisinger, da Universidade do Oregon. Ele trabalhou sozinho por uma d\u00e9cada para selecionar linhagens que permitissem entender como defeitos em diferentes genes afetavam o desenvolvimento. Seu esfor\u00e7o s\u00f3 conseguiu reduzir o ceticismo dos colegas em 1981, quando publicou um artigo na revista\u00a0<em>Nature<\/em>\u00a0apresentando o modelo consolidado. Nos anos seguintes, o n\u00famero de artigos cient\u00edficos que usavam o peixe como modelo biol\u00f3gico cresceu aceleradamente, em especial nos estudos de gen\u00e9tica e desenvolvimento, e s\u00f3 na \u00faltima d\u00e9cada o\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0chegou \u00e0 neuroci\u00eancia.<\/p>\n<div id=\"attachment_123770\" style=\"text-align: justify;\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright\" title=\"Larva de zebrafish com 5 dias de vida\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/016-021_CAPA_cobaias_209-3.jpg?resize=290%2C245&#038;ssl=1\" alt=\"Larva de zebrafish com 5 dias de vida\" width=\"290\" height=\"245\" \/><strong style=\"font-size: 13px;\">Modelos Complementares<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0come\u00e7a a preencher uma lacuna que existia entre os modelos animais para o estudo de doen\u00e7as humanas\u201d, diz o neurofisiologista Luiz Eugenio Mello, da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), que estuda altera\u00e7\u00f5es no sistema nervoso central, entre elas as causadas pela epilepsia, usando ratos como modelo biol\u00f3gico. Mello lembra que um axioma da ci\u00eancia diz que o melhor modelo para investigar uma coisa \u00e9 a pr\u00f3pria coisa. De acordo com esse racioc\u00ednio, o ideal para o estudo das doen\u00e7as humanas seriam os pr\u00f3prios seres humanos. Mas isso raramente \u00e9 poss\u00edvel. \u201cNa maioria das vezes h\u00e1 restri\u00e7\u00f5es \u00e9ticas e limita\u00e7\u00f5es de tempo, espa\u00e7o e custo para realizar as pesquisas\u201d, afirma. \u201cPor isso s\u00e3o necess\u00e1rios v\u00e1rios modelos experimentais, dos mais simples aos mais complexos, para compreender a origem de alguns problemas.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando n\u00e3o se pode investigar um problema no pr\u00f3prio ser humano, a medicina e a biologia adotam uma esp\u00e9cie de escala preferencial de modelos, em que s\u00e3o levados em conta fatores como a semelhan\u00e7a evolutiva, anat\u00f4mica, fisiol\u00f3gica e gen\u00e9tica. Segundo esse sistema, os animais que permitiriam extrapolar os resultados com mais seguran\u00e7a para as pessoas seriam os outros primatas, como o chimpanz\u00e9, cujo uso em pesquisa \u00e9 proibido no Brasil e vem sendo banido nos Estados Unidos, e outros macacos. \u201cS\u00f3 trabalha com primata quem disp\u00f5e de muita verba e muito espa\u00e7o\u201d, comenta o bi\u00f3logo molecular Jo\u00e3o Bosco Pesquero, tamb\u00e9m da Unifesp, criador de uma das primeiras linhagens brasileiras de camundongos transg\u00eanicos.\u201cPor isso, muita gente opta pelos roedores, que s\u00e3o mam\u00edferos como os seres humanos\u201d, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante de dificuldades t\u00e9cnicas que impedem o trabalho com roedores, o que \u00e0s vezes ocorre na gen\u00e9tica \u2013 por exemplo, s\u00f3 h\u00e1 bem pouco tempo se come\u00e7ou a conseguir a produzir ratos transg\u00eanicos \u2013, a sa\u00edda \u00e9 trabalhar com modelos evolutivamente mais distantes dos seres humanos, mas mais f\u00e1ceis de manipular, como as dros\u00f3filas. E mais recentemente com o\u00a0<em>zebrafish<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mais importante, por\u00e9m, \u00e9 que, do ponto de vista evolutivo, o\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0\u00e9 mais pr\u00f3ximo dos seres humanos do que as dros\u00f3filas, h\u00e1 quase um s\u00e9culo usadas como organismo modelo em gen\u00e9tica. O genoma do\u00a0<em>zebrafish<\/em>, conclu\u00eddo no in\u00edcio deste ano, indica que 70% de seus 26 mil genes s\u00e3o semelhantes aos genes humanos \u2013 essa similaridade \u00e9 menor com a dros\u00f3fila e maior com camundongos e ratos, que serviram de base para muito do que se conhece de fisiologia humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cHistoricamente as pesquisas em neuroci\u00eancias usam os roedores como modelo biol\u00f3gico, mas esse cen\u00e1rio come\u00e7a a mudar\u201d, conta Monica, que tamb\u00e9m integra a diretoria da Rede Latino-americana de Zebrafish (Lazen). Esse cons\u00f3rcio re\u00fane pesquisadores de sete pa\u00edses que usam o peixe em seus estudos e oferece treinamento para aqueles, em geral em in\u00edcio de carreira, interessados em adotar o\u00a0<em>zebrafish\u00a0<\/em>como modelo experimental. Dos 39 grupos que integram a rede, 11 s\u00e3o brasileiros e quase metade est\u00e1 no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nacional utilizando o\u00a0<em>zebrafish<\/em>, que inexistia h\u00e1 pouco mais de uma d\u00e9cada, vem crescendo de modo acelerado nos \u00faltimos anos, num ritmo maior do que no restante do mundo. A bi\u00f3loga Luciana Calabr\u00f3, especialista em cientometria e integrante de um dos grupos que realizam estudos com o paulistinha na UFRGS, chegou a essa conclus\u00e3o em um levantamento recente realizado em uma das maiores bases internacionais de artigos cient\u00edficos, a Scopus. \u201cA produ\u00e7\u00e3o brasileira saiu de 2 artigos por ano em 1999 para 36 em 2012, quando passou a representar cerca de 2% dos trabalhos com\u00a0<em>zebrafish\u00a0<\/em>publicados no mundo\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A produ\u00e7\u00e3o nacional com esse peixe ainda \u00e9 modesta ante a internacional, que soma quase 2 mil artigos por ano nos \u00faltimos tempos. Mas vem conseguindo se destacar nas neuroci\u00eancias. \u201cO\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0\u00e9 um modelo novo nessa \u00e1rea e a comunidade que trabalha com ele ainda \u00e9 pequena\u201d, conta Monica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No Brasil<\/strong><br \/>\nOs primeiros trabalhos com esse peixe feitos no Brasil sa\u00edram do laborat\u00f3rio da pesquisadora Rosana Mattioli, da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFSCar), no interior de S\u00e3o Paulo. Naquela \u00e9poca o\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0come\u00e7ava a ser usado nas pesquisas em neuroci\u00eancias, mas o comportamento natural da esp\u00e9cie ainda era pouco conhecido. Rosana, ent\u00e3o, realizou uma s\u00e9rie de experimentos simples que ajudou a identificar a prefer\u00eancia do peixe por viver em ambientes escuros. Ela colocava os exemplares do\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0em um aqu\u00e1rio pintado de duas cores \u2013 metade preto e metade branco \u2013 e media o tempo que passavam em cada uma das partes. Assim, observou que eles ficavam a maior parte do tempo (cerca de 80%) no lado negro. Viu tamb\u00e9m que, uma vez colocados na parte clara, eles rapidamente nadavam para a parte escura. Esse trabalho, publicado em 1999 no\u00a0<em>Brazilian Journal of Medical and Biological Research<\/em>, come\u00e7ou a estabelecer a base de um importante teste de ansiedade, aprimorado em seguida por ela e outros pesquisadores e hoje utilizado para avaliar o efeito de compostos que combatem a depress\u00e3o e a ansiedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ansiedade<\/strong><br \/>\nAo ver esse trabalho, o psic\u00f3logo Amauri Gouveia Junior, ent\u00e3o na Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Bauru, notou uma grande semelhan\u00e7a entre o teste do claro-escuro em\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0e um experimento que avalia o n\u00edvel de ansiedade em roedores. Nesse teste, o roedor \u00e9 colocado em uma plataforma em X a cerca de 60 cent\u00edmetros do ch\u00e3o. Em dois dos bra\u00e7os, o espa\u00e7o para caminhar \u00e9 protegido por paredes, enquanto nos outros dois \u00e9 aberto. Uma vez no labirinto, os ratos, curiosos, apresentam a tend\u00eancia de explor\u00e1-lo. Mas passam a evitar a parte aberta. Essa ansiedade resulta de um conflito entre a curiosidade e o medo. \u201cO tempo que os peixes passavam no lado escuro era muito semelhante \u00e0quele que os roedores ficavam na parte protegida do labirinto\u201d, conta Gouveia. \u201cPor isso imaginei que os dois testes pudessem medir a ansiedade em animais diferentes.\u201d Desde ent\u00e3o, ele aplicou o teste de claro-escuro a 12 esp\u00e9cies de peixe, o\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0entre eles, para avaliar ansiedade em peixes. \u201c\u00c9 um dos testes mais adotados hoje em laborat\u00f3rios de estudos de peixe no mundo todo\u201d, conta Gouveia, hoje pesquisador na Universidade Federal do Par\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a title=\"Um peixe modelo\" href=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/016-021_CAPA_cobaias_209-51.jpg?ssl=1\" rel=\"lightbox[123743]\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/016-021_CAPA_cobaias_209-51-300x191.jpg?resize=300%2C191&#038;ssl=1\" alt=\"016-021_CAPA_cobaias_209-5\" width=\"300\" height=\"191\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fase seguinte \u00e9 testar compostos que interferem nesse comportamento para tentar descobrir como eles o alteram. Com alguns desses testes padronizados, os pesquisadores brasileiros j\u00e1 identificam altera\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas e celulares no c\u00e9rebro, provocadas por crises de epilepsia ou por compostos que controlam a depress\u00e3o e a ansiedade. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde instalou um laborat\u00f3rio de<em>zebrafish<\/em>\u00a0h\u00e1 dois anos, a geneticista Cl\u00e1udia Maurer-Morelli e sua aluna de mestrado Patr\u00edcia Barbalho viram que os n\u00edveis de uma mol\u00e9cula inflamat\u00f3ria, a interleucina 1-beta, aumentaram logo ap\u00f3s uma crise epil\u00e9ptica induzida. As crises tamb\u00e9m elevam a produ\u00e7\u00e3o e a atividade do fator neurotr\u00f3fico derivado do c\u00e9rebro (BDNF), uma prote\u00edna que em humanos est\u00e1 alterada na epilepsia, como mostraram os resultados publicados por Fernanda Reis-Pinto em 2012 no\u00a0<em>Journal of Epilepsy and Clinical Neurophysiology<\/em>. Numa linha de pesquisa em fase inicial, Cl\u00e1udia planeja produzir peixes com altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas encontradas em pessoas com epilepsia para investigar o papel dessas muta\u00e7\u00f5es na doen\u00e7a. O trabalho integra o Instituto Brasileiro de Neuroci\u00eancias e Neurotecnologia, um dos Centros de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o financiados pela FAPESP, coordenado por Fernando Cendes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora os primeiros trabalhos com\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0tenham sido feitos em S\u00e3o Paulo, cerca de metade dos artigos brasileiros dos \u00faltimos anos \u00e9 de equipes do Rio Grande do Sul, boa parte em neuroci\u00eancias. Segundo Monica Vianna, uma raz\u00e3o hist\u00f3rica explica a concentra\u00e7\u00e3o dos trabalhos brasileiros com paulistinha em neuroci\u00eancias. Tanto ela quanto Carla Bonan, da PUC-RS, uma das primeiras a instalar um laborat\u00f3rio de<em>zebrafish<\/em>\u00a0no Brasil, haviam feito parte de seu treinamento no grupo de Iv\u00e1n Izquierdo na UFRGS, um dos principais estudiosos da mem\u00f3ria no mundo. Depois de trabalhar com roedores no mestrado e no doutorado, Carla e Monica decidiram investir no<em>zebrafish<\/em>. Nos \u00faltimos anos, Carla mostrou que nesses peixes os n\u00edveis de algumas mol\u00e9culas que atuam na comunica\u00e7\u00e3o entre as c\u00e9lulas cerebrais \u2013 o trifosfato de adenosina e um de seus componentes, a adenosina \u2013 desempenham um papel protetor contra a epilepsia, o estresse e a neurotoxicidade induzida por metais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/strong>Na PUC-RS, Monica e sua equipe trabalharam meses at\u00e9 chegarem \u00e0 estrat\u00e9gia mais eficiente de promover o acasalamento dos peixes no Laborat\u00f3rio de Biologia e Desenvolvimento do Sistema Nervoso. Ela s\u00f3 conseguiu aumentar a taxa reprodutiva quando reuniu os participantes em grupos de tr\u00eas (uma f\u00eamea e dois machos) e os manteve separados por uma divis\u00f3ria transparente \u2013 machos de um lado e f\u00eameas do outro \u2013 durante toda uma noite antes que pudessem finalmente ter contato. \u201cSe n\u00e3o os separo, cada f\u00eamea produz menos de uma dezena de ovos\u201d, conta a bi\u00f3loga. J\u00e1 com o isolamento e as 12 horas de namoro a dist\u00e2ncia, esse n\u00famero pode aumentar para cerca de 200. L\u00e1 ocorrem cerca de dez acasalamentos por dia e nascem, em m\u00e9dia, 2 mil filhotes por m\u00eas. Em uma manh\u00e3 excepcionalmente produtiva de maio deste ano, Monica e sua equipe passaram horas recolhendo um a um, com uma pipeta, os cerca de 1.800 embri\u00f5es que resultaram de um \u00fanico acasalamento de algumas dezenas de trios de\u00a0<em>zebrafish<\/em>, que ela vem usando para investigar a bioqu\u00edmica da mem\u00f3ria e de doen\u00e7as neurodegenerativas como o mal de Alzheimer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a expectativa de que a demanda por exemplares do peixe possa crescer nos pr\u00f3ximos anos, os grupos de Monica, Carla e os colegas que compartilham o biot\u00e9rio da PUC-RS trabalham na sua amplia\u00e7\u00e3o. \u00c9 que os 5 mil peixes mantidos ali hoje s\u00e3o suficientes apenas para suprir os estudos conduzidos por eles e alguns colaboradores. A meta \u00e9 tornar esses laborat\u00f3rios um dos principais fornecedores desse\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0para pesquisa no Brasil, ao lado do Laborat\u00f3rio Nacional de Bioci\u00eancias (LNBio), em Campinas, onde a equipe do bi\u00f3logo Jos\u00e9 Xavier Neto instalou no ano passado um biot\u00e9rio para produzir\u00a0<em>zebrafish<\/em>\u00a0com altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas para o estudo do desenvolvimento de vertebrados. Comparando o desenvolvimento embrion\u00e1rio de peixes, galinhas e camundongos, a equipe de Xavier come\u00e7ou a elucidar nos \u00faltimos anos o papel de alguns fatores envolvidos na diferencia\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o dos vertebrados e no desenvolvimento de neur\u00f4nios sensoriais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das raz\u00f5es para aumentar a produ\u00e7\u00e3o do peixe \u00e9 que h\u00e1 um potencial mercado. A Lei Arouca, que regulamenta o uso de animais em pesquisa, determina que a partir de 2014 sejam usados exemplares de origem, qualidade e uniformidade certificadas. \u201cEm princ\u00edpio\u201d, diz Monica, \u201cn\u00e3o ser\u00e1 mais poss\u00edvel fazer pesquisa com peixes comprados em lojas de animais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Artigos cient\u00edficos<strong><br \/>\n<\/strong><\/em>MUSSULINI, B.H.\u00a0<em>et al<\/em>. Seizures Induced by\u00a0Pentylenetetrazole in the adult zebrafish: a detailed behavioral characterization.\u00a0<strong>PLos One<\/strong>. v. 8. Jan. 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">REIS-PINTO, F. C.\u00a0<em>et al<\/em>. An\u00e1lise temporal dos transcritos dos genes bdnf e ntrk2 em c\u00e9rebro de zebrafish induzido \u00e0 crise epil\u00e9ptica por pentilenotetrazol.\u00a0<em><strong>Journal of Epilepsy and Clinical Neurophysiology<\/strong><\/em>. v. 18, n. 14, p. 107-13. 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CASTILLO, H. A.\u00a0<em>et al<\/em>. Insights into the organization of dorsal spinal cord pathways from an evolutionarily conserved raldh2 intronic enhancer.\u00a0<strong>Development<\/strong>. v. 137, p. 507-18. 2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revista Pesquisa FAPESP, em Julho\/2013 No subsolo do Museu de Ci\u00eancias e Tecnologia da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), em Porto Alegre, funciona uma ag\u00eancia de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1163,179],"tags":[],"class_list":["post-6101","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-clipping-cnpem","category-clipping-lnbio","category-1163","category-179","description-off"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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