{"id":5023,"date":"2012-10-22T13:55:45","date_gmt":"2012-10-22T15:55:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnpem.staging.wpengine.com\/?p=5023"},"modified":"2026-03-03T10:08:39","modified_gmt":"2026-03-03T13:08:39","slug":"ciencia-e-inovacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cnpem.br\/en\/ciencia-e-inovacao\/","title":{"rendered":"Ci\u00eancia e inova\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Revista Pesquisa FAPESP, em 11\/10\/2012<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FERNANDO GALEMBECK<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tales de Mileto, ge\u00f4metra e astr\u00f4nomo considerado por alguns o primeiro cientista, foi tamb\u00e9m um h\u00e1bil transformador de conhecimento em riqueza. Em um certo ano, previu que haveria uma grande safra de olivas e comprou muitas prensas de \u00f3leo, revendendo-as na safra. Assim conseguiu uma grande receita e satisfez necessidades dos produtores de \u00f3leo. Se n\u00e3o tivesse acumulado as prensas que mandou fazer, n\u00e3o haveria como prensar todas as azeitonas. Portanto, o primeiro cientista soube usar o conhecimento para gerar riquezas, para si e para outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No contexto de hoje temos um desafio global, criado por uma popula\u00e7\u00e3o crescente e expectativa de aumento de consumo, num quadro de recursos naturais finitos. Ambicionamos o desenvolvimento sustent\u00e1vel ou dur\u00e1vel, que requer novo conhecimento. E precisamos tamb\u00e9m mudar atitudes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O novo conhecimento cient\u00edfico cria possibilidades de inova\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m coloca perguntas: qual ci\u00eancia? Qual inova\u00e7\u00e3o? Os recursos s\u00e3o sempre limitados, especialmente em pa\u00edses de renda\u00a0<em>per capita<\/em>\u00a0e \u00edndice de desenvolvimento humano baixos. No Brasil, que tem pouca infraestrutura, a situa\u00e7\u00e3o se torna particularmente s\u00e9ria e as quest\u00f5es se desdobram: onde se deve gastar? Quanto se pode gastar? Quem vai gastar? Como? Os gastos feitos proporcionar\u00e3o sustentabilidade para o sistema? Para o pa\u00eds? Para o mundo? Essas quest\u00f5es devem estar sempre presentes nas mentes de cientistas, pesquisadores e gestores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje h\u00e1 no mundo muitos grupos envolvidos com estes problemas. O chamado Grupo Carnegie \u00e9 formado por ministros de C&amp;T de pa\u00edses do G8 e trata, entre outros temas, das Research Facilities of Global Interest. Estas s\u00e3o hoje principalmente os grandes aceleradores de part\u00edculas e observat\u00f3rios astron\u00f4micos. Recentemente o Grupo Carnegie come\u00e7ou a discutir as necessidades de ci\u00eancia para a sustentabilidade e a transi\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 economia \u201cverde\u201d. Uma conclus\u00e3o atual \u00e9 a de que n\u00e3o existem as infraestruturas que deveriam estar dispon\u00edveis, independentemente de m\u00e9ritos intr\u00ednsecos das que j\u00e1 existem. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1\u00a0<em>facilities<\/em>\u00a0aptas para sediarem o trabalho cient\u00edfico requerido para o enfrentamento dos problemas globais. Essa situa\u00e7\u00e3o faz voltar \u00e0 pergunta: qual ci\u00eancia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ci\u00eancia de verdade tem que ser original e competitiva, no estado da arte. Por isso observo um problema muito difundido: estudantes e professores frequentemente leem muitos artigos cient\u00edficos, mas rar\u00edssimos leem patentes, ignorando assim uma boa parte do conhecimento de fronteira. Por isso \u00e9 frequente a apresenta\u00e7\u00e3o de propostas de pesquisa \u00e0s ag\u00eancias de fomento, tendo como objetivo resultados que j\u00e1 est\u00e3o descritos em patentes concedidas pelo USPTO ou outros escrit\u00f3rios de patentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que a ci\u00eancia que estamos fazendo crie impactos realmente radicais, ela precisa ser significativa num contexto amplo. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso rever algumas ideias sobre a organiza\u00e7\u00e3o e a estrutura\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. Um artigo publicado no n\u00famero de julho\/agosto da\u00a0<em>American Scientist<\/em>, sob o t\u00edtulo\u00a0<em>What creates static electricity?<\/em>, desafia a cren\u00e7a de que a eletrost\u00e1tica foi resolvida na f\u00edsica do s\u00e9culo XIX ou que segue sendo um problema apenas de f\u00edsica. Segundo o autor, respostas a problemas persistentes da eletrost\u00e1tica est\u00e3o surgindo atualmente da qu\u00edmica e de outras \u00e1reas. Este e muitos outros casos importantes s\u00e3o ignorados em nosso meio, ainda impregnado de ideias e hierarquias cient\u00edficas que v\u00eam do positivismo. Embora superadas, estas continuam a ser ensinadas aos nossos alunos e presidem \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o de curr\u00edculos e or\u00e7amentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual inova\u00e7\u00e3o interessa? A inova\u00e7\u00e3o depende de desenvolvimento, que custa muito dinheiro, por isso s\u00f3 faz sentido fomentar trabalho de P&amp;D que tenha foco bem definido e perspectivas concretas de utiliza\u00e7\u00e3o. A inova\u00e7\u00e3o tem que satisfazer necessidades emergentes, e \u00e9 essencial saber em que setores da agricultura, da ind\u00fastria e dos servi\u00e7os est\u00e3o essas necessidades. Inova\u00e7\u00e3o tem impacto econ\u00f4mico, estrat\u00e9gico ou social e, de novo, precisamos saber: em quais cen\u00e1rios? Em qual contexto? Para quem? A ci\u00eancia em princ\u00edpio beneficia a todos, mas a inova\u00e7\u00e3o frequentemente beneficia alguns, e n\u00e3o outros, podendo mesmo prejudicar muitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 10 anos, em meio \u00e0 euforia em torno da nanotecnologia, alguns a descreviam como a solu\u00e7\u00e3o de todos os problemas da humanidade. Tamb\u00e9m a energia nuclear foi apresentada, em meados do s\u00e9culo XX, como uma solu\u00e7\u00e3o para todos os problemas \u2013 e n\u00f3s sabemos o que aconteceu. Qualquer nova tecnologia cria riscos ambientais, sociais e econ\u00f4micos e isso vale para a nanotecnologia. Portanto, as decis\u00f5es sobre incentivos \u00e0 inova\u00e7\u00e3o e \u00e0 ci\u00eancia que ela demanda t\u00eam de ser instru\u00eddas por uma an\u00e1lise do equil\u00edbrio entre benef\u00edcios e riscos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ci\u00eancia e inova\u00e7\u00e3o exigem paix\u00e3o, ilustrada em um quadro que mostra Pasteur concluindo um experimento enquanto madame Pasteur se prepara para sair. Mas o seu marido estava muito ocupado e n\u00e3o conseguia cuidar da vida social sem ter a resposta que lhe seria dada pelo experimento. Pasteur \u00e9 um grande exemplo de capacidade de fazer, ao mesmo tempo, cria\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e inova\u00e7\u00e3o, salvando vidas. Segundo ele, \u201cn\u00e3o existe uma categoria de ci\u00eancia que se pode chamar de ci\u00eancia aplicada. O que existe s\u00e3o ci\u00eancias e aplica\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia, interligadas como uma \u00e1rvore e seu fruto\u201d. Para entender a frase,\u00a0 lembremos que Pasteur era um bom cat\u00f3lico, familiarizado com o Evangelho de S\u00e3o Lucas, onde lemos que a \u00e1rvore que produz maus frutos n\u00e3o \u00e9 boa e a que produz bons frutos n\u00e3o \u00e9 m\u00e1. A\u00ed est\u00e3o duas ideias: primeiro, tanto a \u00e1rvore como os frutos podem ser bons ou maus. Al\u00e9m disso, n\u00e3o somente a \u00e1rvore d\u00e1 o fruto, mas o fruto tamb\u00e9m d\u00e1 a \u00e1rvore, isto \u00e9, os processos que relacionam ci\u00eancia e inova\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o lineares, nem unidirecionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso mesmo, o Instituto Pasteur, um antigo e sempre moderno templo mundial da ci\u00eancia, \u00e9 tamb\u00e9m titular de 382 pedidos de patentes depositados no USPTO desde 2001. Faz ci\u00eancia e inova\u00e7\u00e3o de primeira e ambas se fertilizam mutuamente, criando uma sustentabilidade que n\u00e3o \u00e9 observada em outras organiza\u00e7\u00f5es de pesquisa importantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se quisermos ter inova\u00e7\u00e3o, temos de educar para a inova\u00e7\u00e3o. Lembro-me com gratid\u00e3o de pessoas que contribu\u00edram para minha educa\u00e7\u00e3o, como Ney Galv\u00e3o da Silva, presidente da Ind\u00fastria Qu\u00edmica Santo Amaro S\/A, produtora de tetraciclina, do grupo Laborter\u00e1pica-Bristol dos anos 1950-1960, em S\u00e3o Paulo. Ele foi o supervisor do meu primeiro est\u00e1gio, em que fiz um levantamento de informa\u00e7\u00f5es sobre as penicilinas semissint\u00e9ticas e oxacilinas. Na nossa primeira conversa, depois de uma semana de est\u00e1gio, ele quis ver o que eu j\u00e1 fizera e, ao ver os dados que eu tinha coletado, perguntou-me se eu me limitara s\u00f3 a ler artigos. Diante de minha resposta afirmativa, indagou-me sobre as patentes. \u201cMuitas informa\u00e7\u00f5es sobre isso est\u00e3o em patentes\u201d, observou, e ent\u00e3o fui estudar as patentes. Aprendi isso com ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pawel Krumholz, meu orientador de tese, \u00e9 outro a quem devo prestar tributo. Dirigente da Orquima S\/A, ele produziu cafe\u00edna por metila\u00e7\u00e3o de teobromina. No Brasil, seria natural produzi-la extraindo-a do caf\u00e9. Mas a pessoa que \u00e9 ligada e sabe um pouco de qu\u00edmica \u2013 e ele sabia muito \u2013 percebe que d\u00e1 muito mais certo extrair teobromina de cacau e transformar em cafe\u00edna. Ele obteve uma patente sobre separa\u00e7\u00e3o de terras-raras no USPTO em 1963 e outras na Europa, que demonstram o n\u00edvel de compet\u00eancia que j\u00e1 tivemos nessa \u00e1rea. Hoje o governo brasileiro tem interesse nisso, mas percebemos quanto tempo foi perdido, por falta de pol\u00edticas. Precisamos ter pol\u00edticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Termino lembrando de Carmine Taralli, diretor de P&amp;D da Pirelli nos anos 1990. Ele se aplicou a \u201ccomo fazer para que as empresas, diante de um risco de inova\u00e7\u00e3o reduzido, se atrevam a buscar a inova\u00e7\u00e3o\u201d. Classificou essa tarefa de maravilhosa, lembrando que gastara toda a sua vida \u201cem inova\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de novos produtos\u201d. Tive o prazer de trabalhar com ele no desenvolvimento dos isolantes dos cabos el\u00e9tricos que hoje est\u00e3o instalados no Eurot\u00fanel e foram criados e produzidos no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Volto ao desafio global: garantir alimento, mat\u00e9rias-primas e energia para 9 bilh\u00f5es de pessoas, em poucas d\u00e9cadas. Nos Estados Unidos esse desafio \u00e9 traduzido no programa 30\/30 do DOE e Usda: 30% de substitui\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo em 2030. Isso requer aproximadamente 1 bilh\u00e3o de toneladas de biomassa por ano. No Brasil, qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o? Aqui, a produ\u00e7\u00e3o de res\u00edduos de biomassa atingiu em 2010 cerca de 1 bilh\u00e3o de toneladas, resultado de 30 anos de inova\u00e7\u00e3o e que nos coloca, talvez pela primeira vez na hist\u00f3ria, 18 anos adiante dos Estados Unidos. Outro personagem importante nesse quadro \u00e9 o eucalipto, hoje valorizado pela excel\u00eancia do papel e em produ\u00e7\u00e3o de energia. Seu desenvolvimento para essa finalidade foi feito no Brasil e hoje est\u00e1 sendo transferido para outros pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos um caminho, que pode tamb\u00e9m ser adequado para outros pa\u00edses na condi\u00e7\u00e3o do Brasil. Podemos enfrentar o problema global usando a biomassa, mas para isso precisamos ter estrat\u00e9gias, ter atitudes e a\u00ed conseguiremos os resultados: nova ci\u00eancia, novos produtos, processos e mais bens para cada vez mais pessoas, em um quadro sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Este artigo e os das p\u00e1ginas seguintes resultam de palestras proferidas no primeiro dos sete encontros preparat\u00f3rios para o F\u00f3rum Mundial da Ci\u00eancia 2013, realizado na sede da FAPESP de 29 a 31 de agosto de 2012.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Galembeck, professor do Instituto de Qu\u00edmica da Unicamp, \u00e9 diretor do Laborat\u00f3rio Nacional de Nanotecnologia, do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM)<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1163,44],"tags":[],"class_list":["post-5023","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-clipping-cnpem","category-clipping-lnnano","category-1163","category-44","description-off"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.8 - 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