{"id":25922,"date":"2022-03-28T15:19:51","date_gmt":"2022-03-28T15:19:51","guid":{"rendered":"https:\/\/cnpem.br\/?p=25372"},"modified":"2026-03-02T15:53:58","modified_gmt":"2026-03-02T18:53:58","slug":"brasil-adere-ao-maior-centro-de-fisica-mas-cientistas-temem-abandono-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cnpem.br\/en\/brasil-adere-ao-maior-centro-de-fisica-mas-cientistas-temem-abandono-aqui\/","title":{"rendered":"Brasil adere ao maior centro de f\u00edsica, mas cientistas temem abandono aqui"},"content":{"rendered":"<p>Por <a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/tilt\/noticias\/redacao\/2022\/03\/14\/ciencia-brasil-acordo-cern-boson-de-higgs-particula-de-deus-centro-pesquisa.htm\">UOL Tilt<\/a> em 14\/03\/2022<\/p>\n<div style=\"width: 910px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/45\/2022\/03\/07\/cern-colisor-de-particulas-lhcb-1646672738265_v2_900x506.jpg?resize=900%2C506&#038;ssl=1\" alt=\"Cientistas comemoram acordo com a Cern, maior centro de pesquisa de f\u00edsica do mundo, mas cobram investimento em ci\u00eancia no pa\u00eds - Peter Ginter\/ Cern\" width=\"900\" height=\"506\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Cientistas comemoram acordo com a Cern, maior centro de pesquisa de f\u00edsica do mundo, mas cobram investimento em ci\u00eancia no pa\u00eds Imagem: Peter Ginter\/ Cern<\/p><\/div>\n<p>Ap\u00f3s mais de tr\u00eas d\u00e9cadas colaborando com projetos do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern, na sigla em franc\u00eas), o Brasil assinou no \u00faltimo dia (3) um acordo para se tornar membro associado de um dos principais institutos cient\u00edficos do planeta. \u00c9 a primeira vez que um pa\u00eds do hemisf\u00e9rio sul se filia \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o, palco de descobertas como o b\u00f3son de Higgs (&#8220;part\u00edcula de Deus&#8221;) e a World Wide Web (&#8220;www&#8221;).<\/p>\n<p>O acordo foi assinado numa cerim\u00f4nia em Meyrin, na fronteira Franco-Su\u00ed\u00e7a \u2014onde o centro est\u00e1 situado\u2014, pelo ministro da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00f5es, Marcos Pontes, que deixar\u00e1 o cargo agora em mar\u00e7o. Com a ades\u00e3o, o governo brasileiro espera expandir o interc\u00e2mbio de pesquisadores e trazer lucro para o setor produtivo, j\u00e1 que agora empresas nacionais poder\u00e3o participar de licita\u00e7\u00f5es para fornecer equipamentos ao centro europeu.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 reconfortante ver que o trabalho que come\u00e7amos l\u00e1 atr\u00e1s deu algum fruto, porque o Cern n\u00e3o \u00e9 qualquer laborat\u00f3rio. \u00c9 um centro que foi constru\u00eddo ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial para agregar a ci\u00eancia de toda a Europa&#8221;, diz o professor S\u00e9rgio Novaes, do Instituto de F\u00edsica Te\u00f3rica da Unesp (Universidade Estadual Paulista), em S\u00e3o Paulo, que participa de pesquisas do Cern h\u00e1 mais de 30 anos.<\/p>\n<p>&#8220;Essa ades\u00e3o \u00e9 muito importante para expandir a participa\u00e7\u00e3o do Brasil na comunidade cient\u00edfica internacional&#8221;, completa.<\/p>\n<p>Cientistas brasileiros j\u00e1 colaboram de forma ativa com alguns experimentos do Cern desde a d\u00e9cada de 1980. Como membro associado, por\u00e9m, o Brasil poder\u00e1 ter, por exemplo, acesso priorit\u00e1rio a postos de dire\u00e7\u00e3o, est\u00e1gios cient\u00edficos de longa dura\u00e7\u00e3o e cursos de curta dura\u00e7\u00e3o no laborat\u00f3rio.<\/p>\n<h3>A import\u00e2ncia do Cern<\/h3>\n<p>Fundado em 1954, o Cern \u00e9 reconhecido pela pesquisa em f\u00edsica de altas energias, \u00e1rea que estuda as intera\u00e7\u00f5es fundamentais da natureza. Foi l\u00e1 que os cientistas tamb\u00e9m criaram a primeira tela sens\u00edvel ao toque (touch screen, em ingl\u00eas) e onde foi feita a primeira tomografia computadorizada por emiss\u00e3o de p\u00f3sitrons (Pet-scan). Ele \u00e9 detentor do maior acelerador de part\u00edculas do mundo.<\/p>\n<p>S\u00e3o mais de 12.200 cientistas de 110 nacionalidades, oriundos de institui\u00e7\u00f5es em mais de 70 pa\u00edses, contribuindo com experimentos e an\u00e1lise de dados, segundo informa\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio centro. Atualmente, o laborat\u00f3rio conta com 23 membros plenos, incluindo Alemanha, Reino Unido, Su\u00ed\u00e7a, Portugal e Israel.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 cerca de 50 pa\u00edses n\u00e3o-membros cujos cientistas e universidades cooperam com as pesquisas de forma independente, como Chile, Canad\u00e1 e China \u2014 esse era tamb\u00e9m o caso do Brasil.<\/p>\n<h3>12 anos de espera<\/h3>\n<p>A filia\u00e7\u00e3o nacional ao Cern era um desejo antigo da comunidade cient\u00edfica brasileira. As negocia\u00e7\u00f5es para que o pa\u00eds se tornasse um membro associado come\u00e7aram oficialmente em 2010, quando o laborat\u00f3rio passou a aceitar membros fora da Europa, e o Brasil demonstrou interesse de fazer parte do grupo.<\/p>\n<p>Mas idas e vindas &#8220;mais pol\u00edticas do que cient\u00edficas&#8221;, segundo pesquisadores brasileiros ouvidos por Tilt, impediram o progresso da ades\u00e3o. A troca de ministros da ci\u00eancia e tecnologia durante esse per\u00edodo, de 2010 a 2018, por exemplo, ocorreu nove vezes.<\/p>\n<p>A oficializa\u00e7\u00e3o do acordo agora depende da aprova\u00e7\u00e3o do Congresso, uma vez que a filia\u00e7\u00e3o \u00e9 um compromisso que se estende para al\u00e9m de mandatos. O prazo para isso ocorrer, segundo prev\u00ea o Cern, \u00e9 de at\u00e9 um ano.<\/p>\n<h3>Deveres do Brasil e contribui\u00e7\u00f5es para a ci\u00eancia<\/h3>\n<p>A partir do momento em que um pa\u00eds se torna membro associado, ele passa a ter &#8220;deveres e privil\u00e9gios especiais&#8221;, informa o Cern. Isso significa que o pa\u00eds ter\u00e1 de contribuir financeiramente com os custos operacionais do centro e, em contrapartida, poder\u00e1 ter suas empresas sendo contratadas para prover bens e servi\u00e7os aos experimentos cient\u00edficos realizados no local.<\/p>\n<p>A estimativa \u00e9 de que o governo brasileiro ter\u00e1 de pagar US$ 10 milh\u00f5es por ano para ajudar com os custos de manuten\u00e7\u00e3o do laborat\u00f3rio, valor que seria revertido com as empresas brasileiras sendo contratadas para prestar servi\u00e7os ao centro europeu. O acordo inclui a participa\u00e7\u00e3o no mercado de licita\u00e7\u00f5es da ordem de US$ 500 milh\u00f5es anuais.<\/p>\n<p>O f\u00edsico Marcelo Gameiro Munhoz, professor do IF-USP (Instituto de F\u00edsica da Universidade de S\u00e3o Paulo), acredita que o acelerador de part\u00edculas Sirius, localizado em Campinas, no interior de S\u00e3o Paulo, \u00e9 um exemplo de que a ind\u00fastria brasileira tamb\u00e9m tem capacidade para responder \u00e0s demandas de alta tecnologia do centro europeu, que v\u00e3o desde eletro\u00edm\u00e3s e magnetos a sensores sofisticados.<\/p>\n<p>Munhoz tamb\u00e9m \u00e9 um dos coordenadores do chip &#8220;Sampa&#8221; \u2014 dispositivo brasileiro produzido em Taiwan que equipa um dos experimentos do Cern.<\/p>\n<p>A expectativa do MCTI \u00e9 de que as reservas de ni\u00f3bio do pa\u00eds \u2014uma das maiores do mundo\u2014 tamb\u00e9m sejam \u00fateis \u00e0 produ\u00e7\u00e3o dos \u00edm\u00e3s utilizados nos experimentos do Cern, j\u00e1 que eles t\u00eam como componentes majorit\u00e1rios ligas de ni\u00f3bio e tit\u00e2nio.<\/p>\n<p>A contrata\u00e7\u00e3o de empresas brasileiras para o fornecimento de bens ao laborat\u00f3rio europeu tamb\u00e9m pode aumentar a competitividade da ind\u00fastria nacional, segundo Luiz Vitor de Souza, pesquisaador do IFSC-USP (Instituto de F\u00edsica de S\u00e3o Carlos da Universidade de S\u00e3o Paulo) e um dos l\u00edderes do CTA (Cherenkov Telescope Array), maior rede de telesc\u00f3pios do mundo \u2014 que n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com o Cern.<\/p>\n<p>O acordo tamb\u00e9m ir\u00e1 beneficiar a forma\u00e7\u00e3o de novos pesquisadores e estudantes em tecnologias de um modo geral no Brasil, explica Alberto Santoro, professor da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e uma das principais refer\u00eancias na f\u00edsica de part\u00edculas e altas energias do pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;O Cern \u00e9 um laborat\u00f3rio fant\u00e1stico, um ambiente estimulante onde todo estudante de engenharia, f\u00edsica e assimilados gostariam de ter essa oportunidade num futuro pr\u00f3ximo&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Receio de abandono por aqui<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que o Brasil se filia ao maior centro mundial de pesquisas na \u00e1rea da f\u00edsica, no entanto, um &#8220;buraco negro&#8221; nacional preocupa os cientistas: a falta de investimentos para financiar esse campo.<\/p>\n<p>Muitos pesquisadores temem que o acordo n\u00e3o trar\u00e1 resultados efetivos caso o governo brasileiro n\u00e3o invista no setor, aponta Novaes, que tamb\u00e9m \u00e9 um dos poucos brasileiros que participaram da descoberta no Cern do b\u00f3son de Higgs, part\u00edcula respons\u00e1vel pela massa de todas as outras part\u00edculas fundamentais.<\/p>\n<p>&#8220;Essa verba pode at\u00e9 reverter para a ind\u00fastria nacional, mas esse acordo s\u00f3 vai fazer sentido no m\u00e9dio e longo prazo se houver um financiamento efetivo da ci\u00eancia no Brasil&#8221;, ressalta.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 uma panaceia que possa nos livrar dos nossos problemas. Claro que ajuda, mas tamb\u00e9m \u00e9 preciso ter um empenho do pa\u00eds para fortalecer a ind\u00fastria do Brasil, a fim de que tenhamos condi\u00e7\u00f5es de atender a essas poss\u00edveis demandas&#8221;, completa Sandra Padula, professora do IFT-Unesp (Instituto de F\u00edsica Te\u00f3rica) e pesquisadora de \u00edons pesados no Cern. Ela \u00e9 uma das 50 mulheres protagonistas da ci\u00eancia brasileira na \u00e1rea de Ci\u00eancias Exatas e da Terra pelo projeto Open Box da Ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Manter a enorme estrutura de mais de 7 bilh\u00f5es de euros em funcionamento no Cern n\u00e3o \u00e9 uma tarefa barata. Por isso, a organiza\u00e7\u00e3o pede anualmente que cada professor doutor que participa das pesquisas contribua com as taxas de manuten\u00e7\u00e3o e atualiza\u00e7\u00e3o dos equipamentos. &#8220;Isso vai na casa de US$ 10 mil por pesquisador que assina artigo por ano, mais ou menos&#8221;, diz o f\u00edsico S\u00e9rgio Novaes, da Unesp.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o, naturalmente, os pesquisadores que pagam por essa taxa, mas as institui\u00e7\u00f5es em que trabalham e as ag\u00eancias de fomento, como CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico) e Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp). O problema \u00e9 que isso n\u00e3o tem sido suficiente.<\/p>\n<p>Segundo a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia), s\u00f3 o or\u00e7amento para o Capes, \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel por regular e fomentar os programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, teve uma grande redu\u00e7\u00e3o. Em 2012, era de R$ 5,13 bilh\u00f5es, e neste ano, 2022, o or\u00e7amento \u00e9 de R$ 3,8 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Todo ano \u00e9 uma surpresa. O CNPq tem contribu\u00eddo com uma quantia de forma bastante regular nos \u00faltimos anos, mas n\u00e3o \u00e9 suficiente, a\u00ed a gente vai l\u00e1 e apela para o Minist\u00e9rio de Ci\u00eancia e Tecnologia. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o muito ruim&#8221;, diz Marcelo Munhoz, do IFUSP, que foi ao congresso nacional negociar o pagamento da taxa junto a outros membros da Renafe (Rede Nacional de F\u00edsica de Altas Energias), cinco anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Para S\u00e9rgio Novaes, cabe ao minist\u00e9rio criar um mecanismo perene e cont\u00ednuo, que envolva a contribui\u00e7\u00e3o de ag\u00eancias de fomento federais e estaduais, para o financiamento dessas taxas. &#8220;Ser\u00e1 absolutamente rid\u00edculo se o pa\u00eds pagar anualmente a taxa que nos cabe [de US$ 10 milh\u00f5es] para permanecer membros e, ao mesmo tempo, os pesquisadores n\u00e3o serem financiados \u00e0 altura para alavancar a ci\u00eancia&#8221;, diz o professor.<\/p>\n<p>A f\u00edsica Sandra Padula, da Unesp, espera que a ades\u00e3o brasileira ao centro europeu chame a aten\u00e7\u00e3o do pa\u00eds para a necessidade do financiamento fixo de taxas necess\u00e1rias para que os cientistas continuem desenvolvendo suas pesquisas. Mas n\u00e3o s\u00f3: ela ressalta que \u00e9 urgente investir e fortalecer os centros nacionais.<\/p>\n<p>Veterano nas pesquisas do Cern, Alberto Santoro concorda. &#8220;Temos que primeiro instrumentar os laborat\u00f3rios brasileiros para depois darmos uma grande contribui\u00e7\u00e3o ao Cern. Caso contr\u00e1rio, vamos sempre receber tarefas e n\u00e3o ocuparemos a lideran\u00e7a&#8221;, diz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por UOL Tilt em 14\/03\/2022 Ap\u00f3s mais de tr\u00eas d\u00e9cadas colaborando com projetos do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern, na sigla em franc\u00eas), o Brasil assinou no \u00faltimo dia&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1163,1208,12],"tags":[],"class_list":["post-25922","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-clipping-cnpem","category-releases-cnpem","category-clipping-lnls","category-1163","category-1208","category-12","description-off"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.3 - 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