{"id":22231,"date":"2020-04-17T20:38:06","date_gmt":"2020-04-17T20:38:06","guid":{"rendered":"https:\/\/cnpem.staging.wpengine.com\/?p=22231"},"modified":"2026-03-02T15:59:27","modified_gmt":"2026-03-02T18:59:27","slug":"ciencia-em-krakatoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cnpem.br\/en\/ciencia-em-krakatoa\/","title":{"rendered":"CI\u00caNCIA EM KRAKATOA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/ciencia-em-krakatoa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Piau\u00ed<\/a>, 04\/2020<\/em><\/p>\n<div class=\"post-img\" style=\"text-align: justify;\">\n<div><\/div>\n<div class=\"post-legenda\">A ci\u00eancia esmagada: \u201cRememoro o proselitismo criacionista do atual presidente da Capes, Benedito Guimar\u00e3es Aguiar Neto. Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo! Estamos perdidos\u201d<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"ad-topo\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"post-inner\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"capitalize\">S<\/span>ol a pino na sacada de uma cidade colonial dos tr\u00f3picos. Calor, muito calor. O que est\u00e1 acontecendo, como foi que cheguei at\u00e9 aqui? Sou cientista, claro, disso me lembro bem. Mas o que foi que aconteceu? \u00c9 dif\u00edcil avaliar os danos sem saber de onde partimos. Conv\u00e9m repassar o que vi, ouvi, li e vivi.<\/p>\n<p>Conheci o fisiologista vegetal Luiz Fernando Gouv\u00eaa Labouriau em 1989, na Universidade de Bras\u00edlia, por interm\u00e9dio do microbiologista Isaac Roitman e da antrop\u00f3loga Mireya Su\u00e1rez. Foi amor \u00e0 primeira vista. A barba cerrada do c\u00e9lebre cientista j\u00e1 estava toda branca e seus olhos azuis eram ultrajovens, coriscando de intelig\u00eancia. Tive a sorte de ser seu aluno e frequentei por v\u00e1rios anos o seu laborat\u00f3rio. Durante o dia, germina\u00e7\u00e3o de sementes e bases da matem\u00e1tica. Durante a noite, hist\u00f3rias de cientistas exemplares e explora\u00e7\u00e3o astron\u00f4mica. Sub\u00edamos ao teto do laborat\u00f3rio por uma escada dobr\u00e1vel para explorar a Via L\u00e1ctea com o telesc\u00f3pio do mestre. Sob as estrelas, cercado de disc\u00edpulos, ele narrava os mitos de cria\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia brasileira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1900 A 1934<br \/>\n<\/strong><em>Cria\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), da Academia Brasileira de Ci\u00eancias (ABC), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o (ABE), do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP)<\/em>.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">E<\/span>sse \u00e9 o tempo dos her\u00f3is vision\u00e1rios que, com enorme esfor\u00e7o pessoal, come\u00e7aram a mudar o destino de uma na\u00e7\u00e3o inteira, inspirando sucessivas gera\u00e7\u00f5es de jovens a se tornar profissionais da curiosidade. Carlos Chagas, Oswaldo Cruz, \u00c1lvaro e Miguel Os\u00f3rio de Almeida: Evo\u00e9, pioneiros! Finalmente germinava por aqui a ideia de que o ensino e a pesquisa s\u00e3o essenciais para a sociedade. Embora dom Jo\u00e3o VI tenha criado o Jardim Bot\u00e2nico e o Museu Nacional no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX \u2013 e a despeito do esfor\u00e7o educacional realizado pelo militar e engenheiro Benjamin Constant no final do mesmo s\u00e9culo \u2013 foi apenas em 1909 que surgiu nossa primeira universidade, hoje Universidade Federal do Amazonas. Est\u00e1vamos come\u00e7ando a deixar para tr\u00e1s quatro s\u00e9culos de atraso, pois a primeira universidade das Am\u00e9ricas foi criada na Rep\u00fablica Dominicana em 1538.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 de 3 de dezembro de 1928, um grupo de intelectuais sobrevoou o navio que trazia ao Rio de Janeiro o grande Alberto Santos Dumont. O plano era lan\u00e7ar flores em sauda\u00e7\u00e3o ao \u201cgrande brasileiro\u201d que tinha elevado \u201co nome da p\u00e1tria no estrangeiro\u201d. Entre eles, estava o matem\u00e1tico Manuel Amoroso Costa, diretor da ABC e presidente da ABE, uma das primeiras institui\u00e7\u00f5es a defender o modelo universit\u00e1rio voltado para a pesquisa. Devido a uma manobra errada, o avi\u00e3o despencou na Ba\u00eda de Guanabara. Ningu\u00e9m se salvou.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m perdeu a vida nesse acidente outro fundador da ABE, Ferdinando Labouriau. Tr\u00eas semanas antes da trag\u00e9dia, esse catedr\u00e1tico de metalurgia havia publicado na revista <em>O Cruzeiro<\/em> uma especula\u00e7\u00e3o cient\u00edfica sobre o futuro. Previu corretamente que no ano 2000 o Brasil teria cerca de 200 milh\u00f5es de habitantes, vaticinando a internet com incr\u00edvel clarivid\u00eancia. Escreveu ele: \u201cAs viagens e os pr\u00f3prios passeios diminu\u00edram muito, desde que, sem sair de casa, pode-se ver o que h\u00e1 em qualquer parte da Terra: a televis\u00e3o, juntada \u00e0 telefonia, modificou radicalmente os h\u00e1bitos. N\u00e3o h\u00e1 necessidade de sair para fazer compras: v\u00ea-se, escolhe-se, encomenda-se tudo pelo telefone-televisor autom\u00e1tico. N\u00e3o h\u00e1 mais necessidade de viajar para ver terras long\u00ednquas: \u00e9 s\u00f3 ligar o receptor, e visita-se, comodamente, qualquer museu, ou qualquer pa\u00eds.\u201d A vi\u00fava de Ferdinando, professora Judith Labouriau, conseguiu criar os tr\u00eas filhos. E fundou escolas rurais.<\/p>\n<p>Em 1930, onze dias depois de assumir o poder, Get\u00falio Vargas criou o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade P\u00fablica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1948 A 1962<br \/>\n<\/strong><em>Cria\u00e7\u00e3o da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC), do Centro Brasileiro de Pesquisas F\u00edsicas (CBPF), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq), da Coor<\/em><em>dena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de<\/em><em> N\u00edvel Superior (Capes), do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico (BNDE), do Instituto de Matem\u00e1tica Pura e Aplicada (Impa), da Comiss\u00e3o Nacional de Energia Nuclear (CNEN), da Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o e da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp).<\/em><\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">N<\/span>esse per\u00edodo surgiram centros de excel\u00eancia, \u00f3rg\u00e3os de fomento e sociedades cient\u00edficas que, nas d\u00e9cadas seguintes, transformaram o Brasil em l\u00edder tecnol\u00f3gico e industrial da Am\u00e9rica do Sul. No segundo governo de Get\u00falio Vargas, havia a compreens\u00e3o do imperativo geopol\u00edtico de investir em ci\u00eancia, finalmente reconhecida como o verdadeiro sal da terra, capaz de transformar o pa\u00eds numa sociedade de bem-estar geral. A superioridade tecnol\u00f3gica do Ex\u00e9rcito dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial marcou toda uma gera\u00e7\u00e3o de oficiais brasileiros, que come\u00e7ava a se dar conta da necessidade de colocar o Brasil nos trilhos do desenvolvimento de t\u00e9cnicas e ideias.<\/p>\n<p>Assim, o primeiro presidente do CNPq foi o almirante \u00c1lvaro Alberto da Mota e Silva, catedr\u00e1tico de qu\u00edmica da Escola Naval do Rio de Janeiro e ex-presidente da ABC. Na mesma \u00e9poca, com a miss\u00e3o de implantar a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio nacional, foi institu\u00edda a Capes, sob a lideran\u00e7a do educador An\u00edsio Teixeira, que pouco depois se tornaria presidente da SBPC. Fundada pelo farmacologista Maur\u00edcio Rocha e Silva, o jornalista Jos\u00e9 Reis e o bi\u00f3logo Paulo Sawaya, a SBPC logo demonstrou uma efervesc\u00eancia c\u00edvica capaz de amadurecer uma nova vis\u00e3o de Brasil, baseada na excel\u00eancia da pesquisa b\u00e1sica, na relev\u00e2ncia da pesquisa aplicada e na ousadia da inova\u00e7\u00e3o. Um grupo de trabalho da SBPC, criado por An\u00edsio Teixeira e coordenado pelo antrop\u00f3logo Darcy Ribeiro, daria origem \u00e0 Universidade de Bras\u00edlia, com sua estrutura departamental livre das r\u00edgidas c\u00e1tedras.<\/p>\n<p>Entre os primeiros bolsistas do CNPq a viajar para o exterior estava um jovem e brilhante patriota: Luiz Fernando Gouv\u00eaa Labouriau, filho de Ferdinando Labouriau. Bot\u00e2nico autodidata, ele fora aluno de \u00c1lvaro Alberto na Escola Naval e trabalhara em Manguinhos, no Museu Nacional e no Jardim Bot\u00e2nico. Com a bolsa do CNPq, estudou no Instituto de Tecnologia da Calif\u00f3rnia onde teve a oportunidade de ser treinado por ningu\u00e9m menos que Frits Went, que nos anos 1920 havia descoberto os primeiros horm\u00f4nios vegetais, as auxinas.<\/p>\n<p>Depois de regressar do doutorado, Labouriau fundou a fisiologia vegetal no Brasil. Nos anos 1950, sua formid\u00e1vel trajet\u00f3ria representava o investimento in\u00e9dito do Estado brasileiro na forma\u00e7\u00e3o em alt\u00edssimo n\u00edvel de uma nova gera\u00e7\u00e3o de cientistas, extremamente qualificados e, no anglicismo t\u00e3o a gosto do mercado, disruptivos. Lan\u00e7adas as bases do nosso Sistema Nacional de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o (SNCTI), estava dada a largada para a constru\u00e7\u00e3o de uma verdadeira soberania \u2013 e seus frutos n\u00e3o tardaram a ser colhidos, ainda que debaixo da chuva grossa da ditadura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1967 A 1975<br \/>\n<\/strong><em>Cria\u00e7\u00e3o da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Fundo Nacional de <\/em><em>Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (FNDCT), da Empresa Brasileira de Ae<\/em><em>ron\u00e1utica (Embraer), do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi),\u00a0 da Empresa Brasileira de Pesquisa Agro<\/em><em>pecu\u00e1ria (Embrapa), do Instituto Nacional<\/em><em> de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) e do Programa Nacional do \u00c1lcool (Pro\u00e1lcool).<\/em><\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">E<\/span>nquanto perseguia pesquisadores, professores e estudantes, e expurgava universidades e institutos de seus comunistas, anarquistas e insubmissos em geral at\u00e9 chegar \u00e0 simples ca\u00e7ada de desafetos, o governo militar paradoxalmente lan\u00e7ou as bases para a estrutura\u00e7\u00e3o de um pujante setor inovador. Atrav\u00e9s do FNDCT, a Finep construiu e equipou centenas de laborat\u00f3rios de pesquisa, fomentando a aquisi\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento de equipamentos de alta complexidade por universidades, institutos e empresas.<\/p>\n<p>Em 1969 foi criada a Embraer, que alcan\u00e7ou excel\u00eancia mundial na fabrica\u00e7\u00e3o de aeronaves de pequeno e m\u00e9dio porte. Ainda nos anos 1960, no munic\u00edpio fluminense de Serop\u00e9dica, a agr\u00f4noma Johanna D\u00f6bereiner descobriu como utilizar bact\u00e9rias para fixar nitrog\u00eanio, eliminando o uso de adubos nitrogenados e barateando a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Nas d\u00e9cadas seguintes, o impacto dessa descoberta seria maximizado pelo investimento consistente no melhoramento gen\u00e9tico levado a cabo pela Embrapa.<\/p>\n<p>Em 1975 foi lan\u00e7ado o Pro\u00e1lcool, bem-sucedido programa de substitui\u00e7\u00e3o de derivados de petr\u00f3leo. O vasto Planalto Central, antes considerado ermo e improdutivo, passou a ser um dos maiores celeiros do mundo. Em poucos anos, realizamos uma revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que transformou veredas em soja, combust\u00edveis f\u00f3sseis em ind\u00fastria automobil\u00edstica, cana-de-a\u00e7\u00facar em etanol, engenharia em carros e avi\u00f5es. Sem perder de vista o desastre ambiental causado por esse modelo, o fato \u00e9 que a ci\u00eancia passou a impulsionar fortemente a economia.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m um per\u00edodo de acirramento da luta pela redemocratiza\u00e7\u00e3o e do retorno dos exilados, com grande protagonismo da SBPC. Ainda antes da anistia geral, a UFRJ conseguiu reintegrar o f\u00edsico Jos\u00e9 Leite Lopes e o antrop\u00f3logo Darcy Ribeiro. Por meio da ABC e da atua\u00e7\u00e3o de personalidades, como Leite Lopes, aumentou a press\u00e3o para a cria\u00e7\u00e3o de um minist\u00e9rio exclusivamente dedicado \u00e0 ci\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1985 A 2002<br \/>\n<\/strong><em>Cria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tec<\/em><em>nologia (MCT), promulga\u00e7\u00e3o da nova Cons<\/em><em>titui\u00e7\u00e3o Federal, Fundo de Manuten\u00e7\u00e3o e <\/em><em>Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valoriza\u00e7\u00e3o do Magist\u00e9rio (Fundef) e cria\u00e7\u00e3o dos fundos setoriais.<\/em><\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">A<\/span>redemocratiza\u00e7\u00e3o trouxe para a Esplanada, em Bras\u00edlia, um novo minist\u00e9rio exclusivamente dedicado \u00e0 ci\u00eancia e tecnologia, sob a autoridade moral do militar e diplomata Renato Archer. O novo ministro promoveu a repatria\u00e7\u00e3o de in\u00fameros cientistas brasileiros exilados durante a ditadura, entre eles Labouriau. Com a ajuda da atua\u00e7\u00e3o aguerrida da comunidade cient\u00edfica, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 consagrou os direitos \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, pesquisa cient\u00edfica, cultura e arte e determinou que essas atividades fossem efetivamente financiadas \u2013 mas n\u00e3o havia um arranjo legal que garantisse a exist\u00eancia de recursos. No in\u00edcio dos anos 1990, foi colocado em atividade o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) \u2013 cuja import\u00e2ncia para os brasileiros \u00e9 ainda mais evidente hoje, com a epidemia do coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>J\u00e1 no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, com a cria\u00e7\u00e3o do Fundef e os m\u00faltiplos fundos setoriais do MCT, surgiu um arcabou\u00e7o para financiar a multiplica\u00e7\u00e3o de laborat\u00f3rios de pesquisa de ponta no pa\u00eds e garantiu-se um m\u00ednimo de suporte para a educa\u00e7\u00e3o fundamental. Entretanto, o aumento real do financiamento cient\u00edfico precisou esperar o governo seguinte, pois no governo FHC os recursos do\u00a0FNDCT foram majoritariamente contingenciados.<\/p>\n<p>Era o in\u00edcio de minha forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, e eu ignorava tudo isso. Em uma noite de lua nova, Labouriau falou sobre os tunicados, animais que desafiam a zoologia por possu\u00edrem uma t\u00fanica de celulose. E ent\u00e3o disparou: \u201cSeria poss\u00edvel induzir seu crescimento utilizando um horm\u00f4nio vegetal?\u201d Siderado por essa pergunta selvagem, me lancei em plenas f\u00e9rias de julho numa viagem de mais de 1 mil km at\u00e9 o Centro de Biologia Marinha da USP, em S\u00e3o Sebasti\u00e3o. Como dizia o mestre, \u201cpara tudo h\u00e1 o pre\u00e7o de ter e de n\u00e3o ter\u201d. Labouriau pagou pelos aqu\u00e1rios e equipamentos, a mim coube a passagem de avi\u00e3o. Mergulhei no mar gelado, coletei dezenas de tunicados e os transportei vivos at\u00e9 o laborat\u00f3rio do professor Labouriau em Bras\u00edlia. L\u00e1 hav\u00edamos instalado aqu\u00e1rios de \u00e1gua marinha bem controlados, em todos os par\u00e2metros poss\u00edveis, a fim de receber os tunicados em pleno Cerrado. Meses depois, saldamos juntos a fatura final da frustra\u00e7\u00e3o, quando as auxinas se mostraram incapazes de fazer os animais crescerem. Mas valeu a pena. Resultados negativos ensinam muito.<\/p>\n<p>Em 1994 cursei o mestrado no Instituto de Biof\u00edsica Carlos Chagas Filho da UFRJ, sob a orienta\u00e7\u00e3o do neurocientista Ricardo Gattass. Meu trabalho buscava demonstrar que o c\u00e9rebro do gato possui <em>blobs<\/em>, estruturas neurais particularmente adaptadas \u00e0 vis\u00e3o colorida, at\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 observadas em primatas. O projeto havia sido iniciado na Universidade de Bras\u00edlia com os neurocientistas Marco Marcondes de Moura, Valdir Pessoa e Paulo Saraiva, mas era um per\u00edodo muito dif\u00edcil para fazer pesquisa fora do eixo Rio-S\u00e3o Paulo. A precariedade se fazia evidente na utiliza\u00e7\u00e3o de reagentes vencidos, na falta de regula\u00e7\u00e3o para o uso de animais em pesquisa, nas bibliotecas deficientes, nos sal\u00e1rios achatados e nas bolsas defasadas. Mesmo com tantas limita\u00e7\u00f5es, insist\u00edamos em buscar num felino os <em>blobs<\/em>supostamente espec\u00edficos dos primatas.<\/p>\n<p>A ida para a UFRJ me abriu novos horizontes. L\u00e1 encontrei pela primeira vez muitos artigos cient\u00edficos que buscara em v\u00e3o na UnB. Em 30 de abril, varei com meus companheiros a noite de s\u00e1bado para domingo em busca de uma demonstra\u00e7\u00e3o conclusiva da exist\u00eancia dos <em>blobs<\/em> em gatos. Quando finalmente deixamos o laborat\u00f3rio, com o Sol j\u00e1 alto, nos inteiramos que Ayrton Senna havia morrido tragicamente. Al\u00e9m do homem, morria um s\u00edmbolo da excel\u00eancia brasileira. Por meses enfrentamos ceticismo quanto \u00e0 exist\u00eancia dos <em>blobs<\/em> em felinos. Alguns colegas s\u00f3 acreditaram quando viram resultados id\u00eanticos publicados por pesquisadores estrangeiros.<\/p>\n<p>Em 1995 comecei o doutorado na Universidade Rockefeller, em Nova York. Se a mudan\u00e7a de Bras\u00edlia para o Rio de Janeiro havia sido f\u00e9rtil, a ida para Nova York provocou uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o. Aquela pequena universidade de pesquisa biom\u00e9dica de Manhattan possu\u00eda mais pr\u00eamios Nobel por metro quadrado do que qualquer outra institui\u00e7\u00e3o do planeta. Logo no in\u00edcio o decano me esclareceu que, assim como todos os doze alunos admitidos anualmente, eu teria carta branca para pesquisar o que quisesse, com recursos diretamente oriundos da universidade, sem liga\u00e7\u00e3o espec\u00edfica com nenhum laborat\u00f3rio, a fim de maximizar a liberdade. A biblioteca do Founder\u2019s Hall, edifica\u00e7\u00e3o mais antiga da universidade inaugurada em 1901, possu\u00eda n\u00e3o apenas alguns dos artigos que eu gostaria de ler: tinha todos eles, sem exce\u00e7\u00e3o, desde o final do s\u00e9culo XIX at\u00e9 o presente.<\/p>\n<p>Sob a supervis\u00e3o dos neurocientistas Claudio Mello e Fernando Nottebohm e com a mentoria de Constantine Pavlides, pesquisei aspectos moleculares e anat\u00f4micos do funcionamento cerebral de p\u00e1ssaros e ratos, buscando compreender de que forma o canto \u00e9 codificado e qual o papel do sono na consolida\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias. Nunca fui t\u00e3o livre nem feliz na ci\u00eancia quanto naqueles anos m\u00e1gicos em que tudo parecia poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Junto com Mello e o tamb\u00e9m neurocientista Sergio Neuenschwander, comecei a imaginar a constru\u00e7\u00e3o de um novo instituto para pesquisar o c\u00e9rebro no Brasil. Em 1998 falamos de nosso sonho de repatria\u00e7\u00e3o ao neurocientista Torsten Wiesel, ent\u00e3o presidente da Universidade Rockefeller. Pr\u00eamio Nobel de Medicina de 1981 pela descoberta de mecanismos fundamentais do sistema visual, Wiesel nos alertou que levar\u00edamos muito tempo para atingir aquele objetivo e mesmo assim nos encorajou a seguir adiante.<\/p>\n<p>Em 2000, iniciei meus estudos de p\u00f3s-doutoramento na Universidade Duke, sob a supervis\u00e3o do neurocientista Miguel Nicolelis. Nossa pesquisa revelou mecanismos eletrofisiol\u00f3gicos e g\u00eanicos respons\u00e1veis pelo fortalecimento, apagamento e modifica\u00e7\u00e3o das mem\u00f3rias durante o sono. Em 2003, embalados pelo compromisso do novo governo de diminuir desigualdades, parecia a hora certa de voltar \u00e0 ideia do instituto. Decidimos ent\u00e3o implantar um centro de neuroci\u00eancias de padr\u00e3o internacional em Natal, uma entidade capaz de repatriar brasileiros, atrair estrangeiros e treinar m\u00faltiplas gera\u00e7\u00f5es de jovens cientistas. Em outras palavras, fazer ci\u00eancia de ponta na periferia regional de um pa\u00eds perif\u00e9rico.<\/p>\n<p>Apesar de muito ousado, o plano n\u00e3o era desprovido de racionalidade. Natal \u00e9 uma cidade atraente para pessoas de todo o planeta. A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) mostrava franca ascens\u00e3o em \u00e1reas afins, como a psicobiologia. Al\u00e9m disso, estavam dadas novas condi\u00e7\u00f5es objetivas para a necess\u00e1ria revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do Terceiro Mundo. O acesso a computadores cada vez mais potentes e baratos aumentou muito a capacidade de coleta e an\u00e1lise de dados. Al\u00e9m disso, a virada do mil\u00eanio assistiu \u00e0 explosiva expans\u00e3o da<em> web,<\/em> que nos anos 1990 havia come\u00e7ado a disponibilizar, em tempo real, as publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas mais recentes. No ano 2000 foi lan\u00e7ado o Portal de Peri\u00f3dicos da Capes, que ainda hoje d\u00e1 acesso gratuito a mais de 48 mil publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. Passou a ser corriqueiro, para todo aluno de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, ter acesso imediato a quaisquer artigos de interesse. O atraso de meses ou anos para se inteirar das descobertas realizadas nos pa\u00edses do Primeiro Mundo, uma desvantagem sist\u00eamica desde o in\u00edcio de nosso desenvolvimento, havia sido subitamente eliminada, liberando a imagina\u00e7\u00e3o de milhares de cientistas em todo o territ\u00f3rio nacional. O sonho futurista de Ferdinando Labouriau, em 1928, se tornara realidade no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2003 a 2010<br \/>\n<\/strong><em>Quadruplica\u00e7\u00e3o do investimento total em CT&amp;I (ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o), cria\u00e7\u00e3o do Fundo de Manuten\u00e7\u00e3o e Desenvol<\/em><em>vimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica e de Valoriza\u00e7\u00e3o dos Profissionais da Educa\u00e7\u00e3o (Fundeb), funda\u00e7\u00e3o de 14 universidades federais, 38 institutos federais de educa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia e tecnologia e 123 institutos nacionais de ci\u00eancia e tecnologia, e prioriza\u00e7\u00e3o de iniciativas al\u00e9m do eixo Rio-S\u00e3o Paulo, por meio da constru\u00e7\u00e3o de centros multiusu\u00e1rios de envergadura nacional.<\/em><\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">A<\/span>elei\u00e7\u00e3o do presidente Lula representou uma oportunidade \u00fanica de expans\u00e3o e amadurecimento para nossa ci\u00eancia, que passou a ser prioridade m\u00e1xima para o governo federal, mesmo durante a crise financeira de 2008. O mais duradouro e consistente per\u00edodo de nossa hist\u00f3ria com forte investimento em ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o teve efeitos muito positivos na quantidade e no impacto da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, bem como na forma\u00e7\u00e3o de recursos humanos qualificados e na desburocratiza\u00e7\u00e3o da pesquisa.<\/p>\n<p>Em paralelo, a destina\u00e7\u00e3o de 30% dos recursos oriundos dos fundos setoriais para as regi\u00f5es Norte, Nordeste e Centro-Oeste, iniciada em 1997 mas que s\u00f3 ganhou impulso relevante a partir de 2003, passou a fomentar a radica\u00e7\u00e3o de cientistas sudestinos e sulistas nas regi\u00f5es mais carentes do pa\u00eds. Em especial, sou da gera\u00e7\u00e3o de pesquisadores que enxergaram no Nordeste a Calif\u00f3rnia brasileira e para l\u00e1 emigraram, cheios de entusiasmo pelo seu povo, cultura e natureza. A fartura do financiamento de bolsas, projetos e equipamentos levou a um sentimento in\u00e9dito: \u201cAgora vai!\u201d<\/p>\n<p>De 2005 a 2010, sob o comando firme do f\u00edsico Sergio Rezende, do Departamento de F\u00edsica da Universidade Federal de Pernambuco, o MCT transformou-se num minist\u00e9rio verdadeiramente influente. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que o per\u00edodo mais potente de nossa trajet\u00f3ria cient\u00edfica tenha ocorrido sob a lideran\u00e7a de um cientista profissional de t\u00e3o alto calibre, que durante sua excepcional gest\u00e3o conseguiu seguir publicando a cada ano, sem exce\u00e7\u00e3o, artigos originais \u2013 muitos deles como \u00fanico autor.<\/p>\n<p>Articulado com as Funda\u00e7\u00f5es de Amparo \u00e0 Pesquisa (FAPs) que se espalharam pelos estados na trilha da Fapesp, o minist\u00e9rio come\u00e7ou a funcionar como eixo da rede p\u00fablico-privada necess\u00e1ria para o Brasil realizar um salto qualitativo. Em 2007, o Fundef foi ampliado para constituir o Fundeb, que inclui a educa\u00e7\u00e3o infantil, o ensino m\u00e9dio e a educa\u00e7\u00e3o de jovens e adultos. O pensamento cient\u00edfico come\u00e7ou a se espalhar pelo pa\u00eds como poderosa ferramenta de transforma\u00e7\u00e3o social, com a dissemina\u00e7\u00e3o de polos de ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o mesmo nas regi\u00f5es mais pobres.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o pol\u00edtica de criar fundos setoriais permitiu um salto mai\u00fasculo na infraestrutura cient\u00edfica do Brasil. O Fundo Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (FNDCT) recebeu cerca de 58 bilh\u00f5es de reais em recursos privados, com enorme retorno dos investimentos em ci\u00eancia e tecnologia. Os ganhos de produtividade da agricultura brasileira, por exemplo, est\u00e3o diretamente relacionados aos investimentos em pesquisa feitos pela Embrapa e universidades, que aumentaram drasticamente o rendimento da soja, gerando um faturamento de cerca de 15 bilh\u00f5es de reais ao ano. Racioc\u00ednio semelhante se aplica \u00e0 energia de fontes renov\u00e1veis, \u00e0 medicina de alta tecnologia e \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o de <em>startups<\/em>. Empresas de forte protagonismo internacional, como a Embraer, com carteira de 20 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, foram alavancadas por parcerias com universidades p\u00fablicas para inovar e formar pessoal. Na sa\u00fade, houve grande melhoria, com o enfrentamento assertivo de epidemias emergentes e o aumento da expectativa de vida dos brasileiros em quatro anos por d\u00e9cada.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia finalmente come\u00e7ava a expressar com nitidez seu gigantesco potencial de transformar o Brasil num pa\u00eds desenvolvido, equ\u00e2nime no acesso a uma vida digna, ambientalmente respons\u00e1vel, exportador de produtos e processos de alto valor agregado, apto a investir e reinvestir seus melhores recursos na educa\u00e7\u00e3o do povo para assim livrar-se do cachimbo que h\u00e1 quinhentos anos lhe entorta a boca: o arraigado colonialismo das trocas profundamente desiguais, tanto dentro da na\u00e7\u00e3o quanto no plano mundial.<\/p>\n<p>O governo Lula, \u00fanico a garantir contingenciamento zero do FNDCT, foi o \u00e1pice desse ciclo virtuoso, com um total de 10 bilh\u00f5es de reais efetivamente investidos em ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o, em 2010. Houve crescimento not\u00e1vel na quantidade e qualidade da pesquisa brasileira, com aumento substancial da produ\u00e7\u00e3o anual de publica\u00e7\u00f5es, cita\u00e7\u00f5es e patentes, e crescimento no n\u00famero de doutores por milh\u00e3o de habitantes. Rum\u00e1vamos para um investimento em\u00a0CT&amp;I pr\u00f3ximo de 2% do PIB.<\/p>\n<p>Datam desse per\u00edodo diversas iniciativas tecnol\u00f3gicas de grande alcance, como, por exemplo, a inven\u00e7\u00e3o de novas formas de explora\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s <em>offshore<\/em>, por meio da inova\u00e7\u00e3o na interface entre a Petrobras e o Instituto Alberto Luiz Coimbra de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o e Pesquisa de Engenharia (Coppe), da UFRJ. Essa interface levou \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um Laborat\u00f3rio de Tecnologia Oce\u00e2nica (LabOceano) para simula\u00e7\u00e3o realista da opera\u00e7\u00e3o de estruturas e equipamentos em \u00e1guas com at\u00e9 3 mil metros de profundidade. O pr\u00e9-sal hoje responde por 60% da produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo do Brasil, gerando 60 bilh\u00f5es de reais por ano.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o do governo federal de investir os royalties do pr\u00e9-sal em educa\u00e7\u00e3o e, se poss\u00edvel, em ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o, refor\u00e7ava a sensa\u00e7\u00e3o de que a ci\u00eancia nacional se tornara um gigantesco e poderoso transatl\u00e2ntico, cheio de partes sofisticadas muito bem articuladas, com produtividade crescente e avalia\u00e7\u00e3o de desempenho cada vez mais pr\u00f3xima dos melhores padr\u00f5es internacionais. De olhos fechados, vislumbro com nitidez aquela famosa capa da revista <em>The Economist<\/em> em 2009, com a imagem do Cristo Redentor rumando para o alto como se fosse um foguete prestes a romper a estratosfera. O t\u00edtulo n\u00e3o deixava d\u00favidas: \u201cO Brasil decola.\u201d<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o projeto de neuroci\u00eancias em Natal avan\u00e7ava. Em 2007, Fernando Haddad, ent\u00e3o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, criou vagas docentes e t\u00e9cnicas para suprir o quadro funcional que hoje constitui o Instituto do C\u00e9rebro da UFRN. A partir de 2008 foram realizados concursos para preencher tais vagas, e assim me tornei orgulhosamente professor da UFRN. A Finep realizou os primeiros aportes de recursos p\u00fablicos para o projeto, permitindo a aquisi\u00e7\u00e3o de equipamentos extremamente valiosos para o Instituto Internacional de Neuroci\u00eancias de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS).<\/p>\n<p>A promessa dessa parceria p\u00fablico-privada era atrair para Natal neurocientistas do mais alto n\u00edvel. A sensa\u00e7\u00e3o era de que j\u00e1 n\u00e3o havia nada entre o goleiro e o gol. O futuro era nosso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2011 a 2015<\/strong><br \/>\n<em>Cria\u00e7\u00e3o do Programa Ci\u00eancia sem Fronteiras e in\u00edcio do contingenciamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (FNDCT).<\/em><\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">S<\/span>\u00f3 que n\u00e3o. Do ponto de vista da ci\u00eancia, as gest\u00f5es da presidente Dilma Rousseff foram marcadas pelo profundo descompasso entre metas e resultados alcan\u00e7ados. O que come\u00e7ou com incr\u00edvel \u00edmpeto de expans\u00e3o, sem paralelo na hist\u00f3ria do pa\u00eds \u2013 a cria\u00e7\u00e3o de um ambicioso programa de bolsas de estudos no exterior, o Ci\u00eancia sem Fronteiras \u2013, paulatinamente evoluiu para a maior rasteira pol\u00edtica que os cientistas poderiam levar: o progressivo e implac\u00e1vel contingenciamento dos recursos e a perda gradual de prest\u00edgio do Minist\u00e9rio de Ci\u00eancia e Tecnologia, at\u00e9 este finalmente ser incorporado ao Minist\u00e9rio das Comunica\u00e7\u00f5es, no in\u00edcio do governo Michel Temer. Mas as coisas n\u00e3o pioraram r\u00e1pido, ao contr\u00e1rio. O volume de bolsas e aux\u00edlios vigentes era t\u00e3o grande que o\u00a0SNCTI ainda navegou alguns anos, por in\u00e9rcia.<\/p>\n<p>No caso do projeto de neuroci\u00eancias em Natal, o per\u00edodo foi marcado pelo div\u00f3rcio entre seus polos p\u00fablico e privado, resultando na funda\u00e7\u00e3o do Instituto do C\u00e9rebro da UFRN, em 13 de maio de 2011. Perdemos para o IINN-ELS todos os equipamentos e edif\u00edcios at\u00e9 ent\u00e3o existentes, mas retivemos a quase integralidade dos pesquisadores. A separa\u00e7\u00e3o acabou dando vaz\u00e3o a um enorme potencial criativo e obtivemos um aumento progressivo na quantidade e qualidade das publica\u00e7\u00f5es \u2013 333 artigos desde 2011, a maioria deles publicados em peri\u00f3dicos de alto impacto internacional. Em 2014, o neurocientista Torsten Wiesel liderou a primeira visita de avalia\u00e7\u00e3o de nosso Conselho Cient\u00edfico Internacional. Fomos aprovados, ouvimos recomenda\u00e7\u00f5es e seguimos adiante.<\/p>\n<p>O naufr\u00e1gio do SNCTI come\u00e7ou de modo quase impercept\u00edvel, com uma pequena fissura no casco do navio. O ponto de inflex\u00e3o \u2013 o momento em que o Titanic bateu no iceberg, muito antes de ir a pique \u2013 talvez tenha ocorrido em julho de 2011, quando o ent\u00e3o ministro da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o, Aloizio Mercadante, e a presidente Dilma Rousseff anunciaram que o Ci\u00eancia sem Fronteiras atingiria 100 mil estudantes \u2013 e que n\u00e3o seriam usados recursos j\u00e1 alocados para fomento em territ\u00f3rio nacional, pois haveria recursos extras. Isso parecia plaus\u00edvel naquele momento, j\u00e1 que desde 2010 havia a perspectiva \u2013 afinal implementada nos anos seguintes \u2013 de vincular \u00e0 educa\u00e7\u00e3o os royalties do petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Mas a realidade se mostrou cruel com essas expectativas. O pre\u00e7o do petr\u00f3leo despencou, e o Brasil entrou em feroz crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica. O superdimensionamento do Ci\u00eancia sem Fronteiras consumiu recursos internos, e o contingenciamento de recursos para o setor acabou se tornando norma. A p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ser asfixiada, lenta mas inexoravelmente, pois a expans\u00e3o das bolsas cessou e as vagas come\u00e7aram a escassear. Para piorar, em 2013 ocorreu o \u00faltimo reajuste das bolsas, cujos valores reais acabaram achatados em n\u00edveis completamente indignos \u2013 hoje, 1 500 reais para o mestrado, 2 200 reais para o doutorado, mensalmente, sem quaisquer direitos trabalhistas.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que a fonte de recursos secava, voltou a ser considerado normal os pesquisadores pagarem do pr\u00f3prio bolso por insumos, pequenos equipamentos e viagens a congressos cient\u00edficos. O cheiro de queimado come\u00e7ou a se espalhar.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, em junho de 2013, as cidades brasileiras explodiram. Como tantos compatriotas, cientistas de todas as especialidades sa\u00edram \u00e0s ruas para lutar por pautas progressistas, mas hoje sabemos que aquela convuls\u00e3o social marcou o come\u00e7o da ascens\u00e3o dos energ\u00famenos. Meros quatro anos depois da capa do Cristo Redentor decolando vitorioso, <em>The Economist<\/em> revisitou a ideia com sarcasmo, numa capa em que o Cristo-foguete perdia o rumo e embicava para baixo. O t\u00edtulo na capa era terr\u00edvel: \u201cO Brasil estragou tudo?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2016 A 2018<br \/>\n<\/strong><em>Impeachment presidencial, aprova\u00e7\u00e3o do teto de gastos p\u00fablicos por vinte anos, revers\u00e3o das bem-sucedidas pol\u00edticas cient\u00edficas e culturais adotadas na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo, incorpora\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o ao Minist\u00e9rio das Comunica\u00e7\u00f5es, aumento insensato do contingenciamento do FNDCT e corte de bolsas.<\/em><\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">A<\/span>conspira\u00e7\u00e3o que instalou Michel Temer na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica acelerou, de modo completamente irrespons\u00e1vel, o desmonte da ci\u00eancia brasileira. O novo governo se pautou por forte redu\u00e7\u00e3o dos investimentos na \u00e1rea, corte de bolsas e contingenciamento violento das verbas do fundo de fomento \u00e0 ci\u00eancia e tecnologia. A restri\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria das universidades motivou profundos cortes nos servi\u00e7os de seguran\u00e7a, limpeza e aquisi\u00e7\u00e3o de insumos b\u00e1sicos. No Instituto do C\u00e9rebro, dispensamos 50% dos vigilantes e passamos a adquirir a ra\u00e7\u00e3o dos animais de laborat\u00f3rio com recursos do pr\u00f3prio bolso.<\/p>\n<p>Para piorar, a grande maioria das FAPs estaduais entrou em colapso, perdendo a capacidade de honrar seus compromissos. Com a exce\u00e7\u00e3o da Fapesp, de S\u00e3o Paulo, projetos j\u00e1 iniciados tiveram seu financiamento abortado. Tornou-se rotina para os pesquisadores fora do \u00e2mbito da Fapesp cobrir custos de pesquisa com recursos pr\u00f3prios, aumentando as disparidades regionais. O tempo acelerou vertiginosamente, e a cat\u00e1strofe iminente come\u00e7ou a tirar o sono de quem compreende a gravidade da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2019 E 2020<br \/>\n<\/strong><em>Brutal restri\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria para CT&amp;I, inseguran\u00e7a quanto ao pagamento mensal de bolsas, demiss\u00e3o de dirigentes cient\u00edficos n\u00e3o alinhados com o governo federal e aumento do contingenciamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (FNDCT).<\/em><\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">I<\/span>nfelizmente, nada \u00e9 t\u00e3o ruim que n\u00e3o possa piorar. No governo Jair Bolsonaro, a ci\u00eancia \u2013 como tantas outras esferas da sociedade \u2013 sofreu ataques c\u00e1usticos em todos os n\u00edveis. Os recursos para as \u00e1reas de ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o regrediram aos n\u00edveis de vinte anos atr\u00e1s, com perda total dos ganhos obtidos na primeira d\u00e9cada. Em 2020, 87,7% do FNDCT est\u00e3o contingenciados. Do total de 4,9 bilh\u00f5es de reais, apenas 600 milh\u00f5es de reais estar\u00e3o efetivamente dispon\u00edveis. A parte do or\u00e7amento do CNPq destinada ao fomento cient\u00edfico encolheu 84,4% em 2020. O or\u00e7amento da Capes para 2020 \u00e9 32% menor do que o do ano anterior, com redu\u00e7\u00e3o de 26% nos recursos para bolsas de ensino superior e de 51% nos destinados \u00e0 capacita\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o continuada na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/p>\n<p>E isso n\u00e3o \u00e9 tudo. Por meio de portarias, decretos e medidas provis\u00f3rias, o governo atuou sistematicamente para extinguir a autonomia acad\u00eamica e gerencial das universidades, bem como a participa\u00e7\u00e3o de cientistas em conselhos federais ligados ao meio ambiente, \u00e0 pol\u00edtica de drogas, entre outros. O CNPq anunciou a centraliza\u00e7\u00e3o da sele\u00e7\u00e3o de bolsistas, retirando dos orientadores e seus pares a responsabilidade de escolher seus pr\u00f3prios estudantes. Candidatos a reitor em terceiro lugar na lista tr\u00edplice, com vota\u00e7\u00e3o irris\u00f3ria, v\u00eam sendo empossados \u2013 na Universidade Federal do Cear\u00e1, por exemplo, o reitor nomeado teve menos de 5% dos votos. Ecoa em minha mente o alerta do fil\u00f3sofo Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educa\u00e7\u00e3o, sobre o ataque frontal \u00e0 autonomia universit\u00e1ria representado pela Medida Provis\u00f3ria n\u00ba 914\/2019, que transformar\u00e1 reitores em interventores. Limita\u00e7\u00f5es \u00e0 livre circula\u00e7\u00e3o de pesquisadores em congressos cient\u00edficos foram publicadas no <em>Di\u00e1rio Oficial<\/em>, mas ap\u00f3s a inflamada rea\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica a medida foi suspensa.<\/p>\n<p>O impacto na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o foi enorme. Em 2019 foram canceladas 7 590 bolsas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no Brasil, sendo que a regi\u00e3o Nordeste foi a que mais perdeu, proporcionalmente. Tornou-se comum que estudantes sem bolsa recebam modestos aux\u00edlios financeiros de seus orientadores. Recentemente, tr\u00eas portarias \u2013 de n\u00fameros 18, 20 e 21 \u2013 avan\u00e7aram ainda mais no processo de destrui\u00e7\u00e3o da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, ao priorizar a concess\u00e3o de bolsas para programas que sejam bem avaliados pela Capes, mas desde que localizados em munic\u00edpios de baixo \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH).<\/p>\n<p>A medida, que aparentemente reduziria desigualdades, na pr\u00e1tica vai implodir o esfor\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es de excel\u00eancia fora do eixo Sul-Sudeste. Infelizmente, p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es com notas altas da Capes em munic\u00edpios muito pobres \u2013 os alvos priorit\u00e1rios da nova estrat\u00e9gia de financiamento \u2013 praticamente n\u00e3o existem. A p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em neuroci\u00eancias da UFRN, onde atuo, tem hoje trinta p\u00f3s-graduandos com bolsa e doze sem bolsa. Nas palavras de seu coordenador, Rodrigo Neves Romcy Pereira, tamb\u00e9m disc\u00edpulo de Labouriau: \u201ca medida ir\u00e1 asfixiar os novos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, que deveriam, pelo contr\u00e1rio, estar sendo apoiados e incentivados a gerar novos projetos. Inova\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e novas ideias, programas novos nas regi\u00f5es com potencial de crescimento.\u201d Uma cidade como Natal, capital de um estado perif\u00e9rico da Uni\u00e3o, com IDH relativamente alto, ser\u00e1 exclu\u00edda de quaisquer benef\u00edcios.<\/p>\n<p>E tem mais. A proposta de reforma administrativa apresentada pelo governo Bolsonaro pretende acabar com a estabilidade dos servidores, permitir a redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios e de jornadas, ampliar o est\u00e1gio probat\u00f3rio e reduzir o sal\u00e1rio de ingresso no servi\u00e7o p\u00fablico. Todas essas medidas, sem exce\u00e7\u00e3o, diminuem a capacidade do Brasil de recrutar cientistas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">E<\/span>m setembro de 2019, fiscais municipais a mando do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, fizeram busca e apreens\u00e3o de t\u00edtulos com tem\u00e1tica LGBTQ na Bienal do Livro. Lembrei-me da grande queima de livros pelos nazistas em 1933. No tr\u00e2nsito engarrafado perto do Riocentro, onde se realizava a bienal, converso longamente com o motorista de Uber sobre a crise. Depois de escutar calado meia hora de ufanismo bolsonarista, aproveito a deixa de uma pergunta ret\u00f3rica (\u201cConcorda?\u201d) e pe\u00e7o licen\u00e7a para discordar.<\/p>\n<p>Descrevo a humilha\u00e7\u00e3o dos pesquisadores que precisaram fazer v\u00e1rias mobiliza\u00e7\u00f5es nacionais em 2019 apenas para garantir a bolsa do pr\u00f3ximo m\u00eas. Explico que tenho v\u00e1rios alunos sem bolsa, os quais ajudo como posso. Dou testemunho da evas\u00e3o dos c\u00e9rebros mais preparados. Lamento a irresponsabilidade do governo em negar os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre as queimadas da Amaz\u00f4nia e pondero que a verdadeira riqueza da floresta n\u00e3o \u00e9 min\u00e9rio algum, e sim os genes e prote\u00ednas dos incr\u00edveis seres que l\u00e1 existem, cujos usos ancestrais s\u00f3 os \u00edndios conhecem e, portanto, \u00e9 preciso preservar e pesquisar, jamais destruir. O motorista diz constrangido: \u201cPuxa, nunca tinha pensado pelo seu lado.\u201d N\u00e3o me contenho: \u201cO nosso lado, n\u00e9? Pois tem muita ci\u00eancia no seu carro, no seu celular e tamb\u00e9m no aplicativo que voc\u00ea usa para trabalhar aqui.\u201d Ele concorda, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a, aparentemente convencido.<\/p>\n<p>Para piorar, em agosto de 2019 o Inpe teve seu ent\u00e3o presidente, o eminente f\u00edsico Ricardo Galv\u00e3o, exonerado e caluniado pelo presidente da Rep\u00fablica por ter divulgado dados indicando o aumento desenfreado do desmatamento da Amaz\u00f4nia. O tempo mostraria que os dados estavam corretos \u2013 quase 30% de aumento em 2019. Em dezembro, Galv\u00e3o foi inclu\u00eddo pela revista <em>Nature<\/em> na lista dos dez cientistas mais relevantes do ano.<\/p>\n<p>O brilho internacional de Galv\u00e3o contrasta com o obscurantismo que se dissemina pela sociedade. Assistimos estupefatos ao aparelhamento da Embrapa por ruralistas e ao fechamento de seus centros de pesquisa. Testemunhamos a venda da bem-sucedida Embraer para a Boeing, no auge da crise desta multinacional. Assistimos \u00e0 desestrutura\u00e7\u00e3o galopante do Inpi e do Inmetro. Estamos imersos numa guerra cultural regressiva de teor orwelliano, em que paz significa guerra, verdade significa mentira, amor significa tortura e abund\u00e2ncia significa fome.<\/p>\n<p>Existe resist\u00eancia, claro. A forte mobiliza\u00e7\u00e3o de entidades como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia e a Academia Brasileira de Ci\u00eancias, sobretudo por meio da Iniciativa para a Ci\u00eancia e Tecnologia no Parlamento (ICTP.br), conseguiu evitar o contingenciamento de diversos itens do or\u00e7amento de 2020, garantindo recursos para manter as bolsas do CNPq, mas n\u00e3o para ampli\u00e1-las, o que seria necess\u00e1rio para nosso desenvolvimento saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ao longo de 2019, a proposta de fundir o CNPq e a Capes foi defendida com veem\u00eancia pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, sem qualquer estudo de viabilidade ou simula\u00e7\u00e3o de pr\u00f3s e contras. A comunidade cient\u00edfica se op\u00f4s e conseguiu resistir, mas nesses primeiros meses de 2020 a batalha para salvar nossa ci\u00eancia se anuncia mais desesperada do que nunca. For\u00e7as poderosas se movimentam para destituir a Finep como secretaria-executiva e agente financeiro do FNDCT, sufocando-a. A emenda constitucional que prop\u00f5e a extin\u00e7\u00e3o dos fundos infraconstitucionais \u2013 cujos recursos s\u00e3o destinados a \u00e1reas espec\u00edficas, inclusive cient\u00edficas \u2013 ser\u00e1 um golpe de miseric\u00f3rdia se incluir o FNDCT. Em 4 de mar\u00e7o a emenda foi aprovada pela Comiss\u00e3o de Constitui\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a do Senado mas o FNDCT foi retirado, gra\u00e7as a uma mobiliza\u00e7\u00e3o ampla que reuniu desde o PT at\u00e9 a Marinha. Entretanto, ainda existe o risco de que isso seja revertido em plen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Se nossa ci\u00eancia \u00e9 um transatl\u00e2ntico, qualquer altera\u00e7\u00e3o de rota precisa ser suave, muito bem planejada e seus impactos necessitam ser avaliados em profundidade. Exatamente o contr\u00e1rio do que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">F<\/span>echo os olhos e sinto o calor do lado de fora das p\u00e1lpebras. Impressionante como a ci\u00eancia \u00e9 vista por n\u00f3s, brasileiros e brasileiras, como algo ex\u00f3geno, alheio, alien\u00edgena, sempre \u201cpelo lado de fora\u201d. O cineasta Jorge Furtado expressou, no t\u00edtulo de seu livro <em>Um Astronauta no Chipre<\/em>, a ang\u00fastia e o sentimento de orfandade muito agudos de quem fazia cinema brasileiro na contramar\u00e9 dos anos 1980. Lembro-me do escritor Domingo Sarmiento, presidente da Argentina entre 1868 e 1874, que dobrou o n\u00famero de escolas p\u00fablicas no pa\u00eds. Me assombro com a lembran\u00e7a do slogan \u201cP\u00e1tria Educadora\u201d, abortado no segundo governo Dilma pelo desmonte que n\u00e3o cessa desde ent\u00e3o. Reverberam as declara\u00e7\u00f5es do ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Abraham Weintraub, contra investimentos em cursos de filosofia e em prol de \u00e1reas que \u201cgeram retorno de fato\u201d. Visualizo a p\u00e9ssima educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica brasileira, matriz de todos os terraplanismos, criacionismos, anti-intelectualismos, histrionismos e narcisismos. Imagino o Sirius, o maior acelerador de part\u00edculas do Hemisf\u00e9rio Sul, que vem sendo instalado desde 2014 no Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron, em Campinas, ao custo de 1,8 bilh\u00e3o de reais, investidos\u00a0pelo Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia, Inova\u00e7\u00f5es e Comunica\u00e7\u00f5es. Penso nos investimentos necess\u00e1rios para mant\u00ea-lo operacional, e engasgo.<\/p>\n<p>Penso tamb\u00e9m na declara\u00e7\u00e3o da ministra da Mulher, da Fam\u00edlia e dos Direitos Humanos, Damares Alves, de que \u201ca igreja evang\u00e9lica perdeu espa\u00e7o na hist\u00f3ria. N\u00f3s perdemos espa\u00e7o na ci\u00eancia quando n\u00f3s deixamos a teoria da evolu\u00e7\u00e3o entrar nas escolas, quando n\u00f3s n\u00e3o questionamos. Quando n\u00f3s n\u00e3o fomos ocupar a ci\u00eancia. A igreja evang\u00e9lica deixou a ci\u00eancia para l\u00e1 e \u2018vamos deixar a ci\u00eancia sozinha, caminhando sozinha\u2019. E a\u00ed cientistas tomaram conta dessa \u00e1rea.\u201d Rememoro o proselitismo criacionista do atual presidente da Capes, Benedito Guimar\u00e3es Aguiar Neto. Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo! Penso na tropa de choque parlamentar do conservadorismo anticient\u00edfico. Lembro que o Fundeb perde vig\u00eancia em 2020. Estamos perdidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">Q<\/span>ue Chipre que nada: fazer ci\u00eancia no Brasil \u00e9 como ser astronauta em Krakatoa, violinista no conv\u00e9s do Titanic. Sensa\u00e7\u00e3o de hecatombe iminente, como no filme <em>Melancolia<\/em>, de Lars von Trier. Tenho pesadelos com funcion\u00e1rios do Estado que recebem sal\u00e1rios e benesses acima do teto constitucional e mesmo assim atuam para liquidar o Estado. Me afligem o Gene Kelly do Mal, o \u201cmelhor Enem do mundo\u201d, os adoradores de \u201cKafta\u201d e os erros ortogr\u00e1ficos sistem\u00e1ticos no Twitter. Sinto engulhos com o presidente da Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares, S\u00e9rgio Nascimento de Camargo, que detrata Zumbi e o Dia Nacional da Consci\u00eancia Negra. O elenco tosco se apresenta num transe impreciso que mistura Glauber Rocha, Monty Python e <em>Sexta-Feira 13<\/em>.<\/p>\n<p>O que ser\u00e1 de n\u00f3s quando esse processo se completar? O que faremos, por exemplo, diante de novas epidemias? Em 2015, apesar de contarmos com poucos especialistas em zika v\u00edrus, a liga\u00e7\u00e3o da infec\u00e7\u00e3o com a microcefalia foi estabelecida em menos de seis meses pelas equipes dos pesquisadores Celina Turchi, da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz em Pernambuco, Stevens Rehen, da UFRJ e do Instituto D\u2019Or, e Patr\u00edcia Beltr\u00e3o Braga, da USP, com publica\u00e7\u00f5es nos peri\u00f3dicos <em>Science<\/em> e <em>Nature<\/em>. Em 2020, as cientistas Ester Sabino e Jaqueline de Jesus, ambas da USP, conseguiram sequenciar o genoma do coronav\u00edrus em apenas 48 horas, quando outros pa\u00edses levam em m\u00e9dia quinze dias. Esses epis\u00f3dios demonstram que ainda temos um contingente expressivo de cientistas de excel\u00eancia, com capacidade de resposta r\u00e1pida diante de emerg\u00eancias de sa\u00fade p\u00fablica. O risco que corremos ao abandonar a ci\u00eancia \u00e9 n\u00e3o haver no futuro pr\u00f3ximo quem efetivamente seja apto a solucionar tais problemas. Corremos o risco de perder contato com a ci\u00eancia mundial, at\u00e9 o ponto de j\u00e1 n\u00e3o conseguirmos nem ao menos compreender os avan\u00e7os mais recentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">\u00c9<\/span>preciso ver as coisas em perspectiva. Entre 1950 e 1980, o PIB do Brasil cresceu 7,1% ao ano, quase o dobro da taxa de crescimento do PIB global, mas desde ent\u00e3o nosso crescimento foi med\u00edocre. Na primeira d\u00e9cada dos anos 2000, o PIB cresceu em m\u00e9dia 3,4% ao ano. Entre 2010 e 2019, caiu para apenas 1,4% ao ano, em m\u00e9dia, o pior \u00edndice de crescimento desde 1900. Essa estagna\u00e7\u00e3o est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 baixa produtividade do trabalho, \u00e0 queda na massa salarial e \u00e0 m\u00e1 qualifica\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra. Como resultado, a participa\u00e7\u00e3o do Brasil no PIB mundial passou de 4,4% em 1980 para apenas 2,5% em 2018. N\u00e3o surpreende, portanto, que o Brasil tenha sido o terceiro pa\u00eds do mundo que mais se desindustrializou entre 1980 e 2020. A participa\u00e7\u00e3o das manufaturas na gera\u00e7\u00e3o de emprego e valor agregado caiu de 33% para cerca de 10%. E tudo isso vai se agravar com o desmonte da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Nas palavras de Luiz Antonio Elias, secret\u00e1rio-executivo do Minist\u00e9rio de Ci\u00eancia e Tecnologia entre 2007 e 2014, \u201cprecisamos discutir sobre os riscos de termos o sistema nacional de ci\u00eancia e tecnologia amea\u00e7ado\u201d. Segundo ele, \u201cna contram\u00e3o do mundo, o atual governo isenta o Estado de suas fun\u00e7\u00f5es determinadas pela Constitui\u00e7\u00e3o, ao depositar no mercado o papel central na condu\u00e7\u00e3o de nossa sociedade\u201d.<\/p>\n<p>Na mesma linha, o presidente da SBPC, Ildeu de Castro Moreira, declarou que \u201co corte em ci\u00eancia e tecnologia nos \u00faltimos anos foi muito maior que os cortes em outras \u00e1reas\u201d. Ele acrescenta: \u201cAs pol\u00edticas de destrui\u00e7\u00e3o do sistema s\u00e3o muito lesivas, pois elas amea\u00e7am o pa\u00eds pelas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.\u201d Como tem alertado Wanderley de Souza, ex-presidente da Finep, o Brasil investe muito menos em ci\u00eancia e tecnologia do que os pa\u00edses desenvolvidos \u2013 os investimentos ca\u00edram de cerca de 1,7% do PIB em 2012 para 1,2% neste ano. A t\u00edtulo de compara\u00e7\u00e3o, Estados Unidos, Alemanha e Jap\u00e3o alocam atualmente entre 2,8% e 3,4% do PIB. Pot\u00eancias regionais como Israel e Coreia do Sul investem em torno de 4,2%. A China alcan\u00e7ou o patamar de 2,5%.<\/p>\n<p>A escassez de cientistas tamb\u00e9m preocupa. Segundo a Unesco, o Brasil possui atualmente cerca de 700\u00a0pesquisadores\u00a0por 1 milh\u00e3o de habitantes, em clara desvantagem comparativa com a China (1 100), R\u00fassia (3 100), Uni\u00e3o Europeia (3 200), Estados Unidos (3 900), Coreia do Sul (6 400) e Israel (8 300). O quadro tende a piorar muito com o \u00eaxodo cient\u00edfico em curso.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos vinte anos fizemos enormes investimentos em ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o, mas podemos perder tudo que foi conquistado se n\u00e3o conseguirmos acompanhar a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica 4.0. E os poucos avan\u00e7os obtidos podem acabar classificados na categoria infame de \u201cvoo de galinha\u201d. Como qualquer outra na\u00e7\u00e3o, o Brasil s\u00f3 atingir\u00e1 a plenitude de suas potencialidades se for capaz de sustentar por v\u00e1rias d\u00e9cadas um investimento expressivo na tecnologia e na ci\u00eancia. Depois de um come\u00e7o de s\u00e9culo auspicioso, demos marcha a r\u00e9 e estamos entrando de costas no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>O pior que podemos fazer nesse momento \u00e9 negar a cat\u00e1strofe. Na \u00faltima d\u00e9cada, o Brasil despencou no \u00cdndice Global de Inova\u00e7\u00e3o, calculado anualmente pela Universidade Cornell, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Propriedade Intelectual e o Instituto Europeu de Administra\u00e7\u00e3o de Empresas. Em 2011, \u00e9ramos o 47<sup>o<\/sup> pa\u00eds mais inovador do mundo. Em 2019, ca\u00edmos para a 66\u00aa posi\u00e7\u00e3o. A desigualdade econ\u00f4mica vem aumentando, a inseguran\u00e7a jur\u00eddica impera e a burocracia caprichosa dificulta toda a pesquisa. Nosso sistema est\u00e1 progressivamente sendo desengrenado e corremos o risco de um colapso cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico sem precedentes. Ressoam as palavras do escritor Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o: \u201cN\u00e3o ver\u00e1s pa\u00eds nenhum\u2026\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">F<\/span>evereiro de 2020, Carnaval em Olinda, Pernambuco. Cerveja, cacha\u00e7a e milhares de pessoas subindo e descendo ladeiras, um prod\u00edgio de organiza\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea que logra proteger m\u00fasicos e carros de som do caos turbulento. A multid\u00e3o enche as ruas, pula, grita e se liberta de tudo que n\u00e3o \u00e9 amor. Um povo em gloriosa intimidade consigo mesmo. Minha vis\u00e3o se turva de cores, sons e cheiros. Seria tudo isso uma alucina\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Fecho os olhos e tento vislumbrar o futuro. O que ser\u00e1 preciso fazer para deter a explos\u00e3o planet\u00e1ria do coronav\u00edrus? Ser\u00e1 o fim dos beijos, abra\u00e7os e conv\u00edvio? Sobreviveremos a todo esse isolamento? Haver\u00e1 Carnaval no ano que vem? Escuto com nitidez a voz de Caetano Veloso: <em>N\u00e3o se perca de mim\/n\u00e3o se esque\u00e7a de mim\/n\u00e3o desapare\u00e7a<\/em>.<\/p>\n<p>Leio no jornal que, com a epidemia em curso, o presidente convocou um ato contra o Congresso e o STF para o dia 15 de mar\u00e7o e sou tomado pela vertigem do abandono. Desde a descoberta dos antibi\u00f3ticos, em 1928, vivemos a sensa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita de confian\u00e7a numa vida longa. Mas se 2% da popula\u00e7\u00e3o mundial morrer por coronav\u00edrus, ser\u00e3o 150 milh\u00f5es de pessoas mortas. Isso sem falar nas outras doen\u00e7as cujo tratamento ser\u00e1 recusado por falta de leitos. Me consola a esperan\u00e7a delirante de que a civiliza\u00e7\u00e3o adoradora do deus dinheiro talvez aprenda algo da nova contradi\u00e7\u00e3o: o mais desejado dos objetos \u00e9 agora, tamb\u00e9m, a mais diab\u00f3lica fonte de cont\u00e1gio, o mais atraente arauto da morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">A<\/span>bro os olhos. Que calor! Na cabe\u00e7a trago um cocar protetor. Ser\u00e1 que estou exagerando? O que precisamos fazer para superar esse momento? Eis que escuto ao longe o hino da Pitombeira dos Quatro Cantos, um dos blocos mais tradicionais de Olinda, arquirrival hist\u00f3rico de outro bloco chamado Elefante: <em>N\u00f3s somos da Pitombeira\/N\u00e3o brincamos muito mal\/Se a turma n\u00e3o sa\u00edsse\/N\u00e3o havia Carnaval<\/em>. Em nosso pa\u00eds a arte popular exige, assim como a ci\u00eancia e o esporte, um profundo esfor\u00e7o pessoal. Penso em Senna, Labouriau e Moa do Katend\u00ea, mestre de capoeira angola e fundador do bloco de afox\u00e9 Badau\u00ea, assassinado pelas costas em 2018 com doze facadas, ap\u00f3s discuss\u00e3o com um eleitor de Bolsonaro.<\/p>\n<p>A frase de Labouriau n\u00e3o me sai da cabe\u00e7a: Qual \u00e9 o pre\u00e7o de n\u00e3o termos ci\u00eancia? Que pa\u00eds depreda a pr\u00f3pria cultura? O que esperar de t\u00e3o pouca educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade? O que aprender de um experimento de na\u00e7\u00e3o que fracassou? Melhor seria aprender de um resultado positivo. Melhor seria ser filho da outra\u2026<\/p>\n<p>Penso na profecia de Ferdinando Labouriau sobre o ano 2000 e de repente me toma a vis\u00e3o de um caboclo de lan\u00e7a defendendo altivamente a na\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 um sinal? O que vai salvar o Brasil \u00e9 o povo! Vamos precisar de muita uni\u00e3o, colabora\u00e7\u00e3o e maturidade para sair dessa enrascada. Ser\u00e1 preciso redimir passados e reconstruir um projeto de pa\u00eds, antes que ele afunde de vez. Est\u00e1 afundando.<\/p>\n<p>No muro da Igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Olinda, um cartaz produzido pelas artistas Mariana Lacerda e Joana Amador evoca o famoso maracatu rural de Mestre Salustiano: \u201cLute como uma Piaba de Ouro.\u201d Vejo peixinhos nadando unidos no cardume harm\u00f4nico, juntos mas separados, perto mas longe: ningu\u00e9m encosta em ningu\u00e9m, ningu\u00e9m se afasta de ningu\u00e9m\u2026<\/p>\n<p>E ent\u00e3o me arrepio ao escutar o que a Pitombeira toca agora: <em>Olinda, quero cantar\/A ti, esta can\u00e7\u00e3o\/Teus coqueirais, o teu sol, o teu mar\/Faz vibrar meu cora\u00e7\u00e3o\/De amor a sonhar, minha Olinda sem igual\/Salve o teu Carnaval<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 o hino do Elefante.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Piau\u00ed, 04\/2020 A ci\u00eancia esmagada: \u201cRememoro o proselitismo criacionista do atual presidente da Capes, Benedito Guimar\u00e3es Aguiar Neto. Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo! 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