{"id":21575,"date":"2019-11-01T00:39:02","date_gmt":"2019-11-01T00:39:02","guid":{"rendered":"https:\/\/cnpem.staging.wpengine.com\/?p=21575"},"modified":"2022-01-21T15:32:11","modified_gmt":"2022-01-21T18:32:11","slug":"medicamentos-podem-levar-riqueza-para-regioes-de-floresta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cnpem.br\/en\/medicamentos-podem-levar-riqueza-para-regioes-de-floresta\/","title":{"rendered":"Medicamentos podem levar riqueza para regi\u00f5es de floresta"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/profissoes\/2019\/10\/29\/%E2%80%98Medicamentos-podem-levar-riqueza-para-regi%C3%B5es-de-floresta%E2%80%99\">Nexo Jornal<\/a>, em 29\/10\/19<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"media-object  aligncenter\" title=\"A cienstista Daniela Trivella\" src=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/incoming\/imagens\/A-cienstista-Daniela-Trivella\/ALTERNATES\/SQUARE_640\/A%20cienstista%20Daniela%20Trivella\" alt=\"\" \/><\/p>\n<blockquote><p>Usando a biologia, a f\u00edsica e a qu\u00edmica, e contando com uma ajudinha crucial da melhor tecnologia do mundo, a cientista Daniela Trivella est\u00e1 transformando riqueza natural em riqueza econ\u00f4mica<\/p><\/blockquote>\n<p>Nenhum pa\u00eds sobre a Terra \u00e9 t\u00e3o rico quanto o Brasil em biodiversidade, que \u00e9 a variedade de seres diferentes vivendo nos nossos ecossistemas. Mas essa riqueza toda \u00e9 vista por muita gente como uma pobreza: um obst\u00e1culo no caminho do desenvolvimento. Pois o trabalho da cientista Daniela Trivella \u00e9 justamente encontrar jeitos de transformar riqueza natural em riqueza daquele outro tipo: a que paga a conta no supermercado. Com uma forma\u00e7\u00e3o m\u00faltipla, Daniela aprendeu a ver o mundo em v\u00e1rias escalas: das min\u00fasculas c\u00e9lulas da biologia \u00e0s ainda menores mol\u00e9culas da qu\u00edmica, \u00e0s ainda muito menores part\u00edculas da f\u00edsica. Ela seria uma biof\u00edsicoqu\u00edmica, se essa palavra existisse (como n\u00e3o existe, prefere a qualifica\u00e7\u00e3o de \u201ccientista\u201d). Daniela est\u00e1 \u00e0 frente do projeto Molecular Powerhouse (Usina Molecular), que vai usar alt\u00edssima tecnologia para encontrar na natureza brasileira mol\u00e9culas que curem doen\u00e7as \u2013 e gerem riquezas. Ela \u00e9 pesquisadora do LNBio (Laborat\u00f3rio Nacional de Bioci\u00eancias), uma institui\u00e7\u00e3o federal de excel\u00eancia, que divide o mesmo campus em Campinas com outro centro de primeira linha, o LNLS (Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron), sobre o qual d\u00e1 para saber mais nesta entrevista. Significa que ela tem acesso ao \u00f3timo acelerador de part\u00edculas UVX \u2013 e que, a partir de 2020, poder\u00e1 usar o espetacular Sirius, o substituto do UVX, que ser\u00e1 o melhor do mundo na sua classe. O Sirius, que mais parece um est\u00e1dio de futebol, \u00e9 um laborat\u00f3rio de luz s\u00edncrotron, um acelerador de el\u00e9trons que bombardeia coisas com f\u00f3tons ultra-velozes, para desvendar seus segredos. \u00c9 para dentro dele que Daniela vai levar plantas de todo o Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>Cientistas do Brasil <\/strong><\/h4>\n<p><em>Quem: Daniela Trivella, 39 anos <\/em><\/p>\n<p><em>O qu\u00ea: cientista (ou biof\u00edsicoqu\u00edmica) especializada em transformar mol\u00e9culas da natureza em insumos valiosos para a ind\u00fastria <\/em><\/p>\n<p><em>Onde: no LNBio (Laborat\u00f3rio Nacional de Bioci\u00eancias) , em Campinas. E, a partir de 2020, no acelerador de part\u00edculas Sirius <\/em><\/p>\n<p><em>Como: plantando esp\u00e9cies brasileiras, procurando mol\u00e9culas nelas e usando muito poder de processamento para descobrir quais dessas mol\u00e9culas s\u00e3o \u00fateis<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a s\u00e9tima entrevista da s\u00e9rie do Nexo \u201cCientistas do Brasil que voc\u00ea precisa conhecer, ontem e hoje\u201d. O projeto tem duas frentes: uma traz 12 v\u00eddeos com a minibiografia de pesquisadores que marcaram a hist\u00f3ria. A outra traz 12 entrevistas em texto na se\u00e7\u00e3o \u201cProfiss\u00f5es\u201d \u2013 conversas conduzidas pelo jornalista Denis Burgierman com cientistas brasileiros em atua\u00e7\u00e3o hoje. S\u00e3o pesquisadores de \u00e1reas como ci\u00eancias da vida, geoci\u00eancias, f\u00edsica, qu\u00edmica, ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o e matem\u00e1tica, que v\u00eam tendo o reconhecimento de seus pares e trabalham em linhas de atua\u00e7\u00e3o promissoras. O projeto tem o apoio do Instituto Serrapilheira. A primeira pergunta \u00e9 sempre a mesma:<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea quer descobrir na ci\u00eancia? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA Eu quero descobrir novos medicamentos para o tratamento de doen\u00e7as que ainda n\u00e3o t\u00eam cura, usando a maior riqueza do Brasil, que \u00e9 a biodiversidade.<\/p>\n<p><strong>E como voc\u00ea faz isso? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA A gente usa alta tecnologia para fazer a ponte entre a natureza e a cl\u00ednica. Minhas \u00e1reas s\u00e3o biologia e qu\u00edmica. Na ci\u00eancia do passado, a gente trabalhava em laborat\u00f3rio molhado \u2013 bancada, reagentes qu\u00edmicos, tubos de ensaio, jaleco, luva, tudo manual. Agora a biologia e a qu\u00edmica est\u00e3o se mudando para laborat\u00f3rios secos, in silico: estudamos as mol\u00e9culas a partir de modelos em computador. Por isso, estamos trazendo gente de novas \u00e1reas: matem\u00e1tica, computa\u00e7\u00e3o, intelig\u00eancia artificial. E, cada vez mais, conseguimos automatizar os processos. Temos equipamentos de massa nos quais se colocam as amostras e eles ficam o fim de semana inteiro coletando dados. Conseguimos escanear bibliotecas inteiras de mol\u00e9culas naturais. E usamos tamb\u00e9m a cristalografia de prote\u00ednas, um m\u00e9todo relativamente antigo, da d\u00e9cada de 1960, que consiste em bombardear mol\u00e9culas naturais com raios-x, para analisar a difra\u00e7\u00e3o dos raios. Em 2019, a coleta de dados \u00e9 ainda toda manual \u2013 a gente vira noites coletando, no laborat\u00f3rio de luz s\u00edncrotron [o UVX, inaugurado em 1997]. Em breve, com o novo laborat\u00f3rio, o Sirius [previsto para ser inaugurado em 2020], isso vai ser feito de modo totalmente automatizado. Hoje, a gente coleta 20 dados a cada vez \u2013 l\u00e1 ser\u00e3o 200.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, o que voc\u00ea faz \u00e9 estudar mol\u00e9culas que v\u00eam da natureza em busca do potencial farmac\u00eautico? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA Isso. \u00c9 algo que se faz h\u00e1 muito tempo \u2013 boa parte das mol\u00e9culas que usamos em medicamentos v\u00eam da natureza. Mas antes era um processo quase invi\u00e1vel, de procurar agulhas no palheiro, examinando palha por palha para encontrar algo \u00fatil em meio a um n\u00famero quase infinito de mol\u00e9culas. Com a tecnologia de 2020, a gente vai ter um atalho enorme. A gente criou um projeto chamado MPH \u2013 Molecular Powerhouse. Montamos aqui uma cole\u00e7\u00e3o de mais de 600 plantas crescendo, da Amaz\u00f4nia, Mata Atl\u00e2ntica, Caatinga, Cerrado. Processamos essas plantas e hoje temos uma cole\u00e7\u00e3o de 6.000 amostras. Num laborat\u00f3rio manual, demoraria muitos anos para testar todas. Num sistema automatizado, voc\u00ea faz o primeiro teste [de triagem] em um dia s\u00f3.<\/p>\n<p><strong>A computa\u00e7\u00e3o \u00e9 usada para analisar o formato tridimensional das mol\u00e9culas e procurar aquelas com potencial m\u00e9dico? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA \u00c9. A gente tem um outro estudo, sobre mecanismos moleculares de doen\u00e7as. Estudamos doen\u00e7as como esclerose m\u00faltipla, autismo, c\u00e2ncer, bact\u00e9rias super-resistentes, v\u00edrus (como o zika), para entender como essas doen\u00e7as funcionam e como \u00e9 poss\u00edvel intervir no mecanismo natural delas. Geralmente, identificamos uma prote\u00edna-chave \u2013 na c\u00e9lula tumoral, no v\u00edrus, onde for \u2013, que pode ser inibida, ou ter sua a\u00e7\u00e3o bloqueada com uma mol\u00e9cula da natureza. Ent\u00e3o, quando vamos buscar f\u00e1rmacos, a gente j\u00e1 tem um alvo proteico. E a\u00ed, vamos procurar mol\u00e9culas bioativas para aquele alvo.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea v\u00ea no computador o formato da fechadura, a\u00ed pode come\u00e7ar a procurar por uma chave. <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA Exato. A gente faz uma triagem dessa biblioteca de 6.000 amostras, procurando pelas chaves. Com o modelo no computador, j\u00e1 conseguimos saber quais mol\u00e9culas s\u00e3o bioativas e onde que elas interagem com a prote\u00edna-alvo \u2013 a fechadura. Normalmente, a chave n\u00e3o vai ser perfeita \u2013 ela d\u00e1 umas encrencadas. Ent\u00e3o, para transform\u00e1-la no princ\u00edpio ativo do medicamento, a gente tem que fazer modifica\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas nessa mol\u00e9cula, que chamamos de otimiza\u00e7\u00f5es. O objetivo \u00e9 melhorar a mol\u00e9cula, para que ela atue melhor na prote\u00edna e para que n\u00e3o atue em outros alvos, gerando efeitos colaterais. E o computador hoje ajuda nesse processo tamb\u00e9m: podemos fazer mudan\u00e7as nas mol\u00e9culas in silico, para ir filtrando antes de fazer mudan\u00e7as qu\u00edmicas. A gente n\u00e3o precisa mais produzir mil mol\u00e9culas no laborat\u00f3rio \u2013 produzimos dez, aquelas que j\u00e1 sabemos que t\u00eam potencial.<\/p>\n<p><strong>E a\u00ed essas dez v\u00e3o ser testadas in vitro? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA In vitro, na nossa prote\u00edna-alvo e nas c\u00e9lulas. A gente tem tamb\u00e9m aqui um modelo bem legal chamado \u201corgan on a chip\u201d. S\u00e3o modelos de organoides humanos conectados entre si. Por exemplo, conseguimos simular o intestino, o f\u00edgado e o rim juntos. Assim, d\u00e1 para saber como a mol\u00e9cula \u00e9 absorvida e excretada. Voc\u00ea faz isso num chipzinho, com mini\u00f3rg\u00e3os criados com culturas de c\u00e9lulas. S\u00f3 depois, se der certo e for segura, vai para testes com humanos.<\/p>\n<p><strong>Essas mol\u00e9culas que voc\u00eas testam s\u00e3o naturais, tiradas de organismos brasileiros, ou sintetizadas a partir das encontradas nos organismos? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA Pode ser as duas coisas. Depende do qu\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil acessar a mol\u00e9cula na natureza. Se ela foi extra\u00edda da casca de uma \u00e1rvore centen\u00e1ria da Amaz\u00f4nia, \u00e9 invi\u00e1vel obter grandes quantidades por extrativismo. Tem que sintetizar. Se for uma mol\u00e9cula produzida em abund\u00e2ncia por uma planta arbustiva, d\u00e1 para cultivar, usando agroecologia, movimentando uma cadeia l\u00e1 na floresta, trazendo benef\u00edcio para muita gente. Estamos fazendo um banco de dados de todas as mol\u00e9culas de plantas brasileiras, para poder comparar com cada novo alvo.<\/p>\n<p><strong>E quanto tempo vai levar para vermos na farm\u00e1cia medicamentos descobertos aqui? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA O desenvolvimento de medicamentos costumava demorar de 15 a 20 anos, da forma cl\u00e1ssica. Os primeiros medicamentos que est\u00e3o surgindo agora no mundo feitos com ajuda da computa\u00e7\u00e3o, com base na estrutura das mol\u00e9culas, levaram coisa de cinco anos. Nossa perspectiva \u00e9 que esses m\u00e9todos computacionais acelerem cada vez mais o processo.<\/p>\n<p><strong>E como voc\u00ea acabou trabalhando com isso? Voc\u00ea sempre soube que queria fazer isso? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA Sempre gostei de ci\u00eancia, e sempre tive interesse nessa parte m\u00e9dica; curar, tratar. Outra coisa que sempre me interessou, desde crian\u00e7a, \u00e9 o potencial do Brasil \u2013 eu n\u00e3o entendia como um pa\u00eds t\u00e3o rico pode ser t\u00e3o pobre. Fui fazer ci\u00eancias biol\u00f3gicas l\u00e1 na UFSC, eu cresci em Santa Catarina. E logo fui para a bioqu\u00edmica, a rela\u00e7\u00e3o da qu\u00edmica com a biologia. Emendei mestrado em biotecnologia, onde eu estudava enzimas, processos de detoxifica\u00e7\u00e3o celular, intera\u00e7\u00e3o com o meio ambiente. Mas eu queria entender mais a fundo como qu\u00edmica e biologia se encontravam, ent\u00e3o me mudei para S\u00e3o Carlos e fui fazer doutorado em f\u00edsica biomolecular na USP de l\u00e1. Tive que aprender matem\u00e1tica \u2013 geralmente bi\u00f3logo tem avers\u00e3o. Isso mudou minha vida. Perdi o medo e comecei a usar essa ferramenta: \u00e9 muito mais simples transformar as coisas em n\u00fameros e trabalhar com os dados. Assim me tornei uma cristal\u00f3grafa. A cristalografia gera aquelas imagens lindas de mol\u00e9culas tridimensionais. Mas voc\u00ea n\u00e3o enxerga essas mol\u00e9culas diretamente. Voc\u00ea usa raios-x, eles interagem com a prote\u00edna e voc\u00ea detecta o padr\u00e3o de difra\u00e7\u00e3o. Para construir a imagem da prote\u00edna, voc\u00ea tem que calcular.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea n\u00e3o enxerga a mol\u00e9cula&#8230; <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA Enxergo, mas pelos dados. Uma coisa legal do doutorado foi entrar nesse mundo subnanom\u00e9trico das prote\u00ednas \u2013 entender como elas interagem com as subst\u00e2ncias qu\u00edmicas, como se organizam, como perdem a estrutura. Antes, na bioqu\u00edmica, eu via as enzimas, de forma direta, pelo microsc\u00f3pio. Quando voc\u00ea come\u00e7a a estudar cristalografia, voc\u00ea aprende a enxergar essa escala \u2013 eu olho para a parede e penso como os \u00e1tomos est\u00e3o organizados.<\/p>\n<p><strong>E depois do doutorado voc\u00ea veio para Campinas? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA Sim, para o Instituto de Qu\u00edmica da Unicamp, num projeto para integrar bi\u00f3logos e qu\u00edmicos \u2013 porque, se n\u00e3o tem os dois, voc\u00ea n\u00e3o consegue fazer nada, n\u00e3o conecta as mol\u00e9culas aos organismos. Como era um instituto de qu\u00edmica, as reuni\u00f5es eram na l\u00edngua qu\u00edmica [risos]. A\u00ed surgiu uma oportunidade em San Diego, na Calif\u00f3rnia, no [Instituto] Scripps [de Oceanografia], que foca em biomedicina e biotecnologia. Eles foram pioneiros em buscar bact\u00e9rias no mar para desenvolver f\u00e1rmacos. L\u00e1 no Scripps, eles pesquisam formas de usar a pr\u00f3pria maquinaria da bact\u00e9ria para produzir f\u00e1rmacos em quantidade, com engenharia gen\u00e9tica. Chama bioss\u00edntese \u2013 trabalhei com isso l\u00e1 e hoje estamos fazendo aqui com os alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Foram sete meses na Calif\u00f3rnia, como aluna do p\u00f3s-doc da Unicamp, mas continuo trabalhando at\u00e9 hoje com meu orientador de l\u00e1 e com colaboradores da \u00e1rea de bioss\u00edntese no mundo todo, que conheci l\u00e1. Na hora de voltar, meu chefe me ofereceu ficar mais tr\u00eas anos naquele lugar maravilhoso \u2013 \u00e9 lindo l\u00e1, um para\u00edso, com essa massa cr\u00edtica de ci\u00eancia e biotecnologia sempre olhando para frente. Mas a\u00ed eu pensava\u2026 E o Brasil? Porque l\u00e1 nos EUA n\u00e3o tem tanta biodiversidade. L\u00e1, eles exploram biodiversidade do mundo todo, menos do Brasil, que tem leis muito restritivas. Aqui, tem todo esse potencial, mas vivemos de exportar mat\u00e9ria-prima, como se ainda f\u00f4ssemos col\u00f4nia. Por que aqui a gente n\u00e3o faz?<\/p>\n<p><strong>A\u00ed voc\u00ea voltou para fazer? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA Voltei, em 2012. O Brasil ainda era aquele foguete voando da capa da Economist \u2013 \u201cBrazil Takes Off\u201d. Procurei o diretor aqui do LNBio, o professor Kleber Franchini, apresentei para ele meu background e meus planos. E casou muito bem. Eles tinham acabado de implementar uma plataforma toda robotizada para triar mol\u00e9culas \u2013 tria 10 mil por dia \u2013 e estavam buscando mais pesquisa em produtos naturais. Em 2013, comecei aqui, como pesquisadora, com a miss\u00e3o de fazer toda a parte burocr\u00e1tica e montar o laborat\u00f3rio de qu\u00edmica. E come\u00e7amos parcerias, com grupos acad\u00eamicos e com a Phytobios, uma empresa especialista em bioprospec\u00e7\u00e3o de plantas.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00eas t\u00eam uma parceria com uma empresa, que vai transformar em produtos as descobertas que forem feitas? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA Sim. Eles est\u00e3o interessados no potencial dessas plantas, para o desenvolvimento de f\u00e1rmacos, cosm\u00e9ticos e alimentos. Eles s\u00e3o o bra\u00e7o de inova\u00e7\u00e3o de uma outra empresa, chamada Centroflora, que \u00e9 a maior produtora de insumos naturais do Brasil. E eles t\u00eam um programa de impacto socioambiental com 2.000 fam\u00edlias de produtores org\u00e2nicos que plantam jaborandi, maracuj\u00e1 e outras plantas de forma sustent\u00e1vel, em diferentes regi\u00f5es. \u00c9 gente que vivia ou de monocultura ou de agricultura de subsist\u00eancia de baixo valor agregado: a vida deles melhorou muito agora. Sou f\u00e3 do programa, porque ele mostra que, se voc\u00ea tem ci\u00eancia de qualidade, que encontra mol\u00e9culas de alto valor agregado, voc\u00ea acaba puxando uma cadeia no Piau\u00ed, na Amaz\u00f4nia, em toda a parte, que leva qualidade de vida para as pessoas, de forma sustent\u00e1vel, dando valor para a floresta em p\u00e9.<\/p>\n<p><strong>E o projeto agora est\u00e1 ganhando impulso, n\u00e3o \u00e9? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA Sim. Desde 2013, a gente foi montando essa plataforma, com muito suor, sem muito recurso. A\u00ed, em 2018, come\u00e7amos uma parceria com um laborat\u00f3rio farmac\u00eautico brasileiro, que \u00e9 o Ach\u00e9. N\u00f3s fazemos a descoberta, vamos at\u00e9 a otimiza\u00e7\u00e3o da mol\u00e9cula, eles realizam os testes pr\u00e9-cl\u00ednicos e cl\u00ednicos, para poder levar os medicamentos ao mercado. E, pela primeira vez, estamos trabalhando com recursos.<\/p>\n<p><strong>E voc\u00eas j\u00e1 t\u00eam umas mol\u00e9culas que deixam voc\u00eas animados? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA J\u00e1 temos. Mas n\u00e3o posso falar nada.<\/p>\n<p><strong>Est\u00e1 dif\u00edcil o momento atual, para fazer seu trabalho? A crise est\u00e1 te afetando? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA Os cortes nos recursos para ci\u00eancia diminuem as oportunidades de fomento \u00e0s pesquisas e, com o impacto nas bolsas, afetam tamb\u00e9m os recursos humanos envolvidos no nosso trabalho. Ent\u00e3o impacta, sim.<\/p>\n<p><strong>Pesquisa cient\u00edfica e recursos naturais: essas duas coisas s\u00e3o o centro do seu trabalho. E parece que as duas est\u00e3o sob amea\u00e7a, com os cortes na ci\u00eancia e a alta no desmatamento. Tem raz\u00e3o para estar preocupada? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA Fico preocupada. Al\u00e9m de toda a import\u00e2ncia da preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente, penso que nossa biodiversidade \u00e9 uma de nossas maiores riquezas. \u00c9 tamb\u00e9m nosso principal diferencial competitivo em rela\u00e7\u00e3o ao resto do mundo. Desenvolvemos alta tecnologia no Brasil, como o Sirius. Temos agora a oportunidade de aliar esta tecnologia com os diferenciais da nossa biodiversidade, realizando grandes descobertas cient\u00edficas e desenvolvendo novos medicamentos, por exemplo. Medicamentos t\u00eam alto valor agregado e podem contribuir para o desenvolvimento sustent\u00e1vel, levando riqueza para as regi\u00f5es de floresta e impulsionando a economia local e nacional; valorizando a floresta e mantendo-a em p\u00e9.<\/p>\n<p><strong>Como sua forma\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente no seu trabalho? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA Est\u00e1 totalmente presente. Desenvolver f\u00e1rmacos requer biologia, f\u00edsica e qu\u00edmica, que \u00e9 o que eu estudei. Agora quero aprender cada vez mais computa\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 nem o futuro, \u00e9 o presente. Estou aprendendo t\u00e9cnicas, abordagens, l\u00f3gica computacional, linguagem, c\u00f3digos. Fazemos aqui algoritmos customizados.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a maior dificuldade da profiss\u00e3o e o melhor aspecto dela? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA [Para e pensa.] Acho que o melhor \u00e9 perceber que, por meio de suas perguntas, de sua curiosidade, voc\u00ea pode fazer coisas que podem ter grandes impactos na vida das pessoas [e a\u00ed a voz dela quebra, e uma l\u00e1grima escorre. Daniela disfar\u00e7a com uma risada.] A dificuldade \u00e9 que ci\u00eancia \u00e9 demorado. N\u00e3o \u00e9 de um dia para o outro que voc\u00ea tem uma resposta. E nem sempre d\u00e1 certo. Normalmente a solu\u00e7\u00e3o nem est\u00e1 na pergunta inicial que voc\u00ea fez. Voc\u00ea precisa aprender a ser flex\u00edvel, a olhar as coisas por outros \u00e2ngulos.<\/p>\n<p><strong>Algum conselho para quem quer seguir o seu caminho? <\/strong><\/p>\n<p>DANIELA TRIVELLA Seja curioso. E seja flex\u00edvel, porque a vida \u00e9 din\u00e2mica, a ci\u00eancia \u00e9 din\u00e2mica. E, nesta \u00e1rea em que eu estou, tudo \u00e9 multidisciplinar. Independentemente de qual \u00e9 a sua forma\u00e7\u00e3o, voc\u00ea tem que ter a cabe\u00e7a aberta para outros conhecimentos, para outros pontos de vista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nexo Jornal, em 29\/10\/19 &nbsp; Usando a biologia, a f\u00edsica e a qu\u00edmica, e contando com uma ajudinha crucial da melhor tecnologia do mundo, a cientista Daniela Trivella est\u00e1 transformando&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1163,179],"tags":[],"class_list":["post-21575","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-clipping-cnpem","category-clipping-lnbio","category-1163","category-179","description-off"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.0 - 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