{"id":17929,"date":"2017-11-10T09:59:23","date_gmt":"2017-11-10T09:59:23","guid":{"rendered":"https:\/\/cnpem.staging.wpengine.com\/?p=17929"},"modified":"2022-01-21T15:38:07","modified_gmt":"2022-01-21T18:38:07","slug":"investimento-em-pesquisa-o-que-a-australia-tem-a-nos-ensinar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cnpem.br\/en\/investimento-em-pesquisa-o-que-a-australia-tem-a-nos-ensinar\/","title":{"rendered":"Investimento em pesquisa: o que a Austr\u00e1lia tem a nos ensinar"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/revista-exame\/aqui-a-ciencia-e-prioridade\/\">Exame<\/a>, 3 de novembro de 2017<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Austr\u00e1lia elevou os gastos em pesquisa e tem os planos do setor definidos at\u00e9 2030. J\u00e1 no Brasil o investimento em inova\u00e7\u00e3o est\u00e1 em queda.<\/p>\n<div class=\"featured-image\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"attachment-size_g size-size_g wp-post-image lazyloaded b-loaded\" title=\"\" src=\"https:\/\/abrilexame.files.wordpress.com\/2017\/10\/gestao-1.jpg?quality=70&#038;strip=info&#038;w=1200&#038;h=666&#038;crop=1&#038;resize=1000%2C666\" alt=\"\" data-sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/div>\n<p class=\"caption\">Pesquisadores na Austr\u00e1lia: a troca com o setor privado \u00e9 fluente | Pete Glenane\/Divulga\u00e7\u00e3o \/<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">E<span class=\"s1\">ncravado num sub\u00farbio pacato, de ruas largas e arborizadas a meia hora de carro<\/span>\u00a0do centro de\u00a0Melbourne, segunda maior metr\u00f3pole australiana, o acelerador de part\u00edculas Synchrotron \u00e9, talvez, o melhor exemplo de como a Austr\u00e1lia, um pa\u00eds rico em recursos naturais e exportador de mat\u00e9rias-primas como o Brasil, est\u00e1 dando passos importantes rumo \u00e0 economia do conhecimento \u2014 uma corrida em que o Brasil d\u00e1 sinais de estar ficando para tr\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Synchrotron \u00e9 um laborat\u00f3rio que est\u00e1 na fronteira do avan\u00e7o cient\u00edfico mundial. Ali, num galp\u00e3o de 15 000 metros quadrados cuja fachada circular lembra a de um gin\u00e1sio de esportes, cientistas enxergam com precis\u00e3o as propriedades de toda sorte de \u00e1tomos e mol\u00e9culas presentes na natureza. Isso \u00e9 poss\u00edvel com o uso de el\u00e9trons que, movimentando-se na velocidade da luz em enormes circuitos mantidos a v\u00e1cuo, emitem um brilho impercept\u00edvel, mesmo com os equipamentos mais avan\u00e7ados de um laborat\u00f3rio convencional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\" b-loaded\" src=\"https:\/\/abrilexame.files.wordpress.com\/2017\/10\/gestao-2.jpg?quality=70&#038;strip=info&#038;w=1200\" alt=\"\"   border=\"0\" \/>Obra de novo laborat\u00f3rio S\u00edncroton no Brasil: atraso e risco de parar | Jo\u00e3o Prudente\/Pulsar Imagens<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">Como s\u00e3o estruturas enormes, caras e complexas de construir, d\u00e1 para contar nos dedos os aceleradores de part\u00edculas no mundo \u2014 h\u00e1 48 unidades desse tipo em 23 pa\u00edses, boa parte deles na Europa e nos Estados Unidos. A unidade australiana \u00e9 uma das mais produtivas: por ano s\u00e3o feitos por l\u00e1 mais de 1 000 testes. A grande maioria \u00e9 de uma ci\u00eancia b\u00e1sica que s\u00f3 dever\u00e1 trazer avan\u00e7os percept\u00edveis para a humanidade em d\u00e9cadas. Mas, desde que foi aberto, em 2007, o Synchrotron coleciona resultados bem palp\u00e1veis.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">A subsidi\u00e1ria local da farmac\u00eautica americana Pfizer testou novas terapias contra o c\u00e2ncer que j\u00e1 est\u00e3o no mercado. Recentemente, um grupo de mineradoras, incluindo a australiana BHP e a brasileira Vale, financiou\u00a0<span class=\"wsl-anchor wsl-sponsored-link\" data-wsl-sponsored-source=\"adnetwork\" data-wsl-advertiser=\"ibm\" data-wsl-format=\"2\" data-wsl-dfp-href=\"https:\/\/adclick.g.doubleclick.net\/pcs\/click?xai=AKAOjstzli0oCWTY8P_cQ2i4bJGl9vpWjK6hDFvyWwVhiXw9EWeMIaRIVVEoSGlXR-7GEFeuq9YRCi2TM4Z6NVVeU_yK-cBkcgo1v93dO4D5_m67fobTljDc78_iy8mTEwDaWHxu_MFL5M_sLj3wWcH2VnOElsDM9CNWnfdrHNNLEWtldh0TycOZE2GP2Tq0PNuP9dP_J-emHlvjOnZAymJjEoZ8ZhdefKPIVCxnEw&amp;sig=Cg0ArKJSzHtip9xLr1ATEAE&amp;urlfix=1&amp;adurl=http%3A%2F%2Fbs.serving-sys.com%2Fserving%2FadServer.bs%3Fcn%3Dtrd%26mc%3Dclick%26pli%3D22638521%26PluID%3D0%26ord%3D718083678\" data-wsl-dfp-ad-unit-name=\"adunit4P5640c9d5376a3826\" data-wsl-dfp-targeting=\"{&quot;anchorId&quot;:&quot;8991323156856043&quot;}\" data-wsl-uid=\"8991323156856043\" data-wsl-embed=\"{&quot;anchorText&quot;:&quot;pesquisadores&quot;,&quot;target&quot;:&quot;https:\/\/bs.serving-sys.com\/serving\/adServer.bs?cn=trd&amp;mc=click&amp;pli=22638521&amp;PluID=0&amp;ord=[timestamp]&quot;,&quot;displayLink&quot;:&quot;www.ibm.com&quot;,&quot;kind&quot;:&quot;sponsored&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Plataforma re\u00fane mais de 3 mil pesquisadores e \u00e9 l\u00edder em patentes nos EUA h\u00e1 24 anos&quot;,&quot;description&quot;:&quot;Nenhum ser humano pode ler, ver, sentir, ouvir e interpretar todos os dados que influenciam seu trabalho e sua profiss\u00e3o.A IBM Cloud, com Watson, pode. Uma nova plataforma para neg\u00f3cios, apoiada pela tecnologia e pelas pessoas que voc\u00ea precisa, para fazer o trabalho da sua vida.&quot;,&quot;thumbnailUrl&quot;:&quot;https:\/\/i.embed.ly\/1\/image?url=https%3A%2F%2Fwww.ibm.com%2Fthought-leadership%2Fyou%2Fimg%2FSocial-1200x630.jpg&amp;key=83ceee2ba11b452398a72b6897865120&quot;,&quot;call&quot;:&quot;Veja:&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-BR&quot;,&quot;sponsoredText&quot;:&quot;Patrocinado&quot;,&quot;hoverText&quot;:&quot;Link patrocinado gerado por WorldSense&quot;}\" data-wsl-affiliate-href=\"https:\/\/bs.serving-sys.com\/serving\/adServer.bs?cn=trd&amp;mc=click&amp;pli=22638521&amp;PluID=0&amp;ord=[timestamp]\">pesquisadores<\/span>\u00a0da Universidade Monash, que fica ao lado do Synchrotron, em experimentos sobre a resist\u00eancia dos trilhos utilizados no escoamento da produ\u00e7\u00e3o de suas minas. \u201cEm 6 horas de testes no acelerador de part\u00edculas, conseguimos levantar um volume de informa\u00e7\u00f5es que demorar\u00edamos cerca de um ano para obter pelos m\u00e9todos tradicionais\u201d, diz o engenheiro John Cookson, da Universidade Monash, condutor das pesquisas.<\/span><span class=\"wsl-preview-container wsl-inline-container wsl-concussion-target\" data-wsl-kind=\"sponsored\" data-wsl-format=\"2\">\u00a0<span class=\"wsl-preview-call\" data-kind=\"sponsored\">Veja:<\/span>\u00a0Plataforma re\u00fane mais de 3 mil pesquisadores e \u00e9 l\u00edder em patentes nos EUA h\u00e1 24 anos\u00a0<span class=\"wsl-sponsored-text\">Patrocinado<\/span>\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">Os recursos de empresas e universidades que alugam o espa\u00e7o para pesquisas hoje representam 76% do or\u00e7amento do acelerador, de aproximadamente 25 milh\u00f5es de d\u00f3lares por ano. O restante da conta \u00e9 fechado com o apoio do governo australiano, que, em agosto, anunciou um aporte de 400 milh\u00f5es de d\u00f3lares pelos pr\u00f3ximos dez anos no laborat\u00f3rio, administrado por um grupo de cientistas australianos. O dinheiro deve ser empregado em obras para ampliar as instala\u00e7\u00f5es. \u201cVamos praticamente duplicar nossa capacidade de trabalho\u201d, diz o f\u00edsico Andrew Peele, gerente do Synchrotron. \u201cEstamos muito animados com a expans\u00e3o do laborat\u00f3rio.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">Assim como a Austr\u00e1lia, o Brasil tamb\u00e9m est\u00e1 investindo num acelerador de part\u00edculas. O clima por aqui, no entanto, \u00e9 de apreens\u00e3o com a poss\u00edvel falta de recursos para terminar o projeto. H\u00e1 duas d\u00e9cadas o pa\u00eds j\u00e1 tem uma dessas estruturas, o Laborat\u00f3rio Nacional<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0\u00a0<\/span>de Luz S\u00edncroton, mantido pelo Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), organiza\u00e7\u00e3o social fundada por cientistas em Campinas, no interior paulista. Considerado ultrapassado pela comunidade cient\u00edfica mundial, o acelerador deve ser desativado quando ficar pronto o Sirius, uma nova estrutura com 68 000 metros quadrados de \u00e1rea constru\u00edda ao lado do laborat\u00f3rio atual, ao custo de 1,8 bilh\u00e3o de reais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">O Sirius ter\u00e1 capacidade para realizar quatro vezes mais testes do que faz hoje o similar australiano. A promessa \u00e9 que o brilho gerado pelos el\u00e9trons na nova estrutura tenha qualidade superior \u00e0 dos demais aceleradores no mundo todo, o que permitir\u00e1 testes em materiais impenetr\u00e1veis pelo laborat\u00f3rio atual, como as rochas ao redor da camada de pr\u00e9-sal, onde est\u00e1 boa parte das reservas de petr\u00f3leo brasileiras.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\" b-loaded\" src=\"https:\/\/abrilexame.files.wordpress.com\/2017\/10\/q50a_gestao-conhecimento_a1.png?w=1200\" alt=\"\"   border=\"0\" \/>Toque para ampliar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">Pelo cronograma inicial das obras, de 2014, o Sirius deveria funcionar em pot\u00eancia m\u00e1xima no come\u00e7o de 2019. Agora, a previs\u00e3o otimista \u00e9 que isso aconte\u00e7a daqui a tr\u00eas anos. Tudo em raz\u00e3o do ritmo conta-gotas dos repasses do governo federal, respons\u00e1vel por quase 100% do or\u00e7amento do laborat\u00f3rio atual e investidor \u00fanico do Sirius. Neste ano, em que a constru\u00e7\u00e3o entrou na fase mais importante, a da instala\u00e7\u00e3o do circuito por onde os el\u00e9trons rodar\u00e3o em alt\u00edssima velocidade, a diferen\u00e7a entre o que estava previsto pelo cronograma e o que de fato entrou nos cofres do CNPEM beira os 500 milh\u00f5es de reais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">O descompasso financeiro causou ajustes de contratos com os fornecedores e a troca de algumas pe\u00e7as por similares mais baratos. \u201cEstamos hoje vivendo de m\u00eas em m\u00eas\u201d, diz o f\u00edsico Antonio Jos\u00e9 Roque da Silva, diretor do laborat\u00f3rio. E a expectativa n\u00e3o \u00e9 boa para o ano que vem: o or\u00e7amento previsto do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia, Inova\u00e7\u00f5es e Telecomunica\u00e7\u00f5es deve ser metade do que \u00e9 em 2017. Projetos tocados pela pasta, como o do Sirius, dever\u00e3o sofrer apertos ainda maiores. \u201cO Sirius corre s\u00e9rios riscos de parar\u201d, diz um executivo do minist\u00e9rio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">Na origem de realidades t\u00e3o opostas de Austr\u00e1lia e Brasil na corrida pelo dom\u00ednio de uma estrutura de ponta para o avan\u00e7o do conhecimento est\u00e3o vis\u00f5es bem distintas sobre pol\u00edticas p\u00fablicas para inova\u00e7\u00e3o. Tradicionalmente, os dois pa\u00edses sempre estiveram na categoria de aspirantes a um posto de relev\u00e2ncia na pesquisa cient\u00edfica mundial, com ilhas de excel\u00eancia aqui ou ali, mas sem a mesma consist\u00eancia acad\u00eamica de Estados Unidos, Fran\u00e7a ou Reino Unido. H\u00e1 d\u00e9cadas Brasil e Austr\u00e1lia gastam menos em ci\u00eancia e tecnologia do que a m\u00e9dia da OCDE, o clube das na\u00e7\u00f5es desenvolvidas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">Na Austr\u00e1lia, o enfoque escolhido para fomentar a inova\u00e7\u00e3o foi o de colabora\u00e7\u00e3o entre Estado, academia e iniciativa privada. Desde 1985 o governo australiano concede cr\u00e9ditos fiscais generosos a empresas e pessoas que doam recursos \u00e0s pesquisas em universidades ou laborat\u00f3rios independentes, como o Synchrotron. O resultado: um mercado f\u00e9rtil de fontes de financiamento para a pesquisa. Em 2015, segundo dados do Tesouro australiano, que fiscaliza o programa, cerca de 13 000 doadores colocaram 16 bilh\u00f5es de d\u00f3lares \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de cientistas, em troca de uma ren\u00fancia fiscal que n\u00e3o chegou a 15% do valor investido. Atualmente, cerca de 60% dos gastos em ci\u00eancia e tecnologia no pa\u00eds s\u00e3o financiados por empresas, uma das maiores taxas desse tipo de participa\u00e7\u00e3o no mundo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\" b-loaded\" src=\"https:\/\/abrilexame.files.wordpress.com\/2017\/10\/gestao-4.jpg?quality=70&#038;strip=info&#038;w=1200\" alt=\"\"   border=\"0\" \/>Campus da Universidadede Melbourne: as doa\u00e7\u00f5es vindas de pessoas e empresas s\u00e3o incentivadas | Jeff Greenberg\/Getty Images<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">Enquanto isso, no Brasil, o Estado historicamente foi o grande provedor de recursos para a ci\u00eancia, at\u00e9 por falta de abertura e de est\u00edmulo \u00e0 participa\u00e7\u00e3o privada. Em 2015, os desembolsos da Uni\u00e3o e dos estados somaram 60 bilh\u00f5es de reais, o dobro do que investiram as empresas. Recentemente, a legisla\u00e7\u00e3o brasileira passou a prever incentivos para financiar a inova\u00e7\u00e3o dentro das empresas, como a bem-sucedida Lei do Bem, que d\u00e1 descontos fiscais aos neg\u00f3cios inovadores. Mas ainda n\u00e3o dispomos de mecanismos claros para incentivar a doa\u00e7\u00e3o de recursos \u00e0 pesquisa em universidades ou centros de pesquisa independentes. \u201cN\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a pesquisa \u00e9 t\u00e3o dependente do Estado\u201d, diz o economista Rafael Lucchesi, diretor de educa\u00e7\u00e3o e tecnologia no Servi\u00e7o Nacional de Aprendizagem Industrial.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">No S\u00edncroton de Campinas, por exemplo, s\u00f3 1% dos usu\u00e1rios \u00e9 constitu\u00eddo de funcion\u00e1rios de empresas, e em geral de grandes neg\u00f3cios com algum caixa para queimar em experimentos de longo prazo. \u00c9 o caso da farmac\u00eautica Crist\u00e1lia, que usa o laborat\u00f3rio para analisar as propriedades de fungos encontrados no Nordeste que servir\u00e3o de base para novos antibi\u00f3ticos em breve. A Petrobras analisa ali a resist\u00eancia dos materiais de suas refinarias. J\u00e1 a petroqu\u00edmica Braskem testou no S\u00edncroton as propriedades qu\u00edmicas de um tipo de pl\u00e1stico patenteado por ela e capaz de suportar temperaturas de at\u00e9 100 graus Celsius sem deformar, o que j\u00e1 despertou a aten\u00e7\u00e3o de potenciais clientes nas ind\u00fastrias de embalagens e montadoras de ve\u00edculos no Brasil e nos Estados Unidos. \u201cEsse produto hoje \u00e9 a grande aposta da Braskem para conquistar novos mercados\u201d, diz Patrick Teyssonneyre, diretor global de inova\u00e7\u00e3o e tecnologia da empresa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agenda nacional<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">A consequ\u00eancia dessas diferen\u00e7as \u00e9 que, diferentemente do Brasil, a Austr\u00e1lia tem colhido resultados consistentes em ci\u00eancia e tecnologia. Desde 2002 o investimento na \u00e1rea passou de 1,5% para 2,3% do PIB e est\u00e1 perto de atingir a m\u00e9dia das demais na\u00e7\u00f5es desenvolvidas, de 2,5%. No Brasil, o volume de investimentos estagnou ao redor de 1%. Nos \u00faltimos 15 anos, a Austr\u00e1lia subiu do nono para o sexto lugar no ranking dos maiores gastos per capita com ci\u00eancia, \u00e0 frente de Fran\u00e7a e Reino Unido. Enquanto isso, o Brasil caiu uma posi\u00e7\u00e3o e hoje est\u00e1 em 15<\/span><span class=\"s3\">o<\/span><span class=\"s2\">\u00a0lugar. Na ponta, o volume mais abundante de recursos empurra uma economia que, na contram\u00e3o da tend\u00eancia mundial, est\u00e1 conseguindo reverter a queda nas exporta\u00e7\u00f5es de bens de alto valor agregado \u2014 cuja produ\u00e7\u00e3o migrou expressivamente para a China.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">Em 2014, a fatia dos bens de alta tecnologia em rela\u00e7\u00e3o ao total de exporta\u00e7\u00f5es de manufaturados da Austr\u00e1lia chegou a 14%, 4 pontos percentuais acima do \u00edndice de 2007. No mesmo per\u00edo-do, no Brasil, a participa\u00e7\u00e3o dos bens de alto valor agregado no com\u00e9rcio de bens manufaturados s\u00f3 caiu: de 19% para 10%. Os incentivos \u00e0 comunidade cient\u00edfica australiana motivaram a instala\u00e7\u00e3o de centros<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0\u00a0<\/span>de pesquisa de multinacionais no pa\u00eds, como o da americana Boeing, que em 2017 abriu um laborat\u00f3rio em Brisbane, terceira maior cidade local, para estudar o impacto da realidade aumentada na avia\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\" b-loaded\" src=\"https:\/\/abrilexame.files.wordpress.com\/2017\/10\/q50a_gestao-conhecimento_b1.png?w=1200\" alt=\"\"   border=\"0\" \/>Toque para ampliar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">Por tr\u00e1s da receita do sucesso recente da Austr\u00e1lia no fomento \u00e0 ci\u00eancia de ponta est\u00e3o qualidades h\u00e1 muito tempo em falta no Brasil: vis\u00e3o de longo prazo e comprometimento pol\u00edtico com a transi\u00e7\u00e3o para uma economia baseada em conhecimento. Por l\u00e1, o modelo de usar o dinheiro privado para fomentar a ci\u00eancia se manteve de p\u00e9 por sucessivos governos, independentemente do espectro ideol\u00f3gico. Em 2015, com o fim do ciclo mundial de altos pre\u00e7os para mat\u00e9rias-primas \u2014 o chamado \u201cboom de commodities\u201d, que, assim como o Brasil, beneficiou a Austr\u00e1lia, um dos maiores exportadores de min\u00e9rio de ferro, carne e gr\u00e3os \u2014, o governo do primeiro-ministro liberal Malcolm Turnbull divulgou uma agenda nacional de investimentos em ci\u00eancia e tecnologia com efeitos at\u00e9 2030.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">No rol de medidas, al\u00e9m da reforma do Synchrotron e da amplia\u00e7\u00e3o do sistema de cr\u00e9ditos fiscais para as empresas que investem em inova\u00e7\u00e3o, est\u00e3o mais de 2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares de recursos p\u00fablicos para \u00e1reas em que o pa\u00eds j\u00e1 \u00e9 refer\u00eancia mundial em pesquisas de ponta e que dever\u00e3o gerar neg\u00f3cios promissores nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, como biotecnologia e computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica. \u201cNosso crescimento no futuro vai depender de um \u2018boom de ideias\u2019\u201d, disse Turnbull num v\u00eddeo divulgado no YouTube para anunciar o plano.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">J\u00e1 o Brasil costuma ter uma agenda diferente de ci\u00eancia e tecnologia a cada mandato presidencial. Desde 2007, no governo Lula, o pa\u00eds j\u00e1 teve tr\u00eas planos, com centenas de boas inten\u00e7\u00f5es salpicadas entre a\u00e7\u00f5es, objetivos e \u201ceixos estruturantes\u201d, que, em comum, demonstram uma baixa capacidade do Estado para ter uma vis\u00e3o precisa do que quer para o setor. \u201cO planejamento para a ci\u00eancia costuma deixar de lado crit\u00e9rios de compet\u00eancia para atender a todos os interesses da comunidade cient\u00edfica\u201d, diz Carlos Am\u00e9rico Pacheco, presidente da Fapesp, ag\u00eancia paulista de fomento \u00e0 inova\u00e7\u00e3o. No fim, criam-se documentos que s\u00e3o verdadeiras colchas de retalhos com pouca relev\u00e2ncia para o avan\u00e7o do conhecimento no pa\u00eds. O \u00faltimo, em 2016, j\u00e1 no governo Temer, n\u00e3o contou com o presidente durante a divulga\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">A consequ\u00eancia: planos in\u00f3cuos ou mal concebidos. Talvez o exemplo mais evidente seja o Ci\u00eancia Sem Fronteiras, programa de interc\u00e2mbio lan\u00e7ado em 2011 para alunos de universidades p\u00fablicas, not\u00f3rio pelos casos de estudantes que foram parar em universidades estrangeiras de qualidade inferior \u00e0s que estudavam no Brasil ou em pa\u00edses cujo idioma n\u00e3o dominavam. Pela falta de mecanismos de avalia\u00e7\u00e3o sobre o impacto dessas viagens \u00e0 ci\u00eancia brasileira, neste ano o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, que gastou 12 bilh\u00f5es de reais no projeto, decidiu restringir as bolsas a alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\" b-loaded\" src=\"https:\/\/abrilexame.files.wordpress.com\/2017\/10\/gestao-51.jpg?quality=70&#038;strip=info&#038;w=1200\" alt=\"\"   border=\"0\" \/>Rob\u00f4 para a ind\u00fastria de avi\u00f5es: caso raro de integra\u00e7\u00e3o no Brasil | Andr\u00e9 Lessa<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhando para o futuro, h\u00e1 sinais de que o Brasil, aos poucos, vem adotando algo da cartilha que a Austr\u00e1lia segue para elevar o investimento em ci\u00eancia e tecnologia. Um exemplo \u00e9 a busca de novas fontes de recursos para pesquisa. Desde o ano passado, o Instituto de Tecnologia da Aeron\u00e1utica, centro aberto nos anos 40 por pesquisadores trazidos do americano Massachusetts Institute of Technology, e que at\u00e9 hoje se mant\u00e9m na elite do conhecimento feito no Brasil, deve levantar mais de 20 milh\u00f5es de reais, de fontes como a fabricante sueca de avi\u00f5es Saab, para conduzir 40 projetos de pesquisas, que incluem sat\u00e9lites e aeronaves militares. \u201cA maior concorr\u00eancia por verbas p\u00fablicas de ci\u00eancia no Brasil deve fortalecer nossa estrat\u00e9gia de buscar dinheiro no exterior\u201d, diz o engenheiro Anderson Ribeiro Correia, reitor do ITA.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O financiamento privado pode ganhar um impulso com um projeto de lei da senadora Ana Am\u00e9lia (PP-RS), que j\u00e1 passou pelo Senado e hoje est\u00e1 na C\u00e2mara dos Deputados, prevendo isen\u00e7\u00f5es fiscais aos doadores de recursos para a pesquisa cient\u00edfica. \u201cA inspira\u00e7\u00e3o vem dos fundos patrimoniais de universidades americanas e inglesas de excel\u00eancia, como Harvard e Oxford\u201d, diz Ana Am\u00e9lia. O Brasil at\u00e9 agora n\u00e3o conseguiu criar uma pol\u00edtica sustent\u00e1vel de apoio \u00e0 ci\u00eancia. A torcida \u00e9 para que o esgotamento do financiamento p\u00fablico d\u00ea lugar a um modelo que deu certo na Austr\u00e1lia \u2014 e para que o Brasil consiga acelerar o passo rumo a uma economia baseada no conhecimento.<\/p>\n<p><strong>Repercuss\u00e3o<\/strong>:\u00a0<a href=\"https:\/\/panoramafarmaceutico.com.br\/2017\/11\/06\/investimento-em-pesquisa-o-que-australia-tem-nos-ensinar\/\">Revista Panorama Farmac\u00eautico<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Exame, 3 de novembro de 2017 A Austr\u00e1lia elevou os gastos em pesquisa e tem os planos do setor definidos at\u00e9 2030. 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