{"id":15180,"date":"2016-10-27T11:16:21","date_gmt":"2016-10-27T11:16:21","guid":{"rendered":"https:\/\/cnpem.staging.wpengine.com\/?p=15180"},"modified":"2026-03-02T16:06:17","modified_gmt":"2026-03-02T19:06:17","slug":"desafios-sob-encomenda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cnpem.br\/en\/desafios-sob-encomenda\/","title":{"rendered":"Desafios sob encomenda"},"content":{"rendered":"<p><em>Revista Pesquisa FAPESP em outubro de 2016<\/em><\/p>\n<p><strong>LINK:<\/strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2016\/10\/20\/desafios-sob-encomenda\/\">https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2016\/10\/20\/desafios-sob-encomenda\/<\/a><\/p>\n<p>A face mais not\u00e1vel do sistema de ci\u00eancia e tecnologia do Brasil vincula-se \u00e0 produ\u00e7\u00e3o das universidades e institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e a inova\u00e7\u00f5es geradas por empresas. Mas h\u00e1 uma categoria pouco conhecida de organiza\u00e7\u00e3o que se desenvolveu recentemente e vem gerando contribui\u00e7\u00f5es: s\u00e3o institutos privados, em geral sem fins lucrativos, que fazem pesquisa por encomenda de empresas e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos. No estado de S\u00e3o Paulo, h\u00e1 18 institutos desse tipo, conforme mostrou um levantamento publicado no <a href=\"https:\/\/www.fapesp.br\/publicacoes\/relat2015.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Relat\u00f3rio de Atividades 2015 <\/em>da FAPESP<\/a>. Alguns deles est\u00e3o ligados a hospitais privados e buscam transferir resultados de investiga\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas para o tratamento de pacientes. Outros s\u00e3o centros de Pesquisa e Desenvolvimento (P&amp;D) que se debru\u00e7am sobre desafios em \u00e1reas como tecnologia da informa\u00e7\u00e3o, telecomunica\u00e7\u00f5es e agronomia.<\/p>\n<p>Um dos institutos privados mais antigos e com portf\u00f3lio de produtos e servi\u00e7os mais amplo \u00e9 o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunica\u00e7\u00f5es (CPqD). Antigo centro de pesquisas da estatal Telebras, tornou-se uma funda\u00e7\u00e3o de direito privado sem fins lucrativos h\u00e1 18 anos, ap\u00f3s a desestatiza\u00e7\u00e3o do setor de telecomunica\u00e7\u00f5es. Com 1.100 funcion\u00e1rios, trabalha em projetos em \u00e1reas como comunica\u00e7\u00e3o, computa\u00e7\u00e3o, defesa, redes de dados e seguran\u00e7a, encomendados por empresas que utilizam recursos da Lei de Inform\u00e1tica, do Fundo para o Desenvolvimento Tecnol\u00f3gico das Telecomunica\u00e7\u00f5es (Funttel), do Fundo Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (FNDCT) e do Fundo Tecnol\u00f3gico do BNDES (Funtec). Tamb\u00e9m tem projetos em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inova\u00e7\u00e3o Industrial (Embrapii) e presta consultoria a empresas.<\/p>\n<p>O centro desenvolve pesquisas na fronteira do conhecimento. Recentemente, um grupo coordenado pelo engenheiro eletricista Jacklyn Dias Reis, do CPqD, estabeleceu um novo recorde de dist\u00e2ncia e taxa de transmiss\u00e3o de dados enviados por uma fibra \u00f3ptica. Usando 10 canais na mesma fibra, cada um com capacidade de tr\u00e1fego de 400 gigabits por segundo (Gbps), a equipe conseguiu fazer uma quantidade enorme de dados viajar por 370 quil\u00f4metros (km) de fibras \u00f3pticas e chegar \u00edntegra ao destino (<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2016\/08\/19\/informacao-muito-mais-rapida\/?cat=tecnologia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>ver<\/em> Pesquisa FAPESP <em>n\u00ba 246<\/em><\/a>). Uma peculiaridade do CPqD \u00e9 que alguns projetos se tornaram empresas startups. Um caso recente \u00e9 o da BrPhotonics, criada em 2014 com foco em desenvolvimento de sistemas de comunica\u00e7\u00f5es \u00f3pticas de alta velocidade (<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2015\/12\/15\/mercado-global-e-a-meta\/?cat=tecnologia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>ver<\/em>Pesquisa FAPESP <em>n\u00ba 238<\/em><\/a>). Antes dela, outras empresas sa\u00edram de costelas do CPqD. \u00c9 o caso da Padtec, criada como unidade do centro em 1999, que se tornou uma empresa privada em 2001 (<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2014\/05\/15\/na-velocidade-da-luz\/?cat=tecnologia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>ver<\/em> Pesquisa FAPESP <em>n\u00ba 219<\/em><\/a>). \u201cAl\u00e9m do conhecimento transferido para a sociedade, uma parte da equipe costuma migrar para as startups\u201d, afirma Alberto Paradisi, vice-presidente de inova\u00e7\u00e3o do CPqD, ressaltando que as empresas nascentes tamb\u00e9m se tornaram parceiras da funda\u00e7\u00e3o \u2013 tanto a BrPhotonics como a Padtec atuam com o instituto em projetos de comunica\u00e7\u00f5es \u00f3pticas encomendados por empresas e pelo governo.<\/p>\n<p>O Instituto de Pesquisas Eldorado, sediado em \u00e1rea cont\u00edgua ao <em>campus <\/em>da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), foi criado pela Motorola, em 1999, sem fins lucrativos. Nos primeiros anos, trabalhou praticamente s\u00f3 para a empresa americana, com recursos proporcionados pela Lei de Inform\u00e1tica. Em 2009, viveu uma mudan\u00e7a abrupta, quando a Motorola cortou dois ter\u00e7os dos projetos que patrocinava no instituto. No ano seguinte, a empresa foi vendida. \u201cFoi um momento dif\u00edcil, em que praticamente n\u00e3o tivemos faturamento e est\u00e1vamos endividados com a constru\u00e7\u00e3o de nossa sede\u201d, lembra Jaylton Ferreira, superintendente do Instituto Eldorado. \u201cA solu\u00e7\u00e3o foi oferecer servi\u00e7os para outras empresas de forma agressiva.\u201d<\/p>\n<p>Hoje, o modelo \u00e9 bem diferente. No ano passado, o instituto realizou cerca de 140 projetos de pesquisa com mais de 60 empresas diferentes, entre as quais a Dell, a Samsung, a IBM \u2013 e tamb\u00e9m a Motorola. Os projetos em curso utilizam recursos de fontes como o Fundo Tecnol\u00f3gico do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES), al\u00e9m de parcerias com a Embrapii. A equipe de cerca de 800 funcion\u00e1rios e pesquisadores trabalha em unidades em Campinas, Bras\u00edlia e Porto Alegre, onde prop\u00f5e novas tecnologias e adapta as existentes para celulares, tablets e outros dispositivos, al\u00e9m de realizar testes com esses equipamentos, verificando se atendem \u00e0s normas brasileiras. Parte do faturamento \u00e9 dedicada \u00e0 pesquisa em \u00e1reas com potencial, como a Internet das Coisas (conex\u00e3o \u00e0 web de eletrodom\u00e9sticos e autom\u00f3veis), realidade virtual e tecnologia assistiva.<\/p>\n<p>Institutos como o CPqD e o Eldorado se dedicam tanto \u00e0 pesquisa quanto ao desenvolvimento, mas a maioria dos centros, sobretudo os ligados \u00e0 ind\u00fastria de celulares, atua concentradamente na ponta do desenvolvimento, com destaque para os aplicativos. Leis e pol\u00edticas p\u00fablicas que incentivam o investimento de empresas em P&amp;D sustentam as atividades de boa parte desses institutos. O principal exemplo \u00e9 o da Lei de Inform\u00e1tica, do in\u00edcio dos anos 1990, que concedeu incentivos fiscais, na forma de redu\u00e7\u00e3o do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), para empresas que aplicam parte de seu faturamento em pesquisa. No in\u00edcio da vig\u00eancia da lei, a maioria das empresas usava os recursos em parcerias com universidades. Mais tarde, grandes corpora\u00e7\u00f5es criaram centros, em geral na forma de funda\u00e7\u00f5es sem fins lucrativos, para aproveitar os recursos de forma mais flex\u00edvel.<\/p>\n<p>Foi o caso por exemplo da Alcatel Lucent, que criou a FITec, instituto com unidades em Campinas, S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, Recife e Belo Horizonte, ou o Venturus Inova\u00e7\u00e3o &amp; Tecnologia, criado em 1995 por um cons\u00f3rcio liderado pela Ericsson. \u201cQuem diz que a Lei de Inform\u00e1tica n\u00e3o gerou empregos nem alavancou a tecnologia no pa\u00eds n\u00e3o sabe o que est\u00e1 falando. O volume de pesquisas produzidas gra\u00e7as ao incentivo da lei \u00e9 enorme\u201d, diz Marcelo Abreu, gerente de inova\u00e7\u00e3o e novos neg\u00f3cios do Venturus. Sediado em Campinas, o instituto tem hoje 300 funcion\u00e1rios e boa parte de seu faturamento vem de projetos encomendados por empresas que se beneficiam da Lei de Inform\u00e1tica. Trabalha para v\u00e1rios clientes, alguns concorrentes entre si, e mant\u00e9m salas e equipes dedicadas a cada projeto, a fim de garantir a confidencialidade.<\/p>\n<p>Um dos principais focos \u00e9 o desenvolvimento de aplicativos para telefonia m\u00f3vel. \u201cFomos respons\u00e1veis por desenvolver os aplicativos de celular para as duas \u00faltimas Copas do Mundo de Futebol oferecidos pela Sony Mobile a seus clientes no mundo inteiro\u201d, conta Abreu. Em um estudo publicado em 2010, Eva Stal, professora das Faculdades Metropolitanas Unidas, de S\u00e3o Paulo, mostrou que os institutos criados pelo est\u00edmulo da Lei de Inform\u00e1tica desenvolveram compet\u00eancias inovadoras, diferentes das que costumam resultar de colabora\u00e7\u00f5es entre empresas e universidades. \u201cAo criar os institutos, as empresas tiveram a oportunidade de definir o que iriam fazer, desenvolvendo compet\u00eancias para atender \u00e0s demandas dos fabricantes globais\u201d, escreveu. A capacidade de gerar solu\u00e7\u00f5es novas persiste, observa Gedier Ribeiro, gerente de novos neg\u00f3cios do Instituto de Tecnologia FIT, fundado em 2003 pela ind\u00fastria de produtos eletr\u00f4nicos Flextronics, de Cingapura. \u201cQuando uma empresa n\u00e3o encontra a solu\u00e7\u00e3o que est\u00e1 precisando no mercado, criamos uma tecnologia customizada, que pode ser um rob\u00f4 para sua linha de produ\u00e7\u00e3o, um conjunto de softwares ou um dispositivo de intelig\u00eancia artificial\u201d, explica. A institui\u00e7\u00e3o, com sede em Sorocaba, tem 260 colaboradores. \u201cSetenta por cento dos projetos baseiam-se em benef\u00edcios fiscais. Muitas empresas fazem encomendas e pagam com recursos pr\u00f3prios.\u201d<\/p>\n<p>O modelo dos institutos privados de P&amp;D brasileiros lembra o de organiza\u00e7\u00f5es de pesquisa e tecnologia (RTOs, na sigla em ingl\u00eas) criadas em pa\u00edses desenvolvidos. Tais centros cumprem o papel de gerar novas tecnologias e dissemin\u00e1-las, financiando-se por meio de governos, clientes privados e presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de consultoria. \u00c9 o caso, por exemplo, da alem\u00e3 IABG, criada pelo governo alem\u00e3o em 1961 para desenvolver tecnologias para a ind\u00fastria aeroespacial e privatizada em 1993, que hoje trabalha para a ind\u00fastria automotiva e de telecomunica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Um caso peculiar entre os institutos privados \u00e9 o do Centro de Pesquisas Avan\u00e7adas Wernher von Braun, em Campinas, que nasceu da iniciativa de um pesquisador, o f\u00edsico Dario Sassi Thober. A ideia inicial era realizar pesquisa pura em f\u00edsica, com potencial de aplica\u00e7\u00e3o na ind\u00fastria. Ao longo do tempo, a institui\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos concentrou-se no desenvolvimento de softwares e semicondutores e no gerenciamento de sistemas que trabalham com um volume muito grande de informa\u00e7\u00f5es. O centro concebeu o sistema de pagamento de ped\u00e1gio, utilizado em rodovias do pa\u00eds inteiro, baseado numa etiqueta com um chip instalada em cada autom\u00f3vel e em um dispositivo de detec\u00e7\u00e3o em pra\u00e7as de ped\u00e1gio e estacionamentos. \u201cMontamos uma opera\u00e7\u00e3o fabril na \u00c1sia para produ\u00e7\u00e3o dos semicondutores que desenvolvemos, o que reduziu o custo de opera\u00e7\u00e3o do cliente\u201d, conta Dario Thober, que se ressente da perda de v\u00e1rios talentos que deixaram o instituto ao longo do \u00faltimo ano. \u201cV\u00e1rios deles foram trabalhar em empresas de semicondutores em outros pa\u00edses, com sal\u00e1rios bem acima do nosso mercado.\u201d<\/p>\n<p><strong>Pesquisa em hospitais<\/strong><br \/>\nOutro ambiente em que a pesquisa sob encomenda ganhou express\u00e3o \u00e9 a \u00e1rea privada de sa\u00fade. O Hospital S\u00edrio-Liban\u00eas (HSL), em S\u00e3o Paulo, anunciou em 2015 o desenvolvimento de testes gen\u00e9ticos para guiar a escolha do tratamento mais eficaz contra o c\u00e2ncer e para detectar de forma precoce a progress\u00e3o da doen\u00e7a e o desenvolvimento de resist\u00eancia \u00e0s drogas utilizadas no tratamento (<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2015\/11\/17\/um-flagra-no-cancer\/?cat=tecnologia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>ver <\/em>Pesquisa FAPESP <em>n\u00ba 237<\/em><\/a>). O trabalho, coordenado pela geneticista Anamaria Camargo, foi feito no Instituto S\u00edrio-Liban\u00eas de Ensino e Pesquisa (IEP), cujos laborat\u00f3rios ocupam uma \u00e1rea de mil m<sup>2<\/sup>. O IEP e outros oito institutos ligados a hospitais no estado de S\u00e3o Paulo seguem um modelo que alia assist\u00eancia, ensino e pesquisa. A pesquisa \u00e9 organizada em duas categorias: cl\u00ednica e experimental. A primeira investiga efeitos de medicamentos e terapias testados em pacientes. Tais estudos podem ser encomendados e patrocinados pela ind\u00fastria farmac\u00eautica. J\u00e1 na pesquisa experimental, busca-se conhecimento para combater doen\u00e7as ou aperfei\u00e7oar tratamentos, ainda que os resultados n\u00e3o tenham aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica em um primeiro momento.<\/p>\n<p>Ana Maria Malik, m\u00e9dica e professora da Escola de Administra\u00e7\u00e3o de Empresas da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas de S\u00e3o Paulo (FGV-SP), explica que a estrat\u00e9gia de investir em pesquisa ajuda os hospitais a se tornarem centros de excel\u00eancia. \u201cEles ganham protagonismo, conseguem absorver bons pesquisadores e isso ajuda a qualificar o quadro de funcion\u00e1rios\u201d, esclarece. Em 2008, pesquisadores ligados ao S\u00edrio publicaram 38\u00a0artigos em revistas indexadas. Em 2016, o n\u00famero deve chegar a 170. \u201cUma parcela desses estudos parte de casos cl\u00ednicos de pacientes internados\u201d, informa Luiz Fernando Lima Reis, diretor do IEP-HSL. Em 2016, o S\u00edrio investir\u00e1 cerca de R$ 20 milh\u00f5es em pesquisa. Metade vem do or\u00e7amento do hospital e o restante \u00e9 obtido por meio de contratos com a ind\u00fastria, em ensaios cl\u00ednicos patrocinados ou projetos de valida\u00e7\u00e3o de tecnologias. O montante vindo de ag\u00eancias, como a FAPESP e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq), representa R$ 1 milh\u00e3o. Outro R$ 1 milh\u00e3o vem de doa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No Centro de Pesquisa da Benefic\u00eancia Portuguesa de S\u00e3o Paulo s\u00e3o realizadas pesquisas epidemiol\u00f3gicas, principalmente nas \u00e1reas de cardiologia e nefrologia, e estudos cl\u00ednicos financiados pela ind\u00fastria farmac\u00eautica. Os trabalhos de acompanhamento de pacientes cardiol\u00f3gicos submetidos a procedimentos cir\u00fargicos de revasculariza\u00e7\u00e3o e angioplastia datam de 2009. Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, j\u00e1 foram publicados mais de 107 artigos cient\u00edficos, incluindo, em boa parte deles, pacientes acompanhados pelo hospital. \u201cEstamos buscando novas formas de fomento para a pesquisa\u201d, diz Luiz Eduardo Bettarello, superintendente-executivo de Desenvolvimento T\u00e9cnico da Benefic\u00eancia Portuguesa de S\u00e3o Paulo. J\u00e1 no Instituto de Educa\u00e7\u00e3o e Ci\u00eancias em Sa\u00fade do Hospital Alem\u00e3o Oswaldo Cruz, a maior parte dos recursos para pesquisa \u00e9 obtida por meio de parcerias com empresas, observa o neurologista Jefferson Gomes Fernandes, superintendente de Educa\u00e7\u00e3o e Ci\u00eancias do hospital. \u201cO instituto tem desenvolvido pesquisas cl\u00ednicas com a participa\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos de seu corpo cl\u00ednico\u201d, diz.<\/p>\n<p>Algumas institui\u00e7\u00f5es hospitalares disp\u00f5em de incentivos fiscais para fazer pesquisa. \u201cNo Brasil, hospitais de excel\u00eancia s\u00e3o incentivados pelo governo a fazer estudos cujos resultados possam contribuir para a rede de sa\u00fade p\u00fablica\u201d, explica Ana Maria Malik, da FGV-SP. Hoje, seis hospitais se enquadram nessa categoria: em S\u00e3o Paulo, o S\u00edrio-Liban\u00eas, o Albert Einstein, o do Cora\u00e7\u00e3o (Hcor), o Samaritano e o Oswaldo Cruz; no Rio Grande do Sul, o Hospital Moinhos de Vento. Todos participam do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema \u00danico de Sa\u00fade, o Proadi-SUS, e abatem do imposto de renda montantes aplicados em projetos de pesquisa aprovados pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. No caso do Hospital Oswaldo Cruz, 16 projetos realizados entre 2012 e 2014 foram financiados gra\u00e7as a uma ren\u00fancia fiscal de cerca de R$ 105 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>No Hospital Israelita Albert Einstein, a pesquisa sob encomenda representa 5% dos projetos realizados na institui\u00e7\u00e3o. \u201cA maior parte de nossas pesquisas nasce de perguntas feitas por m\u00e9dicos\u201d, conta Luiz Rizzo, diretor superintendente de pesquisa do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein. Atualmente o hospital tem 15 mil funcion\u00e1rios, dos quais 700 est\u00e3o envolvidos em atividades cient\u00edficas. No total, h\u00e1 459 projetos em andamento. Hoje, a principal linha de pesquisa \u00e9 sobre o envelhecimento. O or\u00e7amento voltado para a pesquisa no hospital \u00e9 de R$ 23 milh\u00f5es ao ano. Em 2016, al\u00e9m dessa quantia, o hospital conta com mais R$ 5 milh\u00f5es de recursos obtidos por meio da participa\u00e7\u00e3o em editais lan\u00e7ados por ag\u00eancias como FAPESP e CNPq, e de parcerias com pesquisadores estrangeiros em projetos apoiados por ag\u00eancias internacionais, como os Institutos Nacionais de Sa\u00fade (NIH), dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Entre os hospitais que desenvolvem pesquisa em S\u00e3o Paulo, h\u00e1 aqueles que se destacam pela tradi\u00e7\u00e3o em certas especialidades. \u00c9 o caso do A.C.Camargo Cancer Center, um dos principais centros de pesquisa e atendimento especializados em oncologia no pa\u00eds. Em 2015, o hospital realizou 35 milh\u00f5es de atendimentos, dos quais 62% foram pelo SUS. Cerca de 90 profissionais se dedicam \u00e0 atividade cient\u00edfica, sem contar parte do corpo cl\u00ednico e assistencial, que tamb\u00e9m desenvolve projetos em colabora\u00e7\u00e3o com o Centro de Pesquisa, localizado em um pr\u00e9dio no bairro da Liberdade, em S\u00e3o Paulo, que foi inaugurado em 2010 na gest\u00e3o do oncologista Ricardo Renzo Brentani. Diretor-presidente da FAPESP entre 2004 e 2011, Brentani presidiu a Funda\u00e7\u00e3o Ant\u00f4nio Prudente, que mant\u00e9m o A.C.Camargo, e foi respons\u00e1vel por implementar, em 1997, o primeiro curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em um hospital privado no pa\u00eds. \u201cO professor Brentani mostrou ao corpo cl\u00ednico que \u00e9 relevante fazer pesquisa, n\u00e3o apenas porque isso faz diferen\u00e7a na carreira, mas porque \u00e9 essencial para combater o c\u00e2ncer\u201d, lembra Vilma Regina Martins, superintendente de Pesquisa e Ensino do A.C.Camargo Cancer Center. Em 2015, foram realizados no hospital 159 projetos e publicados 168 artigos em peri\u00f3dicos internacionais, abordando temas como diagn\u00f3stico e tratamento em oncologia, biologia tumoral e cuidados paliativos.<\/p>\n<p>O Centro Infantil Boldrini, em Campinas, tamb\u00e9m se dedica \u00e0 pesquisa em c\u00e2ncer. Constru\u00eddo gra\u00e7as a doa\u00e7\u00f5es, o hospital filantr\u00f3pico foi fundado em 1978 e especializou-se no tratamento de c\u00e2ncer e doen\u00e7as hematol\u00f3gicas da crian\u00e7a e do adolescente. Atualmente, trata cerca de 6 mil pacientes \u2013 a maioria (80%) \u00e9 atendida pelo SUS. Na pesquisa cl\u00ednica, o centro se destaca por ter coordenado, desde 1980, v\u00e1rios protocolos nacionais para tratamento da leucemia linfoide aguda da crian\u00e7a, que contribu\u00edram para aumentar as chances de cura de 5% para 80%.\u00a0 \u201cCom esses estudos cooperativos, congregando v\u00e1rios hospitais do pa\u00eds, o Boldrini conseguiu implementar tecnologias sofisticadas em exames, a citogen\u00e9tica e t\u00e9cnicas de biologia molecular\u201d, diz a m\u00e9dica Silvia Brandalise, diretora-executiva do centro, que dever\u00e1 inaugurar, em 2017, seu Instituto de Engenharia Molecular e Celular em uma \u00e1rea de 4 mil m\u00b2 em Campinas, fruto de uma parceria com a Unicamp e o Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron (LNLS).<\/p>\n<p><strong>Agroneg\u00f3cio <\/strong><br \/>\nPesquisas aplicadas no campo do agroneg\u00f3cio impulsionam dois tradicionais institutos privados de pesquisa. Um deles \u00e9 o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), criado em 1969. Em 2011, o CTC tornou-se uma sociedade an\u00f4nima, tendo como principais acionistas as empresas Ra\u00edzen e Copersucar, e saiu em busca de novas formas de financiamento para alavancar a pesquisa voltada \u00e0 cana. Um diagn\u00f3stico feito na \u00e9poca mostrou que, embora a produtividade da cana tenha aumentado nas \u00faltimas d\u00e9cadas, havia gargalos que impediam ganhos de produtividade expressivos. \u201cDefinir um foco e aumentar os investimentos em pesquisa \u00e9 essencial para ampliar a produtividade e o modelo adotado pareceu ser o mais adequado para responder a esse desafio, pois permite criar alian\u00e7as estrat\u00e9gicas com outros grupos\u201d, afirma Gustavo Teixeira Leite, presidente do CTC. \u201cA complexidade gen\u00e9tica da cana \u00e9 muito alta: as pesquisas s\u00e3o mais complexas e caras, al\u00e9m de demandarem tempo, o que reduz o interesse das multinacionais em investir no seu desenvolvimento\u201d, diz Leite, que foi presidente no Brasil da multinacional Monsanto.<\/p>\n<p>A meta do CTC \u00e9, at\u00e9 2025, introduzir tecnologias que permitam dobrar a produtividade da cana, hoje na casa das 10 toneladas de a\u00e7\u00facar por hectare. Para chegar l\u00e1, os cerca de R$ 50 milh\u00f5es investidos anualmente foram ampliados para R$ 200 milh\u00f5es por ano. Para dar in\u00edcio ao plano, o centro vendeu 19% de suas a\u00e7\u00f5es ao BNDES por R$ 300 milh\u00f5es, al\u00e9m de ter obtido cr\u00e9ditos do pr\u00f3prio banco e da Financiadora de Estudos Projetos (Finep). Tamb\u00e9m mudou o modelo de neg\u00f3cio, vendendo tecnologia para clientes e recolhendo <em>royalties<\/em>. Seu time de 450 funcion\u00e1rios, sendo 300 na \u00e1rea de pesquisa, est\u00e1 investindo em v\u00e1rias frentes. O n\u00famero de programas de melhoramento gen\u00e9tico cresceu de um para seis, a fim de criar variedades de cana que atendam \u00e0s necessidades das seis regi\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. \u201cO tempo para obter uma nova variedade, que era de 15 anos, foi abreviado para oito anos.\u201d O desenvolvimento de sementes artificiais \u00e9 outro programa de destaque. \u201cPlanta-se cana hoje do mesmo jeito que se fazia no in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o: cortam-se toletes, que s\u00e3o jogados na terra, e espera-se que cres\u00e7am. A ideia \u00e9 produzir sementes a partir de um embri\u00e3o da planta e seme\u00e1-la como se faz com os gr\u00e3os, o que ainda n\u00e3o existe no mundo\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Se o CTC se tornou uma sociedade an\u00f4nima, outra institui\u00e7\u00e3o voltada para a pesquisa agron\u00f4mica, o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), desenvolve suas atividades como uma associa\u00e7\u00e3o privada, sem fins lucrativos, mantida pelos citricultores e pela ind\u00fastria de suco. Fundado em 1977, o Fundecitrus investe hoje R$ 23 milh\u00f5es anuais em pesquisa para o controle de pragas agr\u00edcolas. Uma equipe de 15 pesquisadores trabalha em quatro laborat\u00f3rios sediados em Araraquara e 65 campos experimentais em tr\u00eas estados. Nos anos 1990, com o agravamento da praga Clorose Variegada dos Citrus (CVC), conhecida como \u201camarelinho\u201d, criou seu Departamento Cient\u00edfico, que herdou os objetivos de uma funda\u00e7\u00e3o privada semelhante ao Fundecitrus, a Procitrus. O trabalho, na \u00e9poca, era voltado para a vigil\u00e2ncia e erradica\u00e7\u00e3o de plantas doentes. \u201cChegamos a ter 4 mil inspetores e mil ve\u00edculos, que faziam inspe\u00e7\u00e3o e controle. Hoje, nos tornamos um centro de intelig\u00eancia\u201d, diz Juliano Ayres, gerente do Fundecitrus.<\/p>\n<p>O esfor\u00e7o do fundo, que trabalha com universidades, empresas e unidades da Embrapa, permitiu reduzir a incid\u00eancia do amarelinho de 50% das plantas nos anos 1990 para 3% este ano. O avan\u00e7o ocorreu em raz\u00e3o de um conjunto de pesquisas que buscaram compreender os mecanismos de a\u00e7\u00e3o da praga e control\u00e1-la \u2013 o agente causador da doen\u00e7a, a bact\u00e9ria <em>Xylella fastidiosa<\/em>, foi alvo do primeiro sequenciamento gen\u00e9tico de um pat\u00f3geno feito no mundo, com financiamento da FAPESP e contribui\u00e7\u00e3o do Fundecitrus. \u201cNenhuma citricultura do mundo tem programas de pesquisa como o nosso. Hoje, a principal amea\u00e7a, uma praga conhecida como<em>greening<\/em>, atinge 18% dos nossos laranjais, enquanto na Fl\u00f3rida esse \u00edndice chega a 80%\u201d, compara Ayres.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia em pol\u00edticas p\u00fablicas<br \/>\n<\/strong><em>Cebrap se mant\u00e9m com financiamento privado e de ag\u00eancias p\u00fablicas<br \/>\n<\/em><br \/>\nInstituto de pesquisa dedicado \u00e0s ci\u00eancias sociais e \u00e0s humanidades, o Centro Brasileiro de An\u00e1lise e Planejamento (Cebrap) foi fundado no final dos anos 1960 sob a lideran\u00e7a de um grupo de intelectuais e professores aposentados compulsoriamente pela ditadura militar, como o soci\u00f3logo e futuro presidente da Rep\u00fablica Fernando Henrique Cardoso e o fil\u00f3sofo Jos\u00e9 Arthur Giannotti. Financiado principalmente por funda\u00e7\u00f5es sediadas no exterior, como a Ford e a McArthur, o Cebrap, nos primeiros 15 anos, dedicou-se a estudos que se tornaram refer\u00eancia no campo da sa\u00fade, da demografia e do desenvolvimento urbano.\u00a0Ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o, o financiamento externo minguou e colocou em xeque o modelo. \u201cV\u00e1rios institutos com o mesmo perfil acabaram fechando, mas n\u00f3s conseguimos nos adaptar\u201d, diz a soci\u00f3loga Angela Alonso, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da USP e atual presidente do centro.<\/p>\n<p>Foi necess\u00e1rio, contudo, promover mudan\u00e7as organizacionais. O Cebrap incentivou seus pesquisadores, que hoje s\u00e3o 38 fixos e mais de uma centena de associados, a prestarem concursos em universidades p\u00fablicas e deixou de pagar sal\u00e1rios a eles \u2013 os que s\u00e3o docentes nas universidades p\u00fablicas trabalham de forma volunt\u00e1ria. Os recursos obtidos com as ag\u00eancias de fomento e organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas financiam grandes projetos, como o Centro de Estudos da Metr\u00f3pole, um dos Centros de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o (Cepid), da FAPESP, a participa\u00e7\u00e3o na Plataforma Brasileira de Pol\u00edticas de Drogas, e avalia\u00e7\u00f5es de pol\u00edticas p\u00fablicas para prefeituras.<\/p>\n<p>Outra voca\u00e7\u00e3o s\u00e3o os projetos encomendados por institui\u00e7\u00f5es privadas \u2013 um dos clientes atuais \u00e9 o Banco Ita\u00fa, que pediu ao Cebrap estudos sobre a localiza\u00e7\u00e3o de pontos de aluguel de bicicleta nas principais metr\u00f3poles brasileiras. O financiamento p\u00fablico e privado tem mantido o vigor da pesquisa dentro do Cebrap que, no entanto, ainda enfrenta gargalos. A impossibilidade de usar recursos de projetos de pesquisa para atividades administrativas fez com que o centro tivesse dificuldade, por exemplo, para fazer uma obra simples de acessibilidade em sua sede. <a href=\"https:\/\/cebrap.org.br\/endowment\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma campanha de doa\u00e7\u00f5es<\/a>, direcionada a empres\u00e1rios e ex-alunos, est\u00e1 sendo lan\u00e7ada para ajudar a financiar despesas fixas n\u00e3o relacionadas \u00e0 pesquisa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revista Pesquisa FAPESP em outubro de 2016 LINK:\u00a0https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2016\/10\/20\/desafios-sob-encomenda\/ A face mais not\u00e1vel do sistema de ci\u00eancia e tecnologia do Brasil vincula-se \u00e0 produ\u00e7\u00e3o das universidades e institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1163,12],"tags":[],"class_list":["post-15180","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-clipping-cnpem","category-clipping-lnls","category-1163","category-12","description-off"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.5 - 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