{"id":1276,"date":"2010-06-02T15:40:51","date_gmt":"2010-06-02T15:40:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnpem.staging.wpengine.com\/?p=1276"},"modified":"2026-03-03T10:19:55","modified_gmt":"2026-03-03T13:19:55","slug":"o-et-de-campinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cnpem.br\/en\/o-et-de-campinas\/","title":{"rendered":"O ET de Campinas"},"content":{"rendered":"<p><em>02\/06\/2010, \u00c9poca On line<\/em><\/p>\n<div>\n<div>\n<div id=\"texto\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O ET de Campinas Esque\u00e7a Varginha. Os alien\u00edgenas est\u00e3o entre n\u00f3s. Mas n\u00e3o s\u00e3o mineiros, s\u00e3o paulistas ?Se s\u00f3 n\u00f3s exist\u00edssemos no universo, seria um tremendo desperd\u00edcio de espa\u00e7o? Carl Sagan (1934-1996), astr\u00f4nomo americano, no romance Contato (1985) ?Eles s\u00e3o os invasores. E est\u00e3o entre n\u00f3s,? alertava a frase de abertura de um seriado popular dos anos 1960. \u00c9 a mais pura verdade. Para fazer contato com um extraterrestre, n\u00e3o \u00e9 preciso ir \u00e0 locadora para assistir ET, Contatos imediatos de terceiro grau ou Homens de preto. Basta sair de S\u00e3o Paulo e dirigir uma hora pelas rodovias Anhaguera ou Bandeirantes. Outra op\u00e7\u00e3o \u00e9 embarcar num avi\u00e3o, pousar no aeroporto de Viracopos, entrar num t\u00e1xi e dizer ao motorista: ?Rua Giuseppe M\u00e1ximo Scolfaro, 10000, Jardim Aru\u00e3, em Campinas?. A corrida n\u00e3o dura mais que 15 minutos. No endere\u00e7o fica o Laborat\u00f3rio Nacional de Luz Sincrotron (LNLS), um centro de pesquisas do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia (MCT). \u00c9 l\u00e1 que proliferam ETs. N\u00e3o s\u00e3o seres pesco\u00e7udos com olhos amendoados nem vivem querendo telefonar para casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, s\u00e3o microsc\u00f3picos. S\u00e3o bact\u00e9rias da esp\u00e9cie Deinococcus radiodurans, conhecida por sua espantosa resist\u00eancia \u00e0 radia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o, espantosa n\u00e3o \u00e9 o adjetivo correto. Mais apropriado seria cham\u00e1-la de alien\u00edgena. A radiodurans sobrevive inc\u00f3lume a quaisquer fontes de radia\u00e7\u00e3o naturais no planeta. \u00c9 esta propriedade \u00fanica que torna a radiodurans uma candidata preferencial ao posto de semeadora interplanet\u00e1ria de vida. ?A dose de radiatividade necess\u00e1ria para matar a radiodurans \u00e9 mil vezes superior \u00e0s mais letais fontes de radia\u00e7\u00e3o natural que existem na Terra,? diz Ivan Gl\u00e1ucio Paulino-Lima, 31, doutorando em Biof\u00edsica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ivan \u00e9 um astrobi\u00f3logo. Ele estuda os meios, e barreiras, para a dissemina\u00e7\u00e3o da vida atrav\u00e9s do espa\u00e7o e em outros planetas. Ca\u00e7ando alien\u00edgenas A Astrobiologia \u00e9 um campo de pesquisa recente e em franca expans\u00e3o (leia a entrevista com um dos fundadores da Astrobiologia, Chandra Wickramasinghe, em ?Eram os vermes astronautas??). Enquanto n\u00e3o achamos vida em Marte nem fazemos contatos imediatos com incas venusianos, nada nos impede de procurar entender como seria a vida em outros astros onde imperam condi\u00e7\u00f5es in\u00f3spitas.<br \/>\nO primeiro passo \u00e9 saber como seria uma forma de vida capaz de sobreviver no espa\u00e7o. Quais seriam as caracter\u00edsticas de uma bact\u00e9ria que, ejetada de Marte pelo impacto de um aster\u00f3ide, sobrevivesse inerte no v\u00e1cuo espacial gelado, incrustada num meteorito em uma trajet\u00f3ria err\u00e1tica de 15 milh\u00f5es de anos at\u00e9 cair na Terra e ressuscitar \u2013 sem ser calcinada pela fric\u00e7\u00e3o de 5 mil graus cent\u00edgrados na entrada na atmosfera? O famoso meteorito de Marte ALH84001 achado na Ant\u00e1rtica em 1996, e que supostamente conteria nanobact\u00e9rias f\u00f3sseis, \u00e9 apenas um entre dezenas que foram achados &#8211; uma fra\u00e7\u00e3o \u00ednfima dos milhares que caem na Terra todos os anos, desde que os dois planetas se formaram h\u00e1 4,5 bilh\u00f5es de anos. Para satisfazer todas aquelas condi\u00e7\u00f5es de semeadura interplanet\u00e1ria de vida, astrobi\u00f3logos como Paulino-Lima pesquisam extrem\u00f3filos, organismos capazes de sobreviver a condi\u00e7\u00f5es extremas de calor, frio, acidez, alcalinidade, salinidade, press\u00e3o, seca, v\u00e1cuo e radia\u00e7\u00e3o. Quando o assunto \u00e9 resist\u00eancia \u00e0 radia\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m supera a radiodurans (leia mais sobre a busca de ETs aqui em nosso planeta em ?A Terra tem ETs??, e no Sistema Solar em ?Com ETs, o Universo \u00e9 mais interessante?.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro senhor dos continentes A Terra abriga entre 10 milh\u00f5es e 100 milh\u00f5es de esp\u00e9cies, entre bact\u00e9rias, fungos, plantas e animais (sem falar nos v\u00edrus, que para uma corrente da ci\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o vida, e para outra, na qual me incluo, deram origem \u00e0 vida). A vida \u00e9 baseada no DNA, uma mol\u00e9cula monstruosa e fr\u00e1gil que fragmenta ao ser submetida \u00e0 radia\u00e7\u00e3o ultravioleta (UV), como a emitida pelo Sol. Quando o DNA fragmenta, a c\u00e9lula morre. No caso de organismos multicelulares como n\u00f3s, humanos, os raios UV em doses baixas causam c\u00e2ncer. Doses elevadas matam. A vida surgiu h\u00e1 4 bilh\u00f5es de anos, mas por causa da radia\u00e7\u00e3o UV a vida permaneceu 3,5 bilh\u00f5es de anos dentro d\u2019\u00e1gua, nos oceanos, onde os raios UV n\u00e3o penetram. Os continentes eram desertos est\u00e9reis. A camada de oz\u00f4nio que envolve o planeta e barra quase todos os raios UV solares ainda n\u00e3o havia se formado inteiramente. Foi apenas h\u00e1 cerca de 500 milh\u00f5es de anos que a camada de oz\u00f4nio se fechou, bloqueando os raios UV. S\u00f3 ent\u00e3o a vida p\u00f4de sair dos mares e fertilizar os continentes. \u00c9 prov\u00e1vel que os primeiros seres a rastejar para fora d\u2019\u00e1gua n\u00e3o tenham encontrado uma paisagem inteiramente desprovida de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os continentes bem podem ter sido por incont\u00e1veis eras territ\u00f3rio exclusivo de um ancestral da radiodurans e das outras 40 esp\u00e9cies da sua fam\u00edlia. A radiodurans foi descoberta em 1956, quando americanos experimentavam esterilizar carne enlatada com doses maci\u00e7as de radia\u00e7\u00e3o. Eles submeteram o alimento a uma radia\u00e7\u00e3o de 10 mil grays (Gy). Para termos de compara\u00e7\u00e3o, 5 grays s\u00e3o letais ao ser humano e 2 mil grays eliminam todas as formas de vida. Ao verificar a amostra, os pesquisadores notaram que uma bact\u00e9ria insistia em sobreviver. Repetiram o experimento, aumentaram sua intensidade, mantiveram o banho de raios por 60 horas e nada do micr\u00f3bio sumir. Pelo contr\u00e1rio, ele proliferava. Era a radiodurans. Hoje se sabe que esta fam\u00edlia de bact\u00e9rias possui uma propriedade fantasmag\u00f3rica. Como a lend\u00e1ria f\u00eanix, a ave renasce das pr\u00f3prias cinzas, a radiodurans tamb\u00e9m tem o seu DNA fragmentado ao ser submetida \u00e0 radia\u00e7\u00e3o. No entanto, uma vez eliminada a fonte de raios, os fragmentos voltam a se arranjar rapidamente, e o micr\u00f3bio continua levando sua vidinha, como se nada tivesse acontecido. Este \u00e9 o ET de Campinas. S\u00e3o quatro c\u00e9lulas da bact\u00e9ria Deinococcus radiodurans (Photo courtesy of Dr. Michael Daly) No Laborat\u00f3rio Nacional de Luz Sincrotron, Paulino-Lima submeteu uma cultura de 100 mil c\u00e9lulas da radiodurans a 16 horas ininterruptas de radia\u00e7\u00e3o UV, e a n\u00edveis crescentes. Paulino-Lima n\u00e3o conseguiu determinar qual seria a dose de radia\u00e7\u00e3o suficiente para eliminar a bact\u00e9ria, como publicou no estudo ?Simula\u00e7\u00e3o em laborat\u00f3rio da radia\u00e7\u00e3o ultravioleta interplanet\u00e1ria e seus efeitos na Deinococcus radiodurans?, feito em co-autoria com oastr\u00f4nomo S\u00e9rgio Pilling e o astrof\u00edsico Eduardo Janot Pacheco, entre outros, a ser publicado na revista cient\u00edfica Planetary and Space Science. Uma bact\u00e9ria resistente \u00e0s doses cavalares de radia\u00e7\u00e3o geradas em um laborat\u00f3rio de ponta como o LNLS n\u00e3o \u00e9 uma inc\u00f3gnita trivial. Quando Paulino-Lima afirma que a radiodurans resiste a uma dose de radia\u00e7\u00e3o mil vezes superior \u00e0s mais letais fontes naturais de radia\u00e7\u00e3o terrestres, surge a pergunta que n\u00e3o quer calar. Se n\u00e3o h\u00e1 no planeta nenhuma press\u00e3o ambiental capaz de selecionar tamanha resist\u00eancia \u00e0 radia\u00e7\u00e3o nos ancestrais da radiodurans, onde ser\u00e1 que eles evolu\u00edram essa resist\u00eancia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Basta erguer os olhos. A resposta est\u00e1 l\u00e1 em cima, bem al\u00e9m do azul do c\u00e9u, na vastid\u00e3o espacial. Nas cercanias do Sol e de qualquer outra dos bilh\u00f5es de estrelas da Via L\u00e1ctea, a radia\u00e7\u00e3o pode ser incomensur\u00e1vel. Ser\u00e1 realmente necess\u00e1rio continuar buscando extraterrestres fora da Terra ou ser\u00e1 que eles sempre estiveram aqui, bem debaixo dos nossos olhos? Esque\u00e7a Varginha. Os alien\u00edgenas podem estar entre n\u00f3s. Talvez aqui do lado, em Campinas. Link da mat\u00e9ria: <a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/estadaodehoje\/20100606\/not_imp562194,0.php\">https:\/\/www.estadao.com.br\/estadaodehoje\/20100606\/not_imp562194,0.php<\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>02\/06\/2010, \u00c9poca On line O ET de Campinas Esque\u00e7a Varginha. Os alien\u00edgenas est\u00e3o entre n\u00f3s. 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