{"id":11432,"date":"2015-03-04T17:19:46","date_gmt":"2015-03-04T17:19:46","guid":{"rendered":"https:\/\/cnpem.staging.wpengine.com\/?p=11432"},"modified":"2022-01-21T16:59:52","modified_gmt":"2022-01-21T19:59:52","slug":"engenharia-e-a-estrela-do-projeto-sirius","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cnpem.br\/en\/engenharia-e-a-estrela-do-projeto-sirius\/","title":{"rendered":"Engenharia \u00e9 a estrela do Projeto Sirius"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.grandesconstrucoes.com.br\/br\/index.php?option=com_conteudo&amp;task=viewMateria&amp;id=1684\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Revista Grandes Constru\u00e7\u00f5es<\/a>, 19 de fevereiro de 2015<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><em>Entrevista com o coordenador das obras do Projeto Sirius, engenheiro Oscar Vigna<\/em><\/h4>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/cnpem.staging.wpengine.com\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/1684_G.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-11433\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cnpem.staging.wpengine.com\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/1684_G.jpg?resize=250%2C361&#038;ssl=1\" alt=\"1684_G\" width=\"250\" height=\"361\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/cnpem.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/1684_G.jpg?w=250&amp;ssl=1 250w, https:\/\/i0.wp.com\/cnpem.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/1684_G.jpg?resize=208%2C300&amp;ssl=1 208w\" sizes=\"auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Novo acelerador de el\u00e9trons brasileiro ocupar\u00e1 pr\u00e9dio extremamente sofisticado, com exig\u00eancia de estabilidade mec\u00e2nica e t\u00e9rmica sem precedentes na hist\u00f3ria da engenharia brasileira<\/p>\n<p>Sirius \u00e9 a estrela mais brilhante que pode ser observada no c\u00e9u, em ambos os hemisf\u00e9rios,em magnitude aparentede -1,46. Ela pertence \u00e0 constela\u00e7\u00e3o do C\u00e3o Maior e est\u00e1 localizada a uma dist\u00e2ncia de cerca de 8,6 anos-luz da terra, o que a torna uma das estrelas mais pr\u00f3ximas de n\u00f3s. \u00c9 mais de 20 vezes mais brilhante que o Sol e duas vezes mais massiva que ele, e por isso surge no c\u00e9u noturno como a mais brilhante.<\/p>\n<p>Justamente por essa import\u00e2ncia e magnitude, Sirius empresta seu nome \u00e0quele que est\u00e1 sendo considerado o maior projeto da hist\u00f3ria da ci\u00eancia brasileira, at\u00e9 o momento. Trata-se da constru\u00e7\u00e3o do novo acelerador de el\u00e9trons \u00a0do Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron (LNLS), em Campinas (SP), cujas obras j\u00e1 foram iniciadas, a um custo estimado em R$ 650 milh\u00f5es. A expectativa da comunidade cient\u00edfica em rela\u00e7\u00e3o ao projeto \u00e9 igualmente grande. A luz s\u00edncrotron \u00e9 um tipo de radia\u00e7\u00e3o eletromagn\u00e9tica de amplo espectro, que abrange desde o infravermelho at\u00e9 os raios X. Ela \u00e9 emitida por el\u00e9trons em velocidade pr\u00f3xima \u00e0 da luz, quando sua trajet\u00f3ria \u00e9 desviada por um campo magn\u00e9tico.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.grandesconstrucoes.com.br\/br\/images\/stories\/1684_G_2.jpg?w=1200&#038;ssl=1\" alt=\"\" align=\"left\" border=\"o\" \/><\/p>\n<p>O acelerador funciona como um gigantesco microsc\u00f3pio, que os cientistas utilizam para enxergar a estrutura at\u00f4mica e molecular de diferentes materiais, iluminando-os com os diferentes tipos de radia\u00e7\u00e3o presentes na luz s\u00edncrotron. Pode ser uma rocha, uma prote\u00edna, uma amostra de solo, um dente de dinossauro, um cabo de a\u00e7o usado em plataformas de petr\u00f3leo, um fio de cabelo, ou qualquer outra coisa que se queira conhecer nos m\u00ednimos detalhes.<\/p>\n<p>Com a tecnologia, \u00e9 poss\u00edvel entender materiais, tanto do ponto de vista estrutural quanto funcional. Com a luz sincrotron se investiga, por exemplo, que tipos de \u00e1tomos e mol\u00e9culas fazem parte de um material, qual \u00e9 a dist\u00e2ncia entre eles, como eles interagem, quais s\u00e3o suas propriedades magn\u00e9ticas e v\u00e1rias outras quest\u00f5es.Ela \u00e9 usada em v\u00e1rias \u00e1reas de pesquisa, como f\u00edsica, qu\u00edmica, biologia, geologia, nanotecnologia, engenharia de materiais e at\u00e9 paleontologia.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.grandesconstrucoes.com.br\/br\/images\/stories\/1684_G_3.jpg?w=1200&#038;ssl=1\" alt=\"\" border=\"o\" \/><\/p>\n<p>O acelerador ser\u00e1 montado majoritariamente com tecnologia brasileira e instalado pr\u00f3ximo ao atual equipamento brasileiro, o UVX, que entrou em opera\u00e7\u00e3o em 1997, passando a atender a cerca de 1,4 mil pesquisadores por ano, com quase 3 mil trabalhos cient\u00edficos. A LNLS promove pesquisa em f\u00edsica, biologia e nanotecnologia e desenvolve, desde a d\u00e9cada de 90, projetos nas \u00e1reas de f\u00edsica, qu\u00edmica, engenharia, meio ambiente e ci\u00eancias da vida.<\/p>\n<p>O S\u00edrius ser\u00e1 um acelerador de el\u00e9trons de quarta gera\u00e7\u00e3o e um dos primeiros nesta classifica\u00e7\u00e3o, no mundo. Quando pronto, produzir\u00e1 luz de alt\u00edssimo brilho, cujo feixe ser\u00e1 capaz de penetrar materiais densos, com impacto determinante para a nanotecnologia e biotecnologia. Igual a ele, somente o MAX IV, que est\u00e1 sendo constru\u00eddo na Su\u00e9cia.<\/p>\n<p>A luz \u00e9 gerada pela acelera\u00e7\u00e3o de el\u00e9trons, que viajam dentro de um anel de 518 metros de comprimento (165 metros de di\u00e2metro) a uma velocidade muito pr\u00f3xima \u00e0 velocidade da luz, que \u00e9 de aproximadamente 300 mil km\/s. Nas tangentes ao anel est\u00e3o localizadas as \u201clinhas de luz\u201d, que s\u00e3o as esta\u00e7\u00f5es de trabalho nas quais os pesquisadores realizam seus experimentos com a luz que sai do anel. V\u00e1rias linhas de luz funcionam simultaneamente, mas cada uma \u00e9 otimizada para um tipo de pesquisa de acordo com a necessidade do experimento a ser realizado.<\/p>\n<p>Para abrigar equipamento de t\u00e3o elevado padr\u00e3o de tecnologia, ser\u00e1 constru\u00eddo um pr\u00e9dio extremamente sofisticado, com exig\u00eancia de estabilidade mec\u00e2nica e t\u00e9rmica sem precedentes na hist\u00f3ria da engenharia brasileira. Sem d\u00favida, do ponto de vista da constru\u00e7\u00e3o civil, esse ser\u00e1 um grande desafio.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.grandesconstrucoes.com.br\/br\/images\/stories\/1684_G_4.jpg?w=1200&#038;ssl=1\" alt=\"\" align=\"left\" border=\"o\" \/><\/p>\n<p>Para falar sobre isso, Grandes Constru\u00e7\u00f5es entrevistou o coordenador das obras do S\u00edrius, engenheiro Oscar Vigna. Ele detalha o projeto, fala das suas dificuldades e o que ele representa, como sinal de maturidade da nossa Engenharia.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um projeto modular, a ser desenvolvido em tapas. Nessa primeira ser\u00e3o 40 meses de constru\u00e7\u00e3o. A LNLS considera o m\u00eas de setembro de 2017 como um marco para o S\u00edrius, pois \u00e9 quando ocorrer\u00e1 a libera\u00e7\u00e3o para montagem do anel, ap\u00f3s a conclus\u00e3o do pr\u00e9dio. Todos os equipamentos que ir\u00e3o compor o S\u00edrius est\u00e3o sendo constru\u00eddos em paralelo \u00e0s obras. Em 2018 ser\u00e1 inaugurado para testes.<\/p>\n<p><strong>Grandes Constru\u00e7\u00f5es \u2013 Quais s\u00e3o as principais caracter\u00edsticas do pr\u00e9dio que abrigar\u00e1 o Projeto Sirius e qual a complexidade dos desafios de engenharia envolvidos na sua constru\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Oscar Vigna \u2013<\/strong>\u00a0A finalidade do pr\u00e9dio \u00e9 abrigar o que chamamos de fonte de luz sincreton, que \u00e9 composta por um conjunto de tr\u00eas aceleradores de el\u00e9trons, dois dos quais com um formato circular, e o maior deles com 518 metros de circunfer\u00eancia. Ou seja, o el\u00e9tron, para percorrer uma volta completa neste acelerador tem que percorrer uma dist\u00e2ncia de 518 metros. Tangenciais \u00e0s curvas desses aceleradores ser\u00e3o instaladas o que chamamos de linhas de luz. \u00c9 nesse sistema que produzimos a radia\u00e7\u00e3o s\u00edncrotron. Em linguagem bastante simplificada, o princ\u00edpio de funcionamento \u00e9 o seguinte: n\u00f3s aceleramos os el\u00e9trons \u00e0 velocidade da luz, em dois dos aceleradores, para produzir energia, que \u00e9 recolhida no \u00faltimo deles, o maior, de 518 metros, que n\u00f3s chamamos de anel de armazenamento de el\u00e9trons. Toda vez que esses el\u00e9trons s\u00e3o defletidos, eles produzem a radia\u00e7\u00e3o sincreton, que \u00e9 uma onda eletromagn\u00e9tica que sai pela tangente de onde o eletron est\u00e1 fazendo a curva. Nessas tangentes s\u00e3o colocadas as linhas de luz, que capturam essa radia\u00e7\u00e3o, fazendo um tratamento \u00f3tico nelas, selecionando as frequ\u00eancias e os tamanhos que n\u00f3s queremos. Essa radia\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para cada linha \u00e9 aplicada sobre uma amostra de mat\u00e9ria. E dessa intera\u00e7\u00e3o entre a radia\u00e7\u00e3o e a mat\u00e9ria &#8212; isso \u00e9 feito a partir de diversas t\u00e9cnicas &#8212; n\u00f3s conseguimos fazer a explora\u00e7\u00e3o da estrutura da mat\u00e9ria.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.grandesconstrucoes.com.br\/br\/images\/stories\/1684_G_5.jpg?w=1200&#038;ssl=1\" alt=\"\" border=\"o\" \/><\/p>\n<p><strong>GC \u2013 Um n\u00edvel de tecnologia t\u00e3o avan\u00e7ada exige instala\u00e7\u00f5es igualmente sofisticadas, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Oscar Vigna \u2013<\/strong>\u00a0Exatamente! Para abrigar uma fonte dessas, com caracter\u00edsticas de estabilidade dimensional muitograndes \u2013 porque estamos falando de focos de luz da ordem de nano metros,e isso aplicado a dezenas de centenas de metros de dist\u00e2ncia da fonte \u2013 voc\u00ea come\u00e7a a pensar em aceleradores e linhas de luz em que a deforma\u00e7\u00e3o de toda essa estrutura tem que ser controlada tamb\u00e9m na ordem de nano metros. E isso tem que estar dentro de um pr\u00e9dio, com caracter\u00edsticas especiais para acondicionar toda essa parafern\u00e1lia.<\/p>\n<p><strong>GC \u2013 Nesse processo de produ\u00e7\u00e3o da energia sincreton, qualquer vibra\u00e7\u00e3o, por menor que seja, gera uma interfer\u00eancia gigantesca.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Oscar Vigna \u2013\u00a0<\/strong>Isso mesmo. Um dos aspectos cr\u00edticos dessa edifica\u00e7\u00e3o \u00e9 a imunidade \u00e0s vibra\u00e7\u00f5es. Sejam as vibra\u00e7\u00f5es produzidas pelo terreno, pelas ruas pr\u00f3ximas, pelos vizinhos no entorno do pr\u00e9dio etc., que se propagam para dentro do pr\u00e9dio; sejam elas produzidas pela pr\u00f3pria edifica\u00e7\u00e3o que abrigar\u00e1 o laborat\u00f3rio; sejam pela rede de utilidades, como sistema de ar refrigerado, sistemas el\u00e9trico e hidr\u00e1ulico. Al\u00e9m disso, o pr\u00e9dio ter\u00e1 gente trabalhando l\u00e1 dentro, caminhando. Vai ter toda a movimenta\u00e7\u00e3o dos equipamentos, que estar\u00e3o muito pr\u00f3ximos aos locais aceleradores. Todas essas fontes de vibra\u00e7\u00f5es t\u00eam que ser neutralizadas, filtradas de tal maneira que se tenha uma estrutura bastante est\u00e1vel.<\/p>\n<p>Outro aspecto importante envolvendo toda a estrutura predial \u00e9 que os aceleradores exigem que as deforma\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 sua sustenta\u00e7\u00e3o sejam muito controladas.O piso sobre o qual eles ser\u00e3o colocados tem uma especifica\u00e7\u00e3o que foi passada pelo pessoal de projeto. Nesta especifica\u00e7\u00e3o est\u00e1 registrado que ele n\u00e3o pode deformar em mais de um quarto de mil\u00edmetro a cada 10 metros, no espa\u00e7o de um ano. Isso afeta bastante n\u00e3o s\u00f3 o piso industrial como tamb\u00e9m toda a constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>GC \u2013Por que essa especifica\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Oscar Vigna \u2013<\/strong>\u00a0Porque se h\u00e1 uma deforma\u00e7\u00e3o maior do que essa, os equipamentos se desalinham de tal forma que teriam que exigir um realinhamento mec\u00e2nico. E fazer o realinhamento mec\u00e2nico de um acelerador de 500 metros exigiria um trabalho delicado de no m\u00ednimo um ou dois meses. Se o piso subisse por igual, n\u00e3o teria import\u00e2ncia, mas isso n\u00e3o acontece.<\/p>\n<p>Esse pr\u00e9dio do qual n\u00f3s estamos falando tem o formato circular, com um furo no centro, lembrando o desenho de um donuts. A sala onde ser\u00e1 instalado o acelerador ter\u00e1 um piso com di\u00e2metro m\u00e9dio de 520 metros,com cerca de 15 metros de largura, que, ao fim da concretagem, ser\u00e1 uma pe\u00e7a \u00fanica. Ou seja: n\u00e3o ter\u00e1 juntas de dilata\u00e7\u00e3o. Ter\u00e1, sim, as juntas de constru\u00e7\u00e3o, mas esse piso acaba sendo uma pe\u00e7a \u00fanica, como se fosse um piso monol\u00edtico, e circular, o que \u00e9 um agravante. Porque ele vai trabalhar, vai se contrair ou expandir, se for exposto a varia\u00e7\u00f5es t\u00e9rmicas, mas, do ponto de vista de n\u00edvel, se ele tiver que deformar, ele n\u00e3o poder\u00e1 deformar relativamente, ter\u00e1 que ser por igual. Mas ele tamb\u00e9m n\u00e3o pode ficar se expandindo e contraindo. Por isso, o processo de constru\u00e7\u00e3o dele vai ser todo fatiado, vamos trabalhar com concreto de baix\u00edssima retra\u00e7\u00e3o, o tipo dos agregados tamb\u00e9m \u00e9 um detalhe importante. Na verdade, toda a consultoria de concreto \u00e9 uma quest\u00e3o extremamente importante nesse projeto. Muito provavelmente n\u00f3s devemos fazer algumas provas antes da constru\u00e7\u00e3o. \u00a0Portanto, h\u00e1 toda uma demanda por especifica\u00e7\u00f5es especiais, desde o est\u00e1gio de projeto at\u00e9 a execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.grandesconstrucoes.com.br\/br\/images\/stories\/1684_G_6.jpg?w=1200&#038;ssl=1\" alt=\"\" align=\"left\" border=\"o\" \/><\/p>\n<p><strong>GC \u2013 No tocante ao tratamento do solo e funda\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m foram feitas especifica\u00e7\u00f5es sofisticadas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Oscar Vigna \u2013<\/strong>\u00a0Evidentemente. Para se ter uma ideia das exig\u00eancias, a \u00e1rea do pr\u00e9dio onde ser\u00e3o depositados os aceleradores e as linhas de luz, que \u00e9 o que chamamos de hall experimental, do ponto de vista de funda\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 totalmente destacada do restante do pr\u00e9dio \u00e0 sua volta.<\/p>\n<p>O pr\u00e9dio em volta ser\u00e1 depositado sobre funda\u00e7\u00f5es com estacas h\u00e9lice continuas monitoradas, toda a infraestrutura e superestrutura \u00e9 em concreto moldado in loco. Esse pr\u00e9dio ter\u00e1 tr\u00eas pavimentos nessa regi\u00e3o, cujos pisos ser\u00e3o em lajes, de maneira o garantir uma rigidez gigantesca a toda essa estrutura.<\/p>\n<p>Essa solu\u00e7\u00e3o foi adotada a partir de uma s\u00e9rie de simula\u00e7\u00f5es que foram feitas para antecipar como esse pr\u00e9dio se comportaria, para evitar justamente essas vibra\u00e7\u00f5es e outras perturba\u00e7\u00f5es a partir da circula\u00e7\u00e3o de pessoas.<\/p>\n<p>Ao todo ser\u00e3o 900 estacas na edifica\u00e7\u00e3o externa, e depois mais 1,3 mil estacas de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, fundamental para a estrutura do pr\u00e9dio.<\/p>\n<p><strong>GC \u2013 Como esse pr\u00e9dio ser\u00e1 ocupado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Oscar Vigna \u2013<\/strong>\u00a0Imagine um pr\u00e9dio com tr\u00eas faixas de circunfer\u00eancias. Na primeira delas, indo do centro em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s extremidades, ser\u00e3o depositadas a casa de m\u00e1quinas, as centrais de utilidades com schillers, bombas, compressores, bem como todas as salas e fontes, onde ficar\u00e3o os sistemas destinados a alimentar os aceleradores. Na segunda faixa ficar\u00e1 o hall experimental, de que eu falei, com o que chamamos de piso cr\u00edtico, onde ser\u00e3o depositados os aceleradores e as linhas de luz.<\/p>\n<p><strong>GC \u2013 Esse ser\u00e1 o ponto mais sens\u00edvel de toda a estrutura predial?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Oscar Vigna \u2013<\/strong>\u00a0Exatamente. Essa faixa do meio, como falei, ser\u00e1 totalmente destacada das demais. E na faixa externa eu terei tr\u00eas pavimentos. O primeiro deles, que circunda o pr\u00e9dio, ser\u00e1 destinado \u00e0 instala\u00e7\u00e3o dos laborat\u00f3rios de apoio. Ser\u00e3o laborat\u00f3rios qu\u00edmicos, f\u00edsicos, para prepara\u00e7\u00e3o de amostras, pessoal de v\u00e1cuo, pessoal de alinhamento, etc.No segundo pavimento teremos escrit\u00f3rios. E no terceiro, teremos uma \u00e1rea t\u00e9cnica, com um conjunto de pain\u00e9is, como os de subesta\u00e7\u00e3o de energia, algumas m\u00e1quinas de ar condicionado, etc.<\/p>\n<p>Toda essa estrutura da primeira e da segunda faixas ser\u00e1 interligada pela cobertura do pr\u00e9dio, que ser\u00e1 em estrutura met\u00e1lica, provavelmente com telhastrapezoidais, totalmente apoiada sobre elementos que t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de atenuar parte da vibra\u00e7\u00e3o que \u00e9 produzida pela pr\u00f3pria estrutura.<\/p>\n<p><strong>GC\u2013 \u00c9 como se fosse um sistema de suspens\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Oscar Vigna \u2013<\/strong>\u00a0Exatamente. S\u00e3o aparelhos el\u00e1sticos que t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de compensar as deforma\u00e7\u00f5es da estrutura met\u00e1lica e do concreto, em fun\u00e7\u00e3o das varia\u00e7\u00f5es de temperatura, e tamb\u00e9m t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de atenuar as vibra\u00e7\u00f5es. \u00a0E outro aspecto importante dessa cobertura e a transmit\u00e2ncia t\u00e9rmica, que \u00e9 das mais baixas que se encontra no mercado. Isso porque outro aspecto important\u00edssimo nesse projeto \u00e9 a estabilidade t\u00e9rmica desta \u00e1rea onde fica localizado o piso cr\u00edtico. Imagine esse hall, com 600 metros de circunfer\u00eancia, por 30 metros de largura, e cerca de 10 metros de p\u00e9-direito, mantido a uma temperatura de meio grau.<\/p>\n<p>E dentro desse hall, protegendo os aceleradores,n\u00f3s ainda teremos uma blindagem em concreto moldado in loco, com paredes da parte interna com 80 cent\u00edmetros de espessura; da parte externa com 1 metro, ou 1 metro e meio de espessura, dependendo dos trechos; e a cobertura com 1 metro de espessura.<\/p>\n<p>Como os tr\u00eas aceleradores produzem radia\u00e7\u00e3o, para tornar o exterior habit\u00e1vel, \u00e9 necess\u00e1rio fazer essa prote\u00e7\u00e3o radiol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>CG \u2013 Isso significa que essas instala\u00e7\u00f5es, caso n\u00e3o sejam tomadas as devidas precau\u00e7\u00f5es, est\u00e3o sujeitas a contamina\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Oscar Vigna \u2013<\/strong>\u00a0N\u00e3o. A fonte de energia \u00e9 passiva. Voc\u00ea tem que energizar para ter radia\u00e7\u00e3o. Desligou, cessa radia\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o \u00e9 uma fonte permanente de energia. A radia\u00e7\u00e3o s\u00f3 existe se eu tiver o el\u00e9tron girando. Se eu corto a radiofrequ\u00eancia, que \u00e9 o que impulsiona o el\u00e9tron, ele se perde e acabou a radia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 possibilidade de vazamento de energia ou radia\u00e7\u00e3o, e se voc\u00ea abrir uma das portas de acesso ao t\u00fanel do anel de 518 metros, imediatamente um sistema de seguran\u00e7a desliga os im\u00e3s que s\u00e3o respons\u00e1veis pela manuten\u00e7\u00e3o dos el\u00e9trons em movimento.<\/p>\n<p><strong>CG \u2013 Quando o laborat\u00f3rio dever\u00e1 entrar bem pleno funcionamento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Oscar Vigna \u2013<\/strong>\u00a0Este \u00e9 um projeto modular, dividido em fases. Inicialmente n\u00f3s s\u00f3 vamos instalar 13 das 40 linhas de luz previstas no projeto como um todo. Todas as 40 linhas de luz, dever\u00e3o levar uns 10 ou 15 anos para entrarem em funcionamento. Todas as instala\u00e7\u00f5es previstas, portanto, ser\u00e3o constru\u00eddas de forma modular. Dos 10 schillers previstos em projeto, para o pr\u00e9dio completo, n\u00f3svamos fazer apenas sete, agora. N\u00f3s vamos construir todo o pr\u00e9dio, fechar toda a casca dele, mas uma boa parte das salas, laborat\u00f3rios de apoio, escrit\u00f3rios, ou seja, metade da circunfer\u00eancia deste pr\u00e9dio vai ficar inacabada.Quando partirmos para uma segunda etapa do projeto, vamos fazer mais 25 linhas de luz, e junto com elas vamos fazer o complemento das edifica\u00e7\u00f5es, as instala\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, das redes de utilidades etc.<\/p>\n<p>N\u00e3o adianta fazer 40 linhas de luz agora, at\u00e9 porque n\u00e3o h\u00e1 usu\u00e1rio pra isso tudo. Al\u00e9m disso, estas t\u00e9cnicas de prospec\u00e7\u00e3o evoluem muito rapidamente. Este \u00e9 um setor em processo de inova\u00e7\u00e3o constante. Ent\u00e3o, aquilo que estamos prevendo fazer hoje, muito provavelmente daqui a uns tr\u00eas anos j\u00e1 estar\u00e1 superado.<\/p>\n<p><strong>CG \u2013 A Racional Engenharia \u00e9 a empresa respons\u00e1vel pela execu\u00e7\u00e3o do projeto do laborat\u00f3rio. Ela j\u00e1 tinha conhecimento t\u00e9cnico espec\u00edfico pra isso, ou foi buscar esse conhecimento do exterior?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Oscar Vigna \u2013\u00a0<\/strong>N\u00e3o tinha. A coisa funcionou da seguinte forma: quando n\u00f3s come\u00e7amos a pensar esse projeto, de desenvolver essa segunda fonte um pouco mais avan\u00e7ada, de quarta gera\u00e7\u00e3o, n\u00f3s pensamos tamb\u00e9m em recorrer ao conhecimento de todo esse pessoal que construiu esses aceleradores que existem. E essa \u00e9 uma \u00e1rea muito competitiva, mas tamb\u00e9m \u00e9 muito colaborativa.<\/p>\n<p>Nessa \u00e1rea de pesquisa, \u00e9 \u00f3bvio que todo mundo quer descobrir uma novidade antes dos outros. Mas todo mundo colabora em prol do desenvolvimento do conhecimento cient\u00edfico. Desde o pessoal dos equipamentos, at\u00e9 o pessoal do building, todo mundo interage com os outros laborat\u00f3rios. E com o nosso projeto foi assim. Participamos de uma s\u00e9rie de visitas a instala\u00e7\u00f5es, fomos a uma s\u00e9rie de congressos, confer\u00eancias, sempre perguntando: como voc\u00eas constru\u00edram, quais foram as dificuldades, como voc\u00eas controlam, etc. Houve uma troca muito intensa de experi\u00eancias e informa\u00e7\u00f5es muito intensa. Quando est\u00e1vamos fazendo a contrata\u00e7\u00e3o do projeto executivo, que foi feito pela Engineering, organizamos um workshopsobre estabilidade. Trouxemos representantes de outros laborat\u00f3rios envolvidos com isso, e convidamos representantes das empresas de projeto. Houve uma grande intera\u00e7\u00e3o com o pessoal de fora do Brasil, que persiste at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>A Engineering, por exemplo, visitou v\u00e1rios laborat\u00f3rios no exterior, interagiu com o \u00a0pessoal que construiu ou est\u00e1 construindo empreendimentos deste tipo. Mas n\u00e3o podemos esquecer que aqui temos condicionantes que mudam tudo, como tipos de solo, clima, mercados, disponibilidade de materiais. Enfim, o desafio foi lan\u00e7ado para as empresas nacionais, discutimos muito, fizemos uma s\u00e9rie de prot\u00f3tipos \u2013 a solu\u00e7\u00e3o para o piso especial, por exemplo, atrasou o projeto em mais de seis meses \u2013 mas fizemos uma op\u00e7\u00e3o: n\u00e3o adiantava cumprir prazos se o pr\u00e9dio n\u00e3o funcionar como queremos. Em fun\u00e7\u00e3o disso, a obra est\u00e1 ficando mais cara justamente porque n\u00f3s dilatamos o cronograma, Uma obra que \u00e9 poss\u00edvel fazer em 30 meses, n\u00f3s fazer em 40 meses.<\/p>\n<p><strong>GC \u2013 Qual o status da obra hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Oscar Vigna \u2013\u00a0<\/strong>O canteiro j\u00e1 foi instalado. N\u00f3s iniciamos a obra oficialmente em 1 de dezembro de 2014. Como marco n\u00f3s temos o 29\u00ba m\u00eas, que \u00e9 quando a construtora tem que nos entregar a tal blindagem de concreto de que eu falei, para come\u00e7armos a montagem dos aceleradores. Isso \u00e9 um complicador, porque teremos obras acontecendo, simultaneamente \u00e0 instala\u00e7\u00e3o de equipamentos extremamente delicados. Para solucionar esse desafio, teremos que investir muito em log\u00edstica e planejamento. Por \u00a0tudo isso, acreditamos ia das que o Sirius ser\u00e1 n\u00e3o apenas um marco na hist\u00f3ria das Ci\u00eancias e Tecnologia no Brasil, como tamb\u00e9m uma nova refer\u00eancia na hist\u00f3ria da nossa Engenharia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revista Grandes Constru\u00e7\u00f5es, 19 de fevereiro de 2015 &nbsp; Entrevista com o coordenador das obras do Projeto Sirius, engenheiro Oscar Vigna &nbsp; Novo acelerador de el\u00e9trons brasileiro ocupar\u00e1 pr\u00e9dio extremamente&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1163,12],"tags":[],"class_list":["post-11432","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-clipping-cnpem","category-clipping-lnls","category-1163","category-12","description-off"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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