Zika no início da gravidez é mais perigosa

Publicado em 02/03/2017
Revista Pesquisa FAPESP em 24/02/2017

LINK: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/02/24/zika-no-inicio-da-gravidez-e-mais-perigosa/

Estudo coordenado pelo médico José Xavier-Neto, do Laboratório Nacional de Biologia (LNBio), de Campinas, indica que a infecção pelo vírus zika só produz anormalidades congênitas graves em filhotes de camundongos quando suas mães são expostas ao patógeno entre o quinto e o 12º dia depois da fecundação. Em seres humanos, esse intervalo de tempo equivale à segunda e à quinta semana de gestação. Nos roedores, a infecção por zika após o 12º dia do ato sexual não levou a malformações significativas nos filhotes. O trabalho foi publicado na quinta-feira (23/02) na revista eletrônica PLOS Neglected Tropical Diseases.

O artigo da equipe do LNBio, que contou com financiamento da FAPESP e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), envolveu a criação de um modelo animal da infecção por zika que fosse similar ao que ocorre em humanos. Em duas linhagens selvagens de camundongos, com um sistema imunológico apto a combater infecções, os pesquisadores injetaram o vírus na veia jugular de fêmeas grávidas em diferentes momentos da gestação, entre 5,5 e 19,5 dias após a fecundação. Dessa forma, puderam ver a sequência de problemas que o vírus causa nos filhotes de roedores em função do estágio da gravidez em que houve o contato com zika. “Queríamos mapear a janela crítica em que a infecção na gravidez produz malformações congênitas”, explica Xavier.

Filhotes de fêmeas que foram contaminadas cinco dias após a fecundação apresentaram uma série de problemas de desenvolvimento: fechamento incompleto do tubo neural (disrafia), hidrocefalia (acumulação de líquido cefalorraquidiano no cérebro, levando ao aumento de tamanho e inchaço do crânio), atraso no crescimento do embrião, além de outras severas malformações. “Em seres humanos, a hidrocefalia é um prenúncio de que vai haver microcefalia”, comenta Xavier.

Quando a infecção ocorria entre 7,5 e 9,5 dias depois da fecundação, os filhotes exibiam um quadro clínico que não se limitava à microcefalia. Eles também tinham hemorragia no interior da bolsa amniótica, edema generalizado e pouca vascularização, sobretudo na região cerebral. Alguns embriões chegaram mesmo a morrer no útero depois da infecção. Segundo o pesquisador, o modelo animal de zika desenvolvido no LNBio é o único a mostrar disrafia, hidrocefalia e artrogripose (contração congênita das articulações, que leva à formação de mãos e pés tortos ou curvados)

Infecções induzidas após o 12º dia de fecundação não provocaram danos maiores nos fetos de roedores. Embora ausente dos tecidos cerebrais dos embriões que se encontravam nessa fase da gestação, o genoma do zika foi detectado em células do baço, do fígado e dos rins dos camundongos em formação. “Não podemos dizer que há um período seguro da gravidez para a ocorrência de uma infecção por zika”, explica o cardiologista Kleber Franchini, do LNBio, outro autor do estudo.

Projeto
Origem evolutiva das redes regulatórias da segmentação cardíaca em câmaras de influxo e efluxo (nº 13/22695-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável José Xavier-Neto (LNBio); Investimento R$ 690.098,30 (FAPESP)

Artigo científico
XAVIER-NETO, J. et al. Hydrocephalus and arthrogryposis in an immunocompetent mouse model of ZIKA teratogeny: A developmental study. PLOS Neglected Tropical Diseases. 23 fev. 2017

 

Repercussão: Plantão News; Amazônia; O Nordeste; Revide; Rede Clipex; Casa Saudável; Biblioteca FMUSP; Organic News Brasil; Planeta Universitário; Portal da Enfermagem

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