Um laboratório como nenhum outro

Publicado em 07/08/2011
Correio Popular, em 07/08/2011

 

Campinas mostra que a aposta do setor público e da iniciativa privada na criação de produtos e desenvolvimento de tecnologias traz frutos. A cidade é um polo que ganha a cada ano novos laboratórios e centros de pesquisa de ponta e inéditos na América Latina e mesmo no mundo. O trabalho conjunto entre empresas e instituições reforça a vocação local.

Um exemplo é o Laboratório de Bioensaios, único na América do Sul — uma parceria da Natura com o Laboratório Nacional de Biociências (LNBio). Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o novo parque científico abrigará um laboratório para analisar uma parte do processo de exploração do pré-sal.
O projeto e as funções são únicos no mundo. A Petrobras fará um aporte de recursos e atuará junto com pesquisadores da universidade.

A importância da inovação na região pode ser traduzida em números. Nos últimos dois anos, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) aprovou linhas de recursos para empresas, institutos de pesquisa e universidades em Campinas que somaram R$ 548,88 milhões, sendo oito em contratos reembolsáveis e 66 não reembolsáveis.

Os projetos são de várias áreas, como tecnologia da informação, agricultura e energia elétrica. Entre os executores dos projetos estão nomes como Padetc, Amyris, CPFL Energia, Elektro, Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, Unicamp, CPqD, CTI e Ital.
Um dos pilares da política para o desenvolvimento sustentável da indústria brasileira lançada recentemente pelo governo federal é a inovação tecnológica. A Finep terá este ano um orçamento para contratação de cerca de R$ 8 bilhões.

Uma opção que ganha espaço na agenda da iniciativa privada e do poder público é a parceria para o fomento de pesquisa e desenvolvimento científico e tecnológico.

A Natura, por exemplo, estabeleceu projetos em comum e um deles resultou na criação, em Campinas, do primeiro laboratório de bioensaios da América Latina.

O espaço instalado dentro do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), que fica na área do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, tem como principal função dar mais agilidade na avaliação da eficácia e uso de novos compostos que poderão ser utilizados em setores como o cosmético e o farmacêutico.

O diretor de Ciência & Tecnologia e Ideias e Conceitos da Natura, Victor Fernandes, afirma que o projeto é o primeiro laboratório satélite da empresa no Brasil. “O laboratório servirá para analisar novos ativos em uma velocidade muito mais rápida da que é realizada hoje”, diz.

O sistema é totalmente automatizado e robotizado. “O laboratório não servirá apenas para a área cosmética. Mas também em outros segmentos como o médico e o de alimentos”, explica.

O local já está em operação, mas os equipamentos ainda estão em processo de calibração. O contrato de parceria prevê que outras empresas e institutos de pesquisa também poderão usufruir dos equipamentos.
“O modelo firmado com o LNBio é inovador. Estamos aumentando a inovação. O laboratório vai proporcionar que sejam realizados centenas de testes por semana e trará um avanço imenso para toda a comunidade científica”, diz.

A Natura bancou metade do custo da montagem das estruturas. A outra parte veio da Finep. O diretor do LNBio, Kleber Franchini, afirma que o centro tem como objetivo resolver problemas complexos da área de biotecnologia em geral. Ele salienta que a parceria com a Natura mostra duas facetas da interação do mundo da pesquisa e das empresas: a indústria precisa do laboratório e do pessoal técnico e a comunidade científica necessita do instrumental. Franchini explica que pelo contrato assinado com a Natura a empresa terá um tempo dedicado para utilizar o laboratório.
“No tempo ocioso, outras pesquisas serão realizadas no Laboratório de Bioensaios.
Outras empresas e pesquisadores poderão se beneficiar do espaço. Foi criado um comitê de acompanhamento que verificará as atividades que serão executadas na plataforma”, diz.

Parceria é fundamental para pesquisa

Petróleo e informática são áreas que demandam grandes investimentos em desenvolvimento de projetos.

Um setor que está demandando bilhões de reais em recursos para a pesquisa no Brasil é o de petróleo. Com a descoberta do potencial do pré-sal, a Petrobras injeta recursos para o desenvolvimento de tecnologia para de explorá-lo. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) é uma das instituições no País que realizam estudos junto com a estatal. O professor do Departamento de Engenharia de Petróleo da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp Celso Kazuyuki Morooka, que participa de um dos projetos, afirma que a parceria é fundamental para os dois lados.

Estudos

O grupo formado por ele e os acadêmicos Sérgio Nascimento Bordalo e Renato Pavanello está no projeto que resultará no Laboratório de Sistemas Marítimos de Produção e Risers. O local ficará dentro da área do parque tecnológico em construção no campus da universidade, em Campinas. “A pesquisa tem como objetivo analisar os impactos dos sistemas marítimos sobre as estruturas (tubulações) utilizadas para trazer o petróleo da área do pré-sal até as plataformas”, diz. Ele detalha que as obras estão em andamento e devem durar entre 1 ano e 1 ano e meio. “O tanque de água terá 30 metros de profundidade. Nele, serão simuladas as condições próximas das encontradas no mar. A meta é auxiliar na melhoria dos modelos de projetos dos produtos usados para levar o óleo até a plataforma marítima”, explica. A Petrobras vai investir R$ 10 milhões no projeto.

Morooka diz que há outros projetos de pesquisa realizados na universidade que analisam o segmento de petróleo. A Unicamp é uma referência na área com o Centro de Estudos de Petróleo (Cepetro). “Há várias frentes de estudo”, ressalta. O acadêmico diz que o laboratório ficará dentro do Parque Científico que está em construção no campus principal no distrito de Barão Geraldo. Ele comenta que o local terá recursos da Petrobras, mas o espaço é parte da estrutura da universidade. “O conteúdo dos experimentos do Laboratório de Sistemas Marítimos de Produção e Risers são únicos no País e acredito que também no mundo, visto que o Brasil detém o pioneirismo na exploração de petróleo na camada présal”, afirma.

Colaboração

Outra área na qual as parcerias entre institutos de pesquisa e iniciativa privada são comuns é de informática e tecnologia da informação.
A secretária-executiva do Parque Científico da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Iara Regina Silva Ferreira, afirma que os projetos colaborativos entre o meio acadêmico e as empresas são importantes para o desenvolvimento de pesquisas. Ela diz que o parque terá uma incubadora de empresas, cujos recursos virão dos cofres do governo do Estado, e laboratórios que terão parceria com empresas.
O valor do financiamento do Estado será de R$ 5,5 milhões para um prédio administrativo e a Incubadora de Empresas de Base Tecnológica (Incamp). “A área destinada para o parque é de 100 mil metros quadrados”, detalha. Iara observa que há parcerias estabelecidas com várias institutos na Unicamp, como o de Computação.

Na área de agricultura também há trabalhos conjuntos que geram novos conhecimentos. O Instituto Agronômico de Campinas (IAC) já firmou parcerias que resultaram no incremento de centros de pesquisa e laboratórios. De acordo com a instituição, um exemplo é o Centro de Convenções da Citricultura contou com a colaboração de Sucocítrico Cutrale S.A. e Citrosuco Paulista S.A. Outro caso é o do Laboratório de Biotecnologia teve apoio de 43 pessoas físicas (citricultores e outros) e 31 pessoas jurídicas (empresas ligadas ao setor de citricultura).

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