UCS participa do desenvolvimento de tecnologia para obtenção do etanol a partir do bagaço da cana-de-açúcar

Publicado em 15/12/2009

15/12/2009 – Portal Universidade de Caxias do Sul

O aprimoramento de um fungo que vem sendo desenvolvido desde 1979 no Instituto de Biotecnologia poderá auxiliar no fomento à produção de etanol brasileiro, considerado atualmente o combustível que menos contribui para o efeito estufa, o principal causador do aquecimento global.

O acordo de colaboração que será assinado no próximo dia 16 de dezembro entre a UCS e o Centro de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), laboratório nacional ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), visa ao desenvolvimento de um processo mais econômico para a obtenção das enzimas responsáveis pela quebra do bagaço e da palha de cana-de-açúcar – e a consequente liberação de açúcares para a produção de etanol por fermentação.

O CTBE, em parceria com a UCS, busca tornar econômica a produção de etanol e, juntamente com pesquisas desenvolvidas por outras universidades e institutos de pesquisa públicos e privados, elevar a participação do Brasil na fabricação mundial do combustível. O Programa do Etanol Brasileiro, lançado inicialmente como forma alternativa ao petróleo, hoje é visto como uma das principais formas de amenizar os efeitos do aquecimento global, assunto em discussão na Conferência Mundial do Clima, que ocorre até o dia 18 de dezembro em Copenhague, na Dinamarca.

Participam da cerimônia de assinatura do acordo, o reitor da UCS, professor Isidoro Zorzi, o diretor do Centro de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, Marco Aurélio Pinheiro Lima, e o pesquisador do CTBE José Geraldo da Cruz Pradella. Durante o evento, na próxima quarta-feira, às 14h, no auditório do Bloco 57, ocorrerá também uma palestra sobre a inserção do CTBE no Programa do Etanol Brasileiro.

As vantagens do etanol

O grande interesse pelo álcool proveniente do bagaço da cana-de-açúcar pode ser facilmente explicado. Segundo o coordenador do grupo de pesquisas sobre “Enzimas e Biomassas” do Instituto de Biotecnologia, professor Aldo Dillon, com a produtividade da cana no Brasil chegando a mais de 80 toneladas por hectare/ano, gera-se do caldo, após a moagem, cerca de 6.400 litros de etanol por fermentação.

“Isso também resulta em aproximadamente 11,2 toneladas de bagaço de cana. Considerando-se que cerca de 38% do bagaço é composto de celulose, haveria um total de 4,25 toneladas de celulose que poderiam ser quebradas por enzimas, gerando um adicional de cerca de 2.690 litros de etanol”, explica.

Dillon completa que o grande desafio que caberá a UCS junto com o CTBE, nos próximos 18 meses, é baratear a produção dessas enzimas, cujo alto custo ainda é um desafio mundial, mesmo para países como o EUA ou para as empresas líderes do mercado mundial.

Para se ter uma idéia dos volumes brasileiros de etanol, o país produziu em 2008 cerca de 27 bilhões de litros de etanol. Destes, um volume recorde 5,16 bilhões foi exportado, correspondendo a um volume 45,7% superior ao cerca de 3,5 bilhões de litros exportados em 2007. “Pela análise do governo, esses mais de 5 bilhões de litros equivalem a mais do que o dobro de exportações de toda a gasolina exportada pela Petrobras em 2008”, explica Dillon.

Para a diretora do Escritório de Transferência de Tecnologia – ETT/UCS, professora Rejane Rech, esse convênio coloca a pesquisa desenvolvida pela Instituição no nível das melhores universidades do país, provando a maturidade dos estudos realizados aqui. “A parceria mostra também a vinculação da UCS com as demandas da sociedade, neste momento em que se têm buscado soluções para a preservação do planeta”, avalia Rejane.

A diretora completa que o CTBE reúne as melhores instituições brasileiras que fazem pesquisa em bioetanol. “Isso permitirá que, dentre as novas tecnologias dali derivadas e que serão posteriormente licenciadas ao setor produtivo, estarão importantes contribuições do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da UCS”, projeta.

O CTBE

Conforme o professor Aldo Dillon, a fundação do CTBE teve sua origem na tentativa de responder a uma pergunta formulada por um grupo de cientistas brasileiros, liderados pelo físico Rogério Cézar de Cerqueira Leite, em um estudo iniciado em 2005. Dele participaram 16 instituições brasileiras, entre elas a UCS. “O que é preciso ser feito para que o Brasil substitua 10% da gasolina utilizada no mundo por etanol de cana de açúcar?” Mais: qual fonte de energia renovável que atinge eficiência energética semelhante a do petróleo, mas não carrega seus problemas? Para alguns países essa pode ser uma questão complexa. Já para o Brasil a resposta é fácil: o etanol de cana-de-açúcar e quem sabe também o bioetanol, como é chamado o etanol proveniente de resíduos lignocelulósicos, dentre os quais o bagaço e a palha de cana.

No país o etanol é utilizado como combustível automotivo em duas versões: álcool hidratado (em carros a álcool ou flex fuel) e álcool anidro (adicionado à gasolina na proporção de 25%). O primeiro tipo possui 7% de água na mistura, enquanto o segundo, no máximo, 0,7%. A produção dá-se através da fermentação do caldo ou do melaço da cana, via ação de leveduras da espécie Saccharomyces cerevisiae. Outra fonte importante de obtenção de etanol é o milho, como ocorre nos EUA, que juntamente com o Brasil responde por cerca de 70% do etanol produzido mundialmente. Outras fontes bem menos expressivas são a sacarose da beterraba (União Européia), a mandioca e o trigo, podendo ser utilizada a própria uva.

A maioria desses vegetais (que são constituídos de amido), entretanto, possui uma desvantagem em relação à cana. É que para produzir etanol a partir deles é preciso primeiro transformar o amido em açúcar, para depois fermentá-lo em etanol. Esta etapa adicional diminui ainda o rendimento do processo e aumenta os custos de produção. Para se ter uma idéia, enquanto os EUA gastam 1 unidade de energia equivalente de combustível fóssil para gerar 1,3 unidades de etanol, no Brasil, a mesma unidade produz entre 8 e 9 unidades de etanol de caldo de cana.

A questão ambiental

Outro argumento em favor de etanol brasileiro é o aumento da demanda mundial por energia ocorrido nas últimas décadas. Isso fez com que países industrializados e emergentes iniciassem uma série de pesquisas sobre novas fontes energéticas, principalmente de origem renovável.

O professor Aldo Dillon esclarece que novamente o etanol de cana sai na frente, pois possui uma matéria-prima de baixo custo, tecnologia consolidada, além de o Brasil dispor de grandes áreas que podem ser utilizadas, sem comprometer espaços tradicionalmente utilizados para a produção de alimentos ou mesmo a região amazônica. O que precisa ser feito agora é estudar formas de aproveitar industrialmente a biomassa integral da cana-de-açúcar (e não apenas o caldo). “É aí que entra a colaboração da pesquisa em enzimas desenvolvida na UCS”, completa Dillon.

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