Sinal de vida em meteorito marciano?

Mensageiro Sideral em 09/12/2014

Não é nem a primeira, nem a segunda vez que coisas estranhas aparecem em meteoritos ejetados de lá pelo impacto de asteroides. Até agora, apesar de algumas afirmações espalhafatosas ao longo dos anos (a mais famosa envolve o meteorito ALH 84001, que fez manchetes em 1996), o consenso é de que ainda não encontramos sinais inequívocos de vida marciana.

O novo trabalho, feito por cientistas da Suíça, da Alemanha, do Japão e da China, nem chega a afirmar que há traços biológicos indiscutíveis no meteorito Tissint, que aportou na Terra há apenas três anos, após despencar do céu e cair no deserto do Marrocos.

A análise de amostras atmosféricas no interior do meteorito de imediato demonstrou que ele era proveniente de Marte. Agora, uma avaliação mais detalhada da rocha, publicada no periódico “Meteoritics and Planetary Sciences”, encontrou os cobiçados compostos orgânicos, em meio a fissuras. E não foram quaisquer substâncias. Estamos falando de querogênio, uma substância que, ao menos na Terra, se forma a partir de lipídios, proteínas e carboidratos produzidos por seres vivos quando submetido a ações geológicas de longa duração. É assim que a natureza fabrica, por exemplo, petróleo, gás natural e grafite.

Poderia o querogênio ser sinal de atividade biológica no passado de Marte? Segundo os autores do trabalho, sim. Eles apontam que a análise isotópica do carbono — ou seja, a contagem das proporções das diferentes versões atômicas do carbono, cada uma com um número diferente de nêutrons no núcleo — indica que pode o querogênio pode ter sido produzido por vida.

A proporção de carbono-13 na amostra é bem menor que a presente na atmosfera marciana, conforme medições feitas pela sonda Phoenix e pelo jipe Curiosity. Curiosamente, a diferença de proporções é exatamente a mesma que é vista na Terra entre um pedaço de carvão — produto de atividade biológica — e o carbono atmosférico. Mas nem todo mundo aposta que isso seja prova definitiva.

“Encontrar matéria orgânica mais complexa em material marciano é muito promissor, mas pode não ter nada a ver com a presença de vida”, comenta Douglas Galante, astrobiólogo do LNLS (Laboratório Nacional de Luz Síncrotron), que não participou do trabalho.

Um dos locais em que se encontram compostos orgânicos com a mesma composição isotópica é em contritos carbonáceos — asteroides ricos em carbono. Portanto, essas substâncias poderiam ter sido levadas a Marte de carona em bólidos celestes, sem ter conexão direta com a vida. Os autores do trabalho consideram esse cenário improvável, porque meteoritos desse tipo têm concentrações muito baixas de matéria orgânica.

Alternativamente, eles acreditam que o mais provável é que os compostos orgânicos sejam de origem biológica e tenham fluido para dentro da rocha carregados por água. Isso em Marte. Sim, eles acreditam ter em mãos sinais de vida extraterrestre.

Ainda assim, uma coisa é certa: a se descartar contaminação posterior à chegada do Tissint ao nosso planeta, temos no mínimo uma razão para festa. Marte, ao que tudo indica, teve mesmo todos os ingredientes básicos para a vida.

MARTE HABITÁVEL
Ontem, a equipe responsável pelo jipe Curiosity divulgou novas informações sobre a exploração do monte Sharp, que começou recentemente. Ao analisar os depósitos sedimentares na encosta da montanha, os cientistas da Nasa concluíram que houve ali um lago que durou pelo menos algumas dezenas de milhões de anos. Ou seja, um caminhão de tempo.

Essa é uma constatação importante, porque até hoje há uma discussão entre os cientistas se Marte teve água líquida apenas por curtos períodos, ou se houve durabilidade nessas condições. As evidências começam a apontar nessa segunda direção, o que sem dúvida aumenta as chances de que a vida tenha evoluído lá.

Por outro lado, água é só uma parte da equação. A outra parte é a presença de compostos orgânicos complexos, sem os quais a vida é impossível. Essa é justamente a missão principal do Curiosity, embora até agora ele tenha fracassado em detectar quantidades significativas dessas substâncias.

Se o querogênio detectado no meteorito Tissint realmente tem origem marciana, como parece, os cientistas em terra tiveram sucesso onde o jipe robótico até agora fracassou (se bem que é cedo para dizer, pois em meio aos sedimentos do monte Sharp estão as maiores esperanças da Nasa de encontrar os cobiçados compostos orgânicos).

De todo jeito, o Curiosity não está equipado a detectar substâncias mais complexas, como querogênio. “O instrumento SAM, que tem um cromatógrafo gasoso acoplado e poderia medir compostos orgânicos, só deve ser capaz de medir compostos orgânicos mais leves e voláteis, enquanto os querogênios são mais parecidos com um piche duro ou uma quase grafite”, explica Galante.

Ele aponta que a coisa deve esquentar mesmo com o jipe robótico europeu ExoMars, planejado para 2018. “Ele irá levar espectrômetros Raman e infravermelhos, que podem medir diretamente o querogênio, como foi feito no estudo com o meteorito. Acho que teremos de esperar mais um pouco, mas, enquanto isso, vale a pena continuar explorando nossas coleções de meteoritos marcianos.”

A resposta definitiva sobre vida em Marte, contudo, talvez só possa ser obtida quando conseguirmos trazer rochas novinhas em folha da superfície marciana para cá, sem travessias desagradáveis pela atmosfera terrestre. “Para mim, esse achado só reforça a necessidade que temos de uma missão de retorno de amostras”, afirma Galante.

Por ora, embora esse seja um objetivo de longo prazo de várias agências espaciais, nenhuma delas se arriscou a programar uma missão do tipo e começar a trabalhar nela. Entre outras preocupações, há a questão de contaminar inadvertidamente a Terra com microrganismos marcianos. Ninguém acredita que exista mesmo uma grande chance de isso acontecer — até porque, como já sabemos, rochas de Marte caem por aqui o tempo todo. Mas, ao lidar com o desconhecido, todo cuidado é pouco.

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