Salário igual “expulsa” cientistas brasileiros

Publicado em 02/02/2011

Folha de S. Paulo, em 02/02/2011

Falta de competitividade faz com que pesquisadores não voltem ao país

Bolsas temporárias para brasileiros passarem uns meses no Brasil é aposta de governo para atrair cérebros de volta

A repatriação de cientistas brasileiros que atuam no exterior, proposta pelo ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, no início da sua gestão, pode não ser uma matemática simples.
De acordo com quem está fazendo ciência fora do Brasil, mesmo que exista vontade de voltar, a burocracia para se fazer pesquisa e a falta de competitividade nas universidades nacionais, diferentemente do que acontece nos EUA e na Europa, ainda são fatores de repulsa.

“No Brasil, os salários acadêmicos são iguais. Nos EUA, eu não ganho o mesmo salário que meus colegas. Há competitividade”, diz o físico José Nelson Onuchic, professor da UCSD (Universidade de San Diego).Ele está há 21 anos nos EUA, país que, estima-se, tenha 3.000 professores brasileiros (leia o depoimento).

A opinião de Onuchic é compartilhada por outros pesquisadores, como Alysson Muotri, que também é UCSD, mas é biólogo.Em entrevista à Folha, disse que “para algumas pessoas, o real patriotismo é abandonar as melhores condições de trabalho no exterior e voltar ao Brasil. Alguns dizem “vem aqui sofrer com a gente, vamos juntos tentar melhorar este país'”.

Quem faz pesquisa por aqui concorda com as dificuldades. “A gente perde muito tempo por lidar com tanta atividade burocrática”, diz o biólogo Stevens Rehen, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

“Mas quem sai tem que saber que existem oportunidades para se fazer pesquisa aqui. Estou no Brasil não só porque estudei em universidade pública, mas por valores”, completa o biólogo.
Onuchic não pensa em voltar de vez ao Brasil, mas, para ele, uma alternativa possível seria passar alguns meses por aqui.

Essa solução é uma das ideias de Mercadante para a repatriação. Em entrevista exclusiva à Folha, ele disse que pretende criar, via agências de fomento, um formato de “bolsas-sanduíche” (bolsa de pesquisa de curto período no exterior) ao contrário.

Seriam bolsas de pesquisa oferecidas aos brasileiros no exterior para que eles passem um tempo fazendo pesquisa por aqui.”O Brasil é um país agradável, provavelmente os cientistas acabariam retornando”, acredita o ministro.

A ideia é criar, com as bolsas de curta duração, uma espécie de rede da “inteligência brasileira” no exterior.Essa política está sendo tocada na Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). “As redes ajudam. Mas temos trazido também cientistas com o Programa Jovem Pesquisador. Há repatriados e também estrangeiros”, diz Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da fundação.

De acordo com ele, a Fapesp já apoiou mil pesquisadores com esse perfil nos últimos dez anos. “A maior parte deles ficou aqui”, afirma Cruz. A Fapesp, no entanto, não tem os números exatos.

Há um baixo dinamismo na universidade brasileira 

É difícil uma pessoa voltar ao Brasil depois de ter estabelecido uma carreira no exterior por vários aspectos.O primeiro é financeiro. No Brasil, os salários acadêmicos são iguais, diferentemente do que acontece no exterior. Eu não ganho o mesmo salário que os demais professores. Um membro de uma associação científica, por exemplo, ganha muito mais do que seus colegas da faculdade. Há competitividade.

Hoje existe um dinamismo baixíssimo nas universidades brasileiras. Não se vê profissionais mudando de instituições, sendo que isso poderia ser bom para as próprias instituições. Por causa do mecanismo de concurso, a pessoa entra na instituição e fica lá a vida inteira. Na Europa e nos EUA as pessoas têm em média três ou quatro empregos ao longo da vida.
Outra coisa: o que pode levar uma pessoa a largar o que está fazendo no exterior e voltar ao Brasil? A Espanha repatriou muita gente há 15 anos. Eles criaram um centro de pesquisas especiais, fazendo com que o pessoal que voltou não fosse vinculado às regras das universidades. Mas eles poderiam fazer pesquisas equivalentes às que estavam fazendo no exterior.

Os EUA dão muito mais liberdade para se fazer pesquisa. No Brasil, você tem de ficar na “fila” para conseguir financiamento ou para ter uma linha de pesquisa.
Além disso, eu estava interessado em fazer ciência interdisciplinar, e os departamentos no Brasil ainda eram muito convencionais.

A universidade brasileira é complicada: tempo integral, dedicação exclusiva e a burocracia, por exemplo, para importar material científico.

Depois de 21 anos nos EUA, eu não penso em voltar ao Brasil. Voltaria por períodos curtos, por exemplo, por alguns meses. Mas não voltaria em definitivo. A menos que acontecesse uma mudança radical no sistema de política científica nacional.

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