Reunião de cúpula latino-americana de cristalografia sugere criação de Fundo de Cooperação

Publicado em 05/11/2014

Pesquisadores unem esforços para a promoção da cristalografia nos países da região

Mais de 100 pesquisadores latino-americanos, cientistas de destaque no cenário mundial e tomadores de decisão da área de C&T estiveram reunidos, entre 22 e 24 de setembro, no campus do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) em Campinas – SP. Eles participaram do Latin American Summit Meeting on Biological Crystallography and Complementary Methods – maior evento latino-americano da programação oficial do Ano Internacional da Cristalografia (IYCr2014), promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e pela União Internacional de Cristalografia (IUCr).

A cristalografia analisa cristais de substâncias, como minerais, metais e proteínas, para determinar suas estruturas moleculares. O encontro em Campinas focou a cristalografia biológica, área que investiga cristais de proteínas para compreender processos biológicos, desvendar o surgimento e a progressão de doenças, tendo em vista o desenvolvimento de novas terapias e fármacos.

“A cristalografia é o tema deste ano em comemoração aos 100 anos da descoberta de difração de raios X por cristais e também porque é uma área fundamental para o desenvolvimento científico e tecnológico. Trata-se de uma ciência que está no núcleo da solução de problemas globais” afirmou Lídia Brito, Diretora Regional da UNESCO.

De forma direta e indireta, a cristalografia está presente no trabalho de 45 cientistas vencedores do Nobel de diferentes áreas. Ada Yonah, laureada com o Prêmio Nobel de Química em 2009, esteve em Campinas e falou sobre a descoberta da estrutura e função dos ribossomos – conhecimento chave para o desenvolvimento de novos antibióticos. “Muitas pessoas disseram que era impossível cristalizar os ribossomos. Achavam que eu era uma sonhadora, mas eu acreditei nas razões que motivavam meu trabalho”, lembrou a pesquisadora israelense, incentivando os participantes do evento.

A reunião de cúpula culminou com a produção de uma carta, na qual os pesquisadores presentes solicitam à IUCr e à Unesco o estabelecimento de um Fundo de Cooperação para a promoção da cristalografia na América Latina. A intenção é arrecadar, junto aos governos, agências de fomento, institutos de pesquisa e empresas, cerca de 100.000 dólares, valor destinado à promoção de intercâmbios de jovens pesquisadores, eventos de treinamento, compartilhamento de instalações e outras atividades de promoção desta ciência fundamental para o desenvolvimento tecnológico.

“É fundamental que as políticas científicas da América Latina não estejam voltadas somente para as ciências que geram resultados rápidos. Precisamos reconhecer que inovações são derivadas de conhecimentos da ciência básica – como a cristalografia”, disse Ada Yonah, ao final da leitura da carta.

 

 

25 anos de cristalografia no Brasil

Além do ano internacional da cristalografia, a reunião de cúpula no CNPEM também celebrou os 25 anos de cristalografia no Brasil. Glaucius Oliva, Presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e um dos primeiros cristalógrafos do País, lembrou que, desde a década de 50, centenas de estruturas de proteínas foram reveladas no Brasil e hoje cerca de 3000 pós-docs atuam na área. “Acredito que é o momento de promovermos cooperações científicas regionais, voltadas para a solução de desafios específicos da América Latina. A cristalografia certamente pode estar na rota de soluções para problemas que enfretamos relacionados à água, solo, agricultura, clima tropical e à saúde”, analisou Glaucius Oliva.

Mais competitividade para as pesquisas latino-americanas

Um marco para a cristalografia em todo o mundo foi o estabelecimento de fontes de luz síncrotrons, grandes máquinas geradoras de feixes de luz voltados a diferentes aplicações, inclusive raios X para análise de cristais. O Brasil é o único país da América Latina que possui uma fonte de luz síncrotron. Operado pelo Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), o equipamento é aberto ao uso acadêmico e empresarial e beneficia milhares de pesquisadores, principalmente latino-americanos.

O LNLS está neste momento construindo o Sirius, uma fonte de luz síncrotron de quarta geração, planejada para ser uma das mais avançadas do mundo. “O Brasil já é líder das pesquisas em cristalografia na América Latina. Sirius abrirá novas perspectivas científicas e garantirá competitividade mundial às pesquisas desta região” afirmou Marvin Hackert, Presidente da IUCr.

Latin American Summit Meeting on Biological Crystallography and Complementary Methods 

O evento é uma realização do CNPEM – por meio de dois de seus Laboratórios Nacionais: o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) e o Laboratório Nacional de Biociências (LNBio) – Instituto de Física de São Carlos (IFSC-USP) e Associação Brasileira de Cristalografia (ABCr), com apoio da IUCr e da Unesco. CNPq, CAPES e FAPESP financiam a iniciativa e as seguintes empresas patrocinam o evento: Bruker; Molecular Dimensions; NanoTemper; Agilent Technologies; GE Healthcare; Rigaku Dairix; Formulatrix; Astex; TTPLabtech; Incoatech; Sigma-Aldrich

 

Confira as fotos do evento

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