Plástico de cana é uma boa?

Publicado em 27/05/2009
Diretor do CTBE mediará mesa redonda na Ethanol Summit 2009 sobre as vantagens e novidades dos plásticos verdes

Assessoria de Comunicação, em 27/05/2009

Ser renovável e sustentável se tornou um modismo corporativo. As empresas têm buscado nos últimos anos criar produtos “amigáveis” ao meio-ambiente. Exemplo disso são os bioplásticos. Quem os produz promete um material de qualidade que, em alguns casos, se biodegradável, ainda colabora para a diminuição do problema de armazenamento de lixo nas grandes cidades. A pergunta a ser feita é se isso ocorre na prática.

Buscar respostas a indagações como essa será uma das tarefas da mesa redonda que o diretor do Centro de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE) Marco Aurelio Pinheiro Lima vai coordenar na próxima semana (02/06) em São Paulo, na Ethanol Summit 2009. Lima se reunirá com representantes de três empresas do setor (Braskem, Dow e PHB Industrial) para debater sobre as reais vantagens desses produtos e apresentar as novidades na área.

Segundo Lima, o rótulo “verde” não garante que um tipo de plástico é necessariamente melhor que similares disponíveis no mercado. “Vários fatores precisam ser levados em conta na análise do que é melhor para o ser humano e para o planeta”. Entre estes fatores podemos citar as propriedades físico-químicas do material, os benefícios da biodegradabilidade em comparação à reciclagem, as emissões de carbono oriundas do ciclo produtivo do bioplástico e do plástico convencional, etc.

Em primeiro lugar é preciso distinguir plástico verde de plástico biodegradável. Atualmente processos industriais bem estabelecidos conseguem extrair carbono de plantas como a cana-de-açúcar e os transformar em polímeros semelhantes aos feitos a partir do petróleo. Essas moléculas que dão origem aos bioplásticos podem sofrer ou não a ação degradante de microorganismos da natureza. As que degradam deixam como produto desta reação gás carbônico e água.

Uma vez visto que os plásticos verdes podem ser biodegradáveis ou não, é preciso saber se é mais vantajoso enterrar um polímero que não degrada (e lidar com o problema do lixo) ou fabricar plástico biodegradável (e sofrer com as emissões de CO2 desta degradação).

Os defensores dos plásticos verdes alegam que as emissões de gás carbônico na atmosfera não constituem um problema real, pois o carbono emitido é reabsorvido pela planta na próxima safra. O balanço final de emissões desse ciclo produtivo é igual a zero. Também não há geração de lixo nesse caso. Pelo contrário, já que esse plástico pode ser decomposto em espaços apropriados e virar fertilizante agrícola.

O lixo pode ser um ponto importante a favor dos plásticos verdes biodegradáveis.  Segundo o engenheiro do CTBE José Geraldo Pradella 20% do volume atual dos aterros sanitários são compostos por plástico. “Se substituíssemos esse volume por material biodegradável, a cada cinco aterros ganharíamos o espaço de um sexto devido à degradação do plástico”.

Entretanto, talvez seja mais vantajoso reciclar do que deixar o plástico ser convertido em gás pela natureza. Para o químico do CTBE Carlos Eduardo Vaz Rossell isso até poderia ser verdade se o processo atual de reciclagem não fosse tão ineficiente. É que a refundição do plástico, seja o material feito a partir de petróleo ou de matéria-prima renovável, não garante a este as mesmas condições de maleabilidade e resistência do polímero virgem. Sem contar os problemas de contaminação que impedem o uso de plástico reciclável em diversas situações (hospitais, por exemplo) e o alto custo do transporte deste material de baixa densidade. Tudo isso faz com que apenas 3% do volume de plástico produzido atualmente seja reciclado.

Apesar dos argumentos a favor dos bioplásticos (principalmente biodegradáveis), ainda não se pode declarar a sua vitória no quesito sustentabilidade ambiental. Primeiro é preciso verificar se, na análise do ciclo de vida desse polímero, o número de emissões de CO2 equivalente é menor que o dos plásticos convencionais. Em outras palavras é preciso mensurar, através de metodologias conhecidas, quanta energia é gasta no processo de produção e consumo de 1 kg de plástico “verde” que não degrada e comparar esse dado ao que degrada e ao derivado do petróleo. Essa é uma conta que, segundo Rossell, ainda precisa ser feita antes que se decida alguma coisa.

Custo de produção do bioplástico

Existe um consenso de que a mudança de postura ecológica do consumidor é um estímulo importante à criação de produtos oriundos de matérias-primas renováveis. No entanto, para que a ampla utilização destes materiais seja disseminada é preciso ir além.

No caso específico dos plásticos Rossell explica que o custo de produção é algo vital. Atualmente os plásticos verdes se tornam economicamente competitivos se o preço do barril de petróleo for algo entre US$ 100 e 150. Hoje ele custa cerca de US$ 60. Além disso, por se tratar de um investimento de risco (por conta da necessidade de melhorias na estrutura do produto atual) as empresas do setor analisam com cautela a instalação de novas plantas industriais destinadas a esses materiais. “O ideal seria criar um plástico advindo de fonte renovável que não alterasse radicalmente as caras plataformas de produção atuais”, informa Rossell.

Outro problema a ser analisado é a possível alta do preço da matéria-prima renovável no caso dos biopolímeros substituírem grande parte do plástico consumido no mundo. De acordo com o coordenador do programa de pesquisa em sustentabilidade do CTBE Manoel Regis Lima Verde Leal, para que as 230 milhões de toneladas de plástico produzidas anualmente no globo sejam substituídas por PHB (bioplástico degradável oriundo do açúcar da cana) é preciso produzir 600 milhões de toneladas de açúcar. A produção mundial de açúcar hoje em dia é de aproximadamente 160 milhões de toneladas, o que exigiria um aumento de quase quatro vezes na área total de cana plantada para suprir tal demanda.

Apesar de alto, esse número não parece ser tão absurdo se compararmos que a cana-de-açúcar ocupa uma área global de 20 milhões de hectares, enquanto a soja ocupa 100 e o trigo 200 milhões. Além disso, se forem implantados melhoramentos nos processos de produção de açúcar e álcool, como a hidrólise enzimática estudada no CTBE, essa área a ser expandida pode se tornar muito menor.

A cana-de-açúcar como matéria-prima

Em resumo, o CTBE é a favor da utilização do plástico renovável em pelo menos um nicho deste mercado. Como matéria-prima desses compostos, Marco Aurélio Pinheiro Lima acredita que a cana-de-açúcar se mostra uma excelente candidata. “A cana é uma enorme fábrica de carbono”. Do seu caldo se faz açúcar e álcool e do bagaço é possível gerar eletricidade. “A pergunta a ser feita é quais outros produtos de grande valor agregado podem ser produzidos a partir desta planta”, completa Lima.

Na tentativa de encontrar respostas a essa indagação o CTBE trabalha na construção de uma ferramenta computacional que vai estimar as mudanças que uma nova tecnologia pode trazer ao ciclo produtivo convencional de cana-de-açúcar/etanol. A idéia dessa Biorrefinaria Virtual é suprir o setor com informações cruciais a quem precisa analisar a viabilidade econômica, social e ambiental de novos processos industriais. Um instrumento deste porte será de grande valia aos que um dia pensam em produzir plásticos verdes.

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