Pesquisadoras rompem barreiras e conquistam um lugar na ciência brasileira

Publicado em 09/03/2016
MCTI em 08/03/2016

Conheça a história de seis mulheres que dedicam suas vidas à produção científica e ao desenvolvimento tecnológico do país.

Daniela Trivella, a garotinha que fazia perfumes usando água e álcool de cozinha, hoje é pesquisadora de novos fármacos do Laboratório Nacional de Biociências. Desde setembro, Daniela está na Universidade de Nottingham, na Inglaterra, pelo Projeto Transtar.

Quando criança, Ana tinha o hábito de abrir as coisas para ver o que havia dentro. Bianca sempre foi fascinada pelas descobertas científicas. Daniela coletava flores com a prima e fazia perfume usando água e álcool de cozinha para extrair a essência e o corante das plantas. Juliana adorava as aulas de laboratório do ensino fundamental e as feiras de ciências. Liu Lin descobriu que a matemática, a biologia e a física formam o “seu” universo. O papel social da ciência foi o que despertou o interesse de Heloísa para ingressar no meio científico. O que esses nomes têm em comum?

Cada uma dessas mulheres rompeu barreiras e construiu uma trajetória de sucesso em ambientes dominados pelos homens, conquistando um lugar na ciência brasileira. Hoje, elas fazem história nos institutos de pesquisa vinculados ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

A pequena Ana, que tinha curiosidade em saber o que existia dentro das coisas, hoje coordena uma das estações experimentais do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (LNLS/CNPEM/MCTI) para o megaprojeto Sirius. A curiosidade de Ana a colocou junto com os cientistas que aceleram as partículas que compõem os átomos a velocidades próximas a da luz para ver o que tem dentro. Formada em física pela Universidade de São Paulo, trabalha no CNPEM desde 2006.

“Minha função é pensar e planejar uma das estações experimentais do Sirius. Essa construção é uma coisa nova pra mim. Faço parte do grupo de pesquisadores que está planejando essa máquina. Estou bastante animada”, conta a coordenadora Ana Zeri. “Desde muito cedo eu sempre quis descobrir as coisas. Essa busca pelo conhecimento é um superpoder da raça humana. Temos que saber cada vez mais sobre o que nos cerca para melhorar a nossa vida”, acrescenta.

O caminho trilhado por Ana foi o mesmo escolhido, há trinta anos, pela pesquisadora Liu Lin. Nascida na China, imigrou para o Brasil com três anos. Participou do grupo de cientistas que se uniu para a construção da primeira fonte de luz síncrotron brasileira (e até hoje a única da América Latina), em 1985. Lin é uma das principais responsáveis pelos cálculos que resultaram em um dos primeiros aceleradores de elétrons de quarta geração do mundo: o Sirius.

“Desde o início achei bastante interessante os problemas propostos e acabei vindo parar no LNLS. Comecei meu trabalho aqui antes mesmo do laboratório ser efetivamente criado. Fiz parte da equipe que elaborou o primeiro projeto de luz síncrotron. Naquela época ninguém sabia como construir uma fonte de luz como essa. Tivemos que aprender tudo a partir do zero e aprendemos fazendo. Esse aprendizado do primeiro síncrotron foi fundamental pra gente fazer o Sirius.”

Divulgação da ciência

O fascínio de Bianca pelos avanços e descobertas da ciência a levou a fazer carreira no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict/MCTI). Nesta quarta-feira (9), ela completa 29 anos de trabalho no Ibict. “Comecei minha carreira no Ibict quando tinha apenas 22 anos. A ciência realmente me interessou quando entrei aqui, e me dei conta de quanta informação científica era produzida e da necessidade de esta informação ser organizada e difundida”, comenta.

Hoje, Bianca Amaro é responsável pelo desenvolvimento de mais de 70 repositórios institucionais e redes regionais. “Coordeno os projetos de acesso aberto à informação científica do Ibict, como a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), o Diretório de Políticas de Acesso Aberto de Revistas Científicas Brasileiras (Diadorim), o Portal Brasileiro de Publicações Científicas em Acesso Aberto (oasisbr), entre outros”, enumera.

No ano passado, ela foi agraciada com o prêmio Electronic Publishing Trust for Development (EPT). “É o reconhecimento internacional do trabalho que desenvolvemos no Ibict em prol do acesso aberto à informação científica há mais de uma década. Esse trabalho inclui a criação do oasisbr, que contém mais de um milhão de documentos brasileiros disponíveis para o seu download em texto completo.”

Dos perfumes para os fármacos

Formada em biologia, Daniela Trivella, a garotinha que fazia perfumes usando água e álcool de cozinha, hoje é pesquisadora do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio/CNPEM/MCTI). Os experimentos para transformar plantas em perfumes deram lugar às pesquisas para descoberta de novos fármacos. “Meu trabalho gira em torno de uma plataforma para a descoberta de novos fármacos, que vai desde a confecção de bibliotecas químicas e identificação de alvos farmacológicos, passando por diversas etapas, até a otimização de moléculas com características adequadas para produzir um fármaco”, conta.

Desde setembro, Daniela está na Universidade de Nottingham, na Inglaterra, pelo Projeto Transtar, financiado pela Capes e com a participação do LNBio. “O projeto visa formar recursos humanos altamente qualificados para desenvolver programas de descoberta de fármacos no Brasil. Abrange tanto os aspectos técnicos e científicos, como também aspectos gerenciais, essenciais para que se tenha sucesso neste complexo processo que é a obtenção de um novo fármaco”, explica.

Bacharel e doutora em Química pela Universidade Estadual de Campinas, Juliana da Silva Bernardes, a menina que adorava o laboratório da escola, trabalha há três anos como pesquisadora no Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano).

“Venho desenvolvendo pesquisa sobre produção e aplicação de nanomateriais de celulose. Esse é um assunto estratégico para o Brasil, considerando as grandes quantidades de biomassa e resíduos agroindustriais que são produzidos anualmente. Além disso, vem aumentando progressivamente a demanda mundial por produtos preparados sob um enfoque sustentável, que utilizam materiais de partida e tecnologias de transformação que reduzam o impacto ambiental e minimizam ou eliminam a geração de substâncias nocivas à saúde humana e ao ambiente”, diz.

Hoje, Juliana divide a rotina no laboratório com a maternidade. “Desde maio de 2014, vivencio a maravilhosa experiência de ser mãe, tentando conciliar uma tarefa que exige dedicação absoluta com um desprendimento ainda maior.”

Muito a fazer

A experiência dessas pesquisadoras revela o aumento da participação feminina na produção científica brasileira, mas ainda há muito a ser alcançado. Segundo levantamento do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), desde 2004, as mulheres são metade dos doutores titulados no Brasil. O percentual não reflete, no entanto, a participação delas nos laboratórios e institutos de pesquisa. Para Bianca, do Ibict, também falta visibilidade.

“Há milhares de mulheres pelo mundo que desenvolvem trabalhos científicos essenciais para a humanidade e que não têm a mesma visibilidade alcançada pelos homens”, lamenta Bianca Amaro.

“É visível nos laboratórios, universidades e centros de pesquisa a presença cada vez maior das mulheres. No entanto, é pouco expressiva a presença feminina em cargos de liderança, o que de certa forma prejudica o desenvolvimento do sistema, que deixa de contar com um recurso humano qualificado que possui condutas, valores e ações diferenciados”, acrescenta Juliana da Silva, do LNNano.

A historiadora Heloísa Bertol é um exemplo de mulher que chegou ao topo da hierarquia. Há três anos à frente do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), ela explica que há uma imagem construída sobre a mulher que atravessa diversas áreas. “Passa pelo educacional, familiar e religioso e define papéis diferentes para os sexos. Isso acaba afetando o campo profissional”, diz ela, que, ao lado da diretora do Ibict, Cecília Leite, são as únicas mulheres a comandar um instituto vinculado ao MCTI.

“As mulheres que conseguiram superar esses preconceitos trabalham normalmente. Cabe a nós, enquanto cientistas sociais, mostrar que o preconceito existe e tem que ser superado. A gente enfrenta, e o masculino ainda não está acostumado a ver a mulher como igual”, afirma Heloísa.

Para combater a desigualdade entre homens e mulheres no ambiente de pesquisa e ampliar a participação feminina na produção científica e tecnológica do Brasil, o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Celso Pansera, lançou nesta segunda-feira (7) o programa Mulheres na Ciência. “Para nós, reduzir as diferenças é fundamental”, garante o ministro.

 

Repercussão: TNPetróleo; Portal Naval; CNTU; Jornal da Ciência

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