Perigo: Crise no Acelerador de Partículas Brasileiro Sirius

Publicado em 02/10/2017
Ubuntu News em 19/09/2017

LINK: http://ubuntueconews.com/2017/09/19/perigo-crise-no-acelerador-de-particulas-brasileiro-sirius/

É  maior e mais complexa infraestrutura científica já construída no país. Mas está em frangalhos. O governo Temer achou dinheiro para ajudar seus aliados, mas está jogando no lixo uma das mais importantes conquistas tecnológicas do Brasil. O projeto Sirius, em Campinas (SP), deveria “elevar o patamar da ciência brasileira no mundo”, segundo o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). Sirius é um gigante acelerador de partículas, que foi planejado para colocar o Brasil na liderança mundial de produção de luz síncrotron.

O maior acelerador de partículas do mundo, chamado Grande Colisor de Hádrons, está instalado na Organização Europeia para Pesquisa Nuclear (Cern, na sigla em inglês), em Genebra.

Diferentemente do Sirius, ele gera feixes de prótons, sendo usado principalmente para pesquisas de partículas subatômicas.

Entre os fornecedores do Sirius está a Siemens, responsável pelo sistema de automação industrial da fase de prototipação das linhas de luz do acelerador, além de treinamento aos pesquisadores.

O equipamento, construído em Campinas, tem 230 metros de diâmetro e, visto por fora, lembra um gigantesco disco-voador ou mesmo um estádio de futebol. O problema é que o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais não tem dinheiro suficiente para fechar o ano sem dispensar funcionários ou desligar suas máquinas.

Como todos os outros institutos de pesquisa federais, o CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energias e Materiais) não tem dinheiro suficiente para fechar o ano sem dispensar funcionários ou desligar máquinas. O centro tem recursos para mais dois meses. Depois disso, se não houver uma liberação de recursos por parte do governo federal, o CNPEM terá de paralisar as atividades.

 

O prejuízo disso seria tremendo para a ciência brasileira. O CNPEM é um conglomerado de quatro importantes laboratórios nacionais – de Biociências (LNBio), Bioenergia (CTBE), Nanotecnologia (LNNano) e Luz Síncrotron (LNLS) – e todos funcionam como “facilities”. Ou seja, são laboratórios dotados de equipamentos caríssimos, de alta tecnologia, que servem a toda a comunidade científica brasileira e também à indústria nacional.

Para cumprir o cronograma de terminar a obra e rodar o primeiro feixe de elétrons em junho de 2018, como previsto, o orçamento original não basta. Além da liberação integral dos 325 milhões de reais previstos na lei orçamentária, o projeto precisa de mais 180 milhões de reais liberados para empenho até o fim do ano para não cair em atraso – o que implicaria encarecimento da obra, além do prejuízo científico, diz o diretor do LNLS, Antônio José Roque da Silva.

O custo total estimado do projeto é de 1,8 bilhão de reais, incluindo o prédio, o acelerador, a mão de obra e as treze linhas de luz previstas para funcionamento até 2020. Essas “linhas” são as estações de pesquisa acopladas ao acelerador, onde os experimentos com a luz gerada pela aceleração dos elétrons no anel interno são executados.

Essa luz extremamente brilhante, chamada de “luz síncrotron”, pode ser usada para estudar a estrutura molecular de diferentes materiais, como uma liga metálica ou um fóssil de milhões de anos. Projetado para ser uma das melhores fontes de luz síncrotron do mundo, o Sirius é um projeto 100% brasileiro, com cerca de 85% dos seus componentes produzidos e desenvolvidos totalmente no Brasil.

“Não existe outro projeto de alta tecnologia no País com esse índice de nacionalização”, destaca Silva. “Cada peça do Sirius exigiu um grau de desenvolvimento sem precedentes. Em alguns casos, sem precedentes no mundo.”

 

Projetos estratégicos do setor – como o novo acelerador de partículas Sirius e o Reator Multipropósito, destinado à pesquisa e fabricação de radiofármacos – foram completamente excluídos do orçamento.

Matheus Magalhães, assessor político do Inesc, destaca que, embora haja reduções orçamentárias “fortíssimas” no planejamento de 2018 em alguns órgãos, áreas e ações como os vinculados a políticas sociais, educação, ciência e tecnologia, no contexto geral há uma elevação de 3,5%, e não redução orçamentária, como se poderia esperar. O Orçamento global subiu de R$ 3,415 trilhões de 2017 para R$ 3,535 bilhões na proposta orçamentária para 2018.

Mais significativo é observar quais as áreas e órgãos que são aquinhoados com aumento de verbas. A Câmara dos Deputados, por exemplo, é beneficiada com uma elevação de 15%, de R$ 5,9 bilhões para R$ 6,8 bilhões. O Ministério das Minas e Energia terá aumento de quase 69,8%, de R$ 4,035 bilhões para R$ 6,85 bilhões. E o montante relativo ao refinanciamento da dívida, à qual eram destinados, em 2017, R$ 925 bilhões, sobe para R$ 1,106 trilhão. O aumento para o Superior Tribunal de Justiça é de 7,2%, e para a Justiça Eleitoral, 11,1%.

“O governo está em crise fiscal, se endividando mais, mas os recursos voltados à área financeira estão garantidos. A impressão é de que são reduções selecionadas”, diz Magalhães. “Não quero dizer que o Judiciário ou o Ministério de Minas e Energia não sejam importantes. Mas estamos na iminência de privatizações de empresas públicas nessa área, enquanto outros órgãos têm reduções drásticas. É no mínimo suspeito que, na maioria dos órgãos, haja redução e uma elevação significativa de quase 70% em Minas e Energia, na expectativa das privatizações”, aponta.

 

Na prática, o orçamento de R$ 6,2 bilhões previsto para 2017 foi contingenciado e caiu para R$ 3,2 bilhões, sendo que só R$ 2,5 bilhões são para Ciência e Tecnologia (excluindo Comunicações), e muitos laboratórios do País já estão sob risco de fechar as portas com esse valor. No caso de um novo contingenciamento em 2018, esse corte seria feito em cima dos R$ 2,7 bilhões.

Os dados mostram “um projeto de destruição do país”, diz Roberto Amaral. Mais do que setores, áreas ou órgãos, essa destruição é sistêmica e global. Ele menciona como sintomáticos, entre outros projetos, a privatização da Eletrobras e o próprio destino que parece ser dado à educação, ciência e tecnologia demonstrados pelo projeto orçamentário.

Segundo ele, há um memorando da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ao Ministério das Minas e Energia segundo o qual existe a possibilidade de aumento de 16,7% no preço do quilowatt com a privatização da Eletrobras, o que abalaria grande parte do parque industrial brasileiro. “Não se recupera em pouco tempo um parque industrial e não há parque industrial se não tem base tecnológica. Sem produção tecnológica, não tem indústria. Não há nem Forças Armadas se não tem ciência e tecnologia.”

As “políticas” do governo para educação ficam explícitas no acordo firmado entre o governo federal e o estado do Rio de Janeiro, observa. “O governo recomenda mais demissões e o fim das universidades do Rio de Janeiro. Que país é esse?”

Ele lembra que a Coréia do Sul e a União Europeia expandem investimentos em ciência e tecnologia. A China aumentou em 26% seus investimentos, para não falar dos Estados Unidos. “Somos o único país do mundo que reduz investimento em educação, ciência e tecnologia”, lamenta o ex-ministro.

Em meio a uma crise econômica, faz sentido apostar tão alto? “É importante que o Brasil tenha objetivos ambiciosos”, diz Caetano Penna, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em política científica.

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