Nanotecnologia transforma vidas sem que se perceba

Publicado em 01/09/2009

01/09/2009 – Bom Dia Brasil, Rede Globo

Veja aqui o vídeo da reportagem.

Quando falamos em nano, estamos falando de uma medida que significa um bilionésimo do metro

Você vai conhecer agora um mundo diferente, onde as cores, as texturas, as leis da natureza, são outras. É o mundo da nanotecnologia, o mundo mínimo. Ela salva vidas, faz música, perfuma, deixa até o cabelo mais bonito.

Ainda estamos tateando no escuro, mandando sinais de fumaça, mas já sabemos muitas coisas sobre o mundo nano. Quando falamos em nano, estamos falando de uma medida que significa um bilionésimo do metro. Ou seja, é como dividir um metro em um bilhão de pedaços.

No universo nano não existe nada plano. No nosso mundo, a superfície de um CD é perfeitamente liso, brilhante. Já no mundo nano, é feita de pistas e vãos profundos.

No nosso mundo enxergamos tudo a partir da luz. No mundo nano precisamos de um microscópio de força atômica, ou um microscópio eletrônico de transmissão em varredura.

“Eu não posso usar luz para enxergar diretamente um objeto nanométrico. Eu tenho que necessariamente usar um aparelho desse tipo. São outras as leis da natureza. São outras, é verdade”, explica o coordenador do Laboratório de Nanotecnologia – USP Henrique Toma.

As leis da física que regem este mundo podem às vezes nos surpreender. Mas nós sempre vivemos em dois mundos: de um lado, o nosso velho conhecido das coisas visíveis e, do outro, o aparentemente desconhecido, invisível e minúsculo mundo. Mas o fundamental é saber que a proporção nano é a dimensão mais importante que existe na natureza.

“O pólen, a poeira, os tecidos biológicos, as plantas, flores, tudo isso é nano. Nós vivemos essencialmente em um mundo nano. Mas o mais bonito é que todos os constituintes do nosso corpo que são as proteínas, as biomoléculas, que contém centenas de milhares de átomos, são nano. Até o vírus é nano. O nosso mundo biológico é essencialmente nano”, descreve Henrique Toma.

”O DNA tem uma medida nano. O que a gente sabe é que é uma coisa incrível, que o DNA fica todo empacotado dentro da célula. É um empacotamento tão grande, que se a gente pudesse esticar o DNA de uma célula, ele teria um metro. Se a gente pudesse esticar o DNA de uma pessoa, de todas as células de uma pessoa, isso daria 16 mil vezes a distância da Terra à Lua. É uma coisa fantástica porque dentro desse DNA estão todas as nossas características”, diz a diretora do Genoma Humano – USP Mayana Zatz.

“Quem coordena toda a vida do universo é uma molécula de DNA. Um ente que tem dois nanômetros de tamanho. Você acha que a natureza escolheria essa dimensão ou essa forma, ou essa estrutura, se ela não fosse a mais eficaz? A vida suplanta a morte há quanto tempo? Toda célula vem de outra célula. Não tem célula que provém de outro lugar sem ser de outra célula. A vida provém da própria vida, da ânsia por ela mesma”, comenta o médico e especialista em nanotecnologia Eduardo Caritá.

A água não consegue molhar a planta. Nanoestruturas na folha foram feitas para repelir a água. E não é só na natureza que se revela o mundo nano. Na Idade Média, o homem já trabalhava com nanotecnologia. A cor vermelha dos vitrais é formada a partir de nanopartículas de ouro.

“Só que o vidreiro não sabia que eram nanopartículas. Mas as cores se mantêm até hoje porque a nanopartícula é eterna. Essa cor sempre vai existir, ao contrário de um corante químico. Os tecidos desbotam, as fotografias perdem a cor. Mas a nanopartícula é eterna”, explica o professor de Química Koiti Araki.

Diante da tela do computador, com a imagem multiplicada pelo microscópio, o professor Koiti Araki, do Departamento de Química da USP, parece, às vezes, um viajante do espaço em pleno mergulho pelas galáxias.

“É uma sensação fantástica. Realmente é como descobrir um novo mundo. Um mundo que, comparado com o da química, por exemplo, ainda é um pouco maior. Mas é um mundo no qual nós temos moléculas, átomos, muito mais organizados e formando estruturas maiores”, aponta Araki.

É no escuro que o doutorando em Física Luiz Henrique Galvão Tizei trabalha. O ar condicionado sai amenizado pelas paredes do tubo de um tecido especial. A vida respira suavemente. Nada pode interferir no funcionamento do microscópio que aumenta um objeto 150 milhões de vezes.

“Isso é a sonda de soro de hospital e a gente usa para manipular a amostra porque a amostra é muito fina. Se eu manipulá-la com a pinça eu posso estragá-la. Então eu uso isso um aparelho pra manipular com a pressão de ar da boca. Eu sugo a mostra e ponho onde eu quero”, mostra Luiz Henrique Galvão Tizei.

Em cima do disquinho de cobre está um fio de carbono, em cima do fio de carbono estão milhares de nanofios. Em um desses nanofios está um nanopoema. Em um lugar invisível e infinito, numa outra dimensão onde os elétrons encontram a poesia.

“Para escrever o nanopoema, demorou mais ou menos 5 horas depois que achei o nanofio até terminar todo o procedimento”, conta.

Luis, doutorando em física, pela Unicamp, pesquisador de nanofios, escreveu o nanopoema com um feixe de elétrons, em um fio mil vezes mais fino do que um fio de cabelo, a pedido do poeta e músico Juli Manzi. A experiência foi realizada no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS).

“Quando nós averiguamos as possibilidades de realização dessa transcriação e vimos ali a nanotecnologia como um bem plausível de realização, imediatamente eu lembrei desse poema do Arnaldo Antunes ‘Infinitozinho’. Em um primeiro momento me chamou a atenção o quanto o resultado plástico da obra era rudimentar. O primeiro impacto que eu tive quando vi foi esse: ‘vida não é fácil escrever com nanotecnologia, realmente”, diz o poeta e músico Juli Manzi.

Nesse minúsculo infinito vamos buscando um jeito, ainda rudimentar, de conservar por escrito nossos melhores pensamentos. Para que lá dentro, na imensidão do espaço, não desapareçam nossas palavras.

* Esta matéria foi publicada também no site:
Rádio Caiçara
Blog Carlucha’s

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