Mulheres ainda não têm lugar na tecnologia — e essa diferença vai demorar para acabar

Publicado em 01/08/2019

O Estado de S. Paulo em 12/07/2019
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Levantamento do ‘Estadão QR’ mostra que o número de formadas na área de tecnologia de 2010 a 2017 foi de menos de um terço do total de homens

De cada dez pessoas que se formam em um curso superior da área de tecnologia no Brasil, apenas duas são mulheres. Entre 2010 e 2017, elas foram 115 mil dos 502 mil graduados nas áreas de computação ou engenharia, conforme um levantamento do Estadão QRcom base nos microdados do Censo da Educação Superior, do MEC.

O setor é justamente o que deve criar mais empregos nos próximos anos, quando os avanços nas áreas de robótica e inteligência artificial podem causar a automação de boa parte dos empregos do País. A Brasscom, Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação, estima que até 350 mil novas vagas na área devam surgir até 2024 — e prevê falta de profissionais qualificados para ocupá-las.

Com menor participação nos cursos de tecnologia, as mulheres também devem aproveitar menos os empregos que surgirão. Seus postos de trabalho têm o mesmo risco de automação que os dos homens que estão no mercado formal, porém as vagas que devem surgir não apenas são ocupadas mais por eles que por elas, mas também estão em áreas de conhecimento que eles dominam no ensino superior.

A engenheira física Debora Magalhães, de 28 anos, faz parte da minoria de mulheres formadas em cursos de exatas no período. Graduada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em 2013, ela era uma das quatro mulheres de uma turma de 30 pessoas. A engenheira relata que, quando optou pela área, ouviu de parentes: “Você não poderia escolher um curso menos masculino?”.

Hoje, Debora trabalha no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em Campinas (SP). A engenheira é uma das cerca de 100 mil mulheres empregadas diretamente na área de tecnologia no País. Em 2017, elas representavam 27% dos engenheiros e profissionais da informática com empregos formais, segundo dados do extinto Ministério do Trabalho, agora vinculado ao Ministério da Economia.

No dia a dia, Débora faz parte do grupo que cuida dos detectores de raio X, que captam as interações entre a luz gerada pelo acelerador de partículas e amostras de laboratório selecionadas pelos pesquisadores. Em uma equipe de seis pessoas há duas mulheres, ela incluída.

 

 

As raízes do problema

A socióloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Felícia Picanço, que estuda as relações de gênero no mundo do trabalho, explica que sociologicamente são muitas as causas que afastam as mulheres do mundo da tecnologia. Segundo ela, o ambiente escolar desempenha um papel central na socialização de meninas.

“Existe uma construção contínua, reproduzida nas escolas, de que matemática não é lugar de menina. É comum que as meninas não se vejam nesse lugar, mesmo que elas tenham notas equivalentes aos meninos”, afirma.

Segundo a socióloga, além da dimensão de socialização de gênero, existe também uma visão objetiva da mulher ao buscar saídas e carreiras que ofereçam menos custos e maiores chances de empregabilidade. “Se eu olho um mundo que é hostil ou áreas acadêmicas que são hostis à minha presença porque eu não vejo modelos exitosos de mulher nesses espaços, eu não tenho nem como mirar nesse lugar”, afirma.

Ouça o comentário de Felícia Picanço, socióloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sobre

No caso de Debora Magalhães, o incentivo partiu de casa:

“Meus pais buscavam brinquedos que fossem unissex, porque eu tenho um irmão e eles queriam que brincássemos juntos”, diz a engenheira. “Então, eu brincava bastante com brinquedos que desenvolvem o gosto pela montagem, por ver algo acontecendo.”

Ela acredita que o encorajamento ao raciocínio lógico foi determinante para que seguisse a carreira na engenharia física.

Mudar a mentalidade de pais e professores, porém, é um processo lento. Economista do Fundo Monetário Internacional (FMI), Mariya Brussevich afirma que essa transformação precisa começar em casa e na escola, mas pode ser ajudada por políticas do governo e de empresas. “O processo pode ser acelerado por reformas legislativas e pelo envolvimento do setor privado”, avalia.

No Brasil, a Brasscom tem feito ações para atrair as jovens para o mercado de tecnologia. Para a diretora executiva da associação, Mariana Oliveira, as mulheres vão ser mais selecionadas quanto mais chegarem aos postos de comando. “Se temos mais mulheres nas empresas, isso as induz a olhar para as candidatas durante a seleção”, diz ela. Segundo a associação que representa empresas de tecnologia, elas ocupavam 35% dos cargos de chefia do setor em 2018.

Um relatório produzido pela Unesco em 2017 afirma que para combater a disparidade de gênero em áreas como programação, escola, família e sociedade devem trabalhar em conjunto para estimular o interesse de meninas em exatas.

De acordo com a diretora geral do Fórum Econômico Mundial, Saadia Zahidi, o órgão tem trabalhado com sete economias da América Latina, em cooperação com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, em prol de práticas e políticas públicas pensadas para diminuir as disparidades econômicas de gênero. Mas o Brasil não está nesse grupo. Ela diz que o Fórum ainda aguarda para trabalhar em parceria com o País. “Gostaríamos de ter essa colaboração com o Brasil. A colaboração público-privada estruturada é a melhor maneira de fechar rapidamente as lacunas econômicas de gênero.”

Globalmente, algumas das profissões que mais empregam mulheres em cargos de renda média baixa, como as de atendimento ao cliente e cargos administrativos, estão entre as que mais correm risco de sofrer automação. “Na verdade, até 2022, as principais habilidades necessárias para desempenhar a maioria das funções serão alteradas em quase 50%”, afirma, seja para homens ou mulheres.

Mãos à obra

Em busca de diversidade nos grupos de programação, iniciativas voltadas às mulheres também passaram a ser formadas. Esse é o caso do R-Ladies, projeto que se propõe a introduzir mulheres ao R, uma das linguagens de programação mais conhecidas na atualidade, e que foi fundado pela estatística e cientista de dados brasileira Gabriela de Queiroz, de 38 anos.

Queiroz teve a ideia de formar o R-Ladies quando se mudou para os Estados Unidos, em 2012. “O que notei indo a eventos de tecnologia é que os homens eram a maioria (dos participantes) e não tinha muita diversidade”, conta. “Eu acabava ficando no meu canto, e não me sentia muito à vontade para fazer perguntas. Foi assim que nasceu o R-Ladies”, explica. Hoje, o projeto existe em 46 países e 160 grupos interagem sobre o tema. No site da iniciativa, é possível localizar o grupo mais próximo — os encontros acontecem periodicamente e são gratuitos.

Também existem  cursos que ensinam mulheres a linguagens de programação. Na PrograMaria, por exemplo, é possível aprender HTML e JavaScript, cursos que são indicados para pessoas que se identificam com o gênero feminino, independente do nível de conhecimento.

“Começamos como um clube de programação em 2015 para mulheres que queriam aprender a programar”, explica Iana Chan, CEO da PrograMaria. “Quando vimos que as dificuldades e barreiras entre nós e a tecnologia eram um problema de muitas outras mulheres, decidimos criar uma iniciativa com a missão de empoderar mulheres com tecnologia e programação.”

Quer saber mais? Também confira a reportagem sobre o tema no IGTV do Estadão QR.

Repercussão: CEERT